OUÇA O NOSSO CANAL WEB RÁDIO
ALMANAQUE WEB TV UM NOVO JEITO DE CONHECER FOZ DO IGUAÇU

Mais de 70 mil crianças já receberam a Pneumo 20 no Paraná

Mais de 70,4 mil crianças menores de cinco anos já foram vacinadas com a Pneumo 20 pelo SUS no Paraná. O imunizante…

R$ 514 mil em patrocínios: veja os seis eventos apoiados pela SMTU

A Secretaria Municipal de Turismo de Foz do Iguaçu destinou R$ 514 mil em patrocínios institucionais para seis…

Wonder Park Foz torna Show das Águas gratuito permanentemente para…

Moradores de Foz do Iguaçu ganharam mais um motivo para conhecer e aproveitar o Wonder Park Foz. A partir de agora,…

IV Sarau Sopro de Sol celebra a primavera com arte, permacultura e…

Há encontros que começam antes da primeira música. Começam na chegada, no abraço, na roda que se forma, na…

ACIFI homenageia Mario Camargo por três décadas de dedicação ao…

Natural de Soledade (RS), Mario Camargo tem escrito uma longa trajetória no associativismo empresarial. De 2004 e…

Inovação, talentos e novos negócios marcam primeiro dia do Summit Iguassu…

Empresários, empreendedores, pesquisadores, investidores, representantes de universidades, cooperativas, startups,…

Itaipu Parquetec vence duas categorias no Prêmio Iguassu Valley 2026

As ações do Itaipu Parquetec para o cenário cultural de Foz do Iguaçu e a promoção da inovação foram…

Interdição de vias no centro de Ciudad del Este altera trânsito e exige…

A realização de eventos culturais e comunitários em Ciudad del Este provocará o fechamento temporário de…
1 De 1.699
Do Ignaro ao Pragmático: relações Brasil-China expõem diferença entre a política externa de Bolsonaro a Lula - Almanaque Futuro

Do Ignaro ao Pragmático: relações Brasil-China expõem diferença entre a política externa de Bolsonaro a Lula

Gaudêncio Penaforte

A visita de Estado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou nesta semana à China marca mais que um gesto diplomático protocolar: representa a reafirmação de uma política externa pragmática, plural e coerente com a tradição brasileira de não alinhamento automático a potências. Ao retomar o diálogo estratégico com Pequim e relançar as bases de cooperação econômica e política entre os dois países, Lula reposiciona o Brasil no tabuleiro internacional após quatro anos de isolamento voluntário e sectarismo ideológico do governo anterior.

O contraste com a era Jair Bolsonaro não poderia ser mais evidente. Desde a campanha eleitoral de 2018 e, sobretudo, durante seu mandato, Bolsonaro ancorou a política externa brasileira em um alinhamento automático e submisso aos Estados Unidos de Donald Trump. O governo ignorou os princípios históricos da diplomacia brasileira, adotando uma retórica agressiva contra a China — principal parceiro comercial do país desde 2009 — e afastando-se de fóruns multilaterais que sempre prestigiaram a atuação brasileira como voz moderada e articuladora no Sul Global.

O ponto mais agudo dessa política de confronto se deu ainda antes da posse, quando, como presidente eleito, Bolsonaro enviou representantes a Taiwan, contrariando a política de Uma Só China — princípio diplomático respeitado por sucessivos governos brasileiros desde 1974. O gesto provocou mal-estar imediato com Pequim e sinalizou uma política externa regida mais por impulsos ideológicos do que por interesses nacionais estratégicos.

Durante a pandemia, a escalada de tensões atingiu novos patamares. Declarações hostis de Bolsonaro, de seus ministros e de seu filho Eduardo — que chegou a acusar a China de conspirar para espalhar o coronavírus — comprometeram as relações bilaterais em um momento crítico para a obtenção de vacinas, insumos médicos e equipamentos hospitalares. A diplomacia brasileira, isolada e enfraquecida, viu-se obrigada a administrar crises sucessivas enquanto o comércio bilateral seguia crescendo, a despeito do ambiente político deteriorado.

Com Lula, o Brasil reassume seu papel tradicional: busca de diálogo equilibrado, defesa do multilateralismo e integração produtiva com a China, não apenas como fornecedor de commodities, mas como parceiro em tecnologia, infraestrutura, transição energética e saúde pública. A recente visita a Pequim, com numerosa comitiva de ministros, governadores e empresários, teve como objetivo estratégico reequilibrar as relações com o principal parceiro comercial do Brasil e buscar a ampliação dos investimentos chineses no país.

Durante a estada em Pequim, Lula também participou do Fórum China-CELAC, encontro que reuniu chefes de Estado e chanceleres da América Latina e Caribe para discutir novas rotas de integração e financiamento no Sul Global. O fórum reforçou o papel da China como principal parceiro comercial da região e maior fonte alternativa de crédito para projetos de infraestrutura e desenvolvimento. Embora o Brasil tenha mantido sua posição cautelosa em relação à Iniciativa do Cinturão e Rota, o evento evidenciou a disposição brasileira de atuar de forma articulada no âmbito regional, resgatando a tradição diplomática de liderança e cooperação horizontal no Hemisfério Sul.

