Macuco 40 anos: a saga ambiental que redefiniu o Iguaçu e despertou a emoção

Entre os acordes épicos de Ennio Morricone e o desafio de desbravar a selva com sustentabilidade, como o pioneirismo do Macuco Safari transformou o Parque Nacional do Iguaçu em um palco de admiração global.

Redação Almanaque Futuro, com imagens de acervo do Macuco Safari

Há quatro décadas, o Parque Nacional do Iguaçu (PNI) pulsava em um ritmo diferente. Em meados dos anos 80, a visitação orbitava uma média de 350 mil pessoas ao ano — uma fração do volume atual — e a experiência de conexão com a natureza era rústica, quase silenciosa. Naquela época, a Unidade de Conservação já era o pilar das reservas brasileiras, mas sua estrutura ainda carregava o peso da história: o portal de entrada e as habitações de alvenaria adornadas com pedras basálticas eram relíquias da década de 50. O IBAMA, gestor da área, operava com recursos limitados, e o turismo se resumia à contemplação passiva das passarelas e ao tráfego de veículos que cortavam a mata sem o rigoroso controle de fauna que temos hoje.

Nesse cenário de transição, o luxo residia no icônico Hotel das Cataratas, operado pela Rede Tropical do grupo VARIG, enquanto o interior do Parque ainda carecia de uma alma comercial e interpretativa. Filas imensas serpenteavam para o acesso ao elevador do Salto Floriano e guias de turismo clamavam por melhorias nas passarelas que, sob o impacto constante das águas, mostravam os sinais do tempo.

Contudo, entre os anos 80 e 90, o destino Iguaçu sofreu uma metamorfose. Com o curso das obras da Itaipu Binacional, o interesse pela região explodiu, impulsionado pelo ciclo do “comprismo” e pela chegada de hotéis de alto padrão. Foz do Iguaçu tornou-se o destino de reis, chefes de estado e estrelas de Hollywood. O mundo finalmente se curvou à grandiosidade das quedas em 1986, com o lançamento do filme The Mission (A Missão). Sob a trilha sonora celestial de Ennio Morricone, as atuações de Robert De Niro, Jeremy Irons e Leam Neeson serviram de moldura para o banho de imagens mais sensacional que o Rio Iguaçu já recebeu, exportando uma aura de majestade que colocou o parque definitivamente no mapa cinematográfico global.

“O mundo precisa ver isso tudo, essas belezas, como testemunhamos no leito de um rio tão majestojo, cercado de tanta imponência de mata e águas”, disse Robrt De Niro, durante as gravações de A Missão.

A Missão (1986)

Foi exatamente nesse turbilhão de glória e desafios, em 1986, que o Macuco Safari iniciou suas operações. O projeto de Ademir Fernandes não era apenas uma nova opção de lazer; era uma declaração de amor e respeito à biodiversidade. Calcificar essa ideia exigiu uma coragem hercúlea. Ademir enfrentou dificuldades que iam desde a logística bruta até a engenharia ambiental fina. A primeira missão foi adaptar veículos robustos para as trilhas: os escapamentos foram modificados para mitigar ruídos e emissões, e até a escolha dos pneus foi estratégica, garantindo que o transporte não desviasse um centímetro sequer das áreas demarcadas, preservando o solo e a flora.

A operação nasceu com um olhar clínico para o ecossistema. Testes rigorosos foram feitos para garantir que a presença humana não interferisse na rotina dos animais, com atenção especial aos répteis e pequenos mamíferos da trilha. Anos mais tarde, Ademir Fernandes reafirmaria seu DNA visionário ao introduzir veículos elétricos, tornando-se o precursor da eletromobilidade sustentável em parques nacionais brasileiros muito antes da sustentabilidade virar uma pauta global.

O Centro de Visitantes original do Macuco era a tradução da integração ambiental: uma construção rudimentar, coberta de sapê, que desaparecia em meio ao verde da floresta. Por trás da aparência de uma simples palhoça, havia uma estrutura pensada para acolher o turista com dignidade, oferecendo o conforto necessário após o contato visceral com a natureza.

A história do Macuco Safari não apenas corre em paralelo com o sucesso do turismo iguaçuense; ela é o motor que ajudou a impulsionar os números de visitação ao nível atual. Ao capturar e exportar as imagens mais impactantes do leito do rio — onde o turista sente o vapor das quedas e a energia bruta dos penhascos —, o Macuco abriu as portas de Foz do Iguaçu para todos os continentes. O que começou como um sonho audacioso em meio à mata fechada tornou-se o roteiro mais espetacular do destino, provando que é possível unir a grandeza da aventura com o respeito sagrado pelo meio ambiente.