Entretanto, o resultado concreto da viagem ficou aquém das expectativas mais otimistas. Embora o encontro tenha rendido manifestações de afinidade política — como as críticas conjuntas ao unilateralismo e ao protecionismo da nova gestão Trump — e reafirmado a parceria estratégica, os anúncios efetivos de novos investimentos foram bastante tímidos. O saldo revela o pragmatismo da diplomacia brasileira, consciente dos interesses convergentes, mas também das tensões que permeiam a relação.

Um fator de preocupação, e que explica a cautela de Brasília, é a política tarifária dos Estados Unidos em relação à China. O tarifaço imposto por Trump reduz a competitividade dos produtos chineses no mercado americano. O temor, com razoável fundamento, é que a China busque compensar essa perda deslocando seu imenso excedente industrial para outros mercados, entre eles o Brasil, o que poderia afetar segmentos industriais locais e ampliar o déficit na balança de manufaturados.

Importa destacar, ainda, que a aproximação com a China não implicou adesão automática ou dependência estratégica. O Brasil, mesmo em meio à intensificação dos laços bilaterais, optou por não aderir à chamada Iniciativa do Cinturão e Rota — a Nova Rota da Seda — lançada por Pequim como instrumento geopolítico e econômico de projeção global. A iniciativa já conta com a adesão de 148 países, mas o Brasil sinaliza, sob o governo Lula, a intenção de preservar autonomia e seletividade em seus compromissos internacionais. A recusa em aderir à Nova Rota da Seda, portanto, desmente as acusações de alinhamento geopolítico irrestrito a Pequim.

Nesse sentido, a recondução da ex-presidente Dilma Rousseff à presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado “Banco dos BRICS”, simboliza o prestígio recuperado do Brasil no bloco. Dilma exerce a função em um momento estratégico, quando o banco se expande e busca consolidar-se como alternativa relevante às instituições financeiras dominadas pelo eixo Washington-Bruxelas. O gesto sinaliza a retomada da liderança brasileira num dos fóruns mais relevantes da nova multipolaridade internacional.

Como esperado, parte da imprensa tradicional tentou desviar o foco do êxito diplomático da viagem para um episódio lateral, envolvendo a primeira-dama Janja da Silva. Um suposto comentário privado sobre o TikTok, atribuído a ela durante um jantar restrito, ganhou manchetes forçadas e virou falso escândalo instantâneo. Na última coletiva de imprensa em Pequim, Lula rechaçou a especulação e classificou a história como “fofoca improdutiva”, evidenciando o quanto setores da mídia ainda resistem em lidar com a política externa como tema de Estado.

O mais vistoso exemplo desse ranço conservador e anacrônico veio do editorial do O Estado de S. Paulo, sob o título “A má-fé estratégica de Lula em Pequim”. O jornal até reconhece que a visita de Lula resultou em “acordos e promessas de investimentos bilionários chineses no Brasil”, mas logo adverte que o episódio “expôs os vícios ideológicos de Lula”, a quem acusa de “empregar a cooperação comercial como pretexto para alinhamento geopolítico”.

O disparate desta afirmação é evidente: o editorialista confundiu conceitos elementares, tratando cooperação comercial como sinônimo de cooperação bilateral. E acusar o governo de alinhamento geopolítico justo à luz da recusa em aderir à Nova Rota da Seda é agredir a inteligência de qualquer leitor minimamente bem-informado.

O jornal da família Mesquita ainda “exige do chefe de Estado brasileiro uma conduta madura, guiada pelos interesses nacionais, e não fetiches ideológicos” — sem dizer quais seriam esses interesses. Num exercício de retórica estéril, o texto acusa Lula de “disfarçar seu alinhamento a Pequim sob o manto de um pragmatismo virtuoso: garantir investimentos e acesso ao mercado chinês”, para concluir, em tom messiânico, que “a verdade é que Lula utiliza os negócios como pretexto para satisfazer suas inclinações ideológicas e ambições pessoais.”

As diatribes não param aí. O editorial sentencia que “é necessário que a diplomacia sirva ao interesse do Estado brasileiro — não às idiossincrasias de um líder obcecado por glórias internacionais.” E, como se investido de tribunal de exceção da consciência nacional, arremata: “Lula, em vez de liderar o Brasil com sobriedade em um mundo multipolar, arrisca transformá-lo em satélite de uma autocracia. Ao fazê-lo, trai a tradição do Itamaraty, pisoteia valores inscritos na Constituição, como a primazia da democracia e dos direitos humanos, e arrisca alienar parceiros do Ocidente. Os negócios com a China são bem-vindos. A subserviência, não.”

Falta, evidentemente, qualquer menção à deriva autoritária de Trump — este, sim, amigo íntimo de autocratas — ou à vergonhosa subserviência de Bolsonaro a Washington. Ao escolher ignorar esse passado recente, o Estadão, mais uma vez, se revela incapaz de lidar com a política externa brasileira fora do cabresto do atlantismo servil.

Do ignaro ao pragmático, a política externa brasileira dá sinais de reencontro com sua tradição diplomática: soberana, altiva e afeita a construir pontes onde antes se viam muros — mas agora com o cuidado de vigiar os termos das travessias e de proteger o debate público contra o moralismo seletivo e a desinformação editorial travestida de zelo cívico.

Gaudêncio Penaforte é jornalista, ensaísta e analista de política internacional.