O fogo temperando o oceano de areia

Como as altas temperatura rasgaram o deserto e selaram, em basalto, o destino geológico do Iguaçu e de todo o Cone Sul.

Exclusivo Amanaque Futuro 

A história geológica do Parque Nacional do Iguaçu atinge seu ponto culminante quando avançamos para o Mesozoico, entre aproximadamente 200 e 130 milhões de anos atrás. Nesse intervalo decisivo, a antiga massa continental de Gondwana já estava integrada à vasta Pangeia, mas forças profundas do interior do planeta passaram a impor uma separação irreversível. É neste capítulo que o território onde hoje está Foz do Iguaçu deixa de ser apenas um observador passivo do tempo profundo e assume o papel de protagonista em um dos maiores episódios de transformação da crosta terrestre. Para o leitor do Almanaque Futuro, este é o momento em que o planeta entra em convulsão criativa.

Antes das águas e antes da lava, a região era dominada pelo Deserto Botucatu. Tratava-se de um oceano de areia fina e avermelhada que se estendia por mais de um milhão de quilômetros quadrados, cobrindo áreas que hoje pertencem ao Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Era o maior deserto conhecido da história geológica da Terra, com dunas que alcançavam dezenas de metros de altura, moldadas por ventos constantes sob um clima de aridez extrema. Onde hoje a floresta pulsa e grandes predadores circulam, reinava um silêncio abrasador. Mas esse deserto não estava destinado à permanência: ele funcionou como o grande palco onde a Terra preparava uma de suas mais violentas lições geológicas.

A fragmentação da Pangeia não ocorreu de forma gradual ou silenciosa. À medida que a América do Sul e a África começaram a se afastar, a crosta terrestre sob o Deserto Botucatu passou a sofrer tensões progressivas, até atingir um ponto crítico. Fendas gigantescas se abriram por milhares de quilômetros, permitindo que o magma ascendente do manto extravasasse de forma contínua. Não se tratava de vulcões cônicos isolados, mas de derrames fissurais monumentais: verdadeiros rios de lava que cobriram o deserto em sucessivas camadas. O basalto, rocha escura, densa e resistente que hoje sustenta as Cataratas do Iguaçu, é o registro solidificado desse evento de escala continental.

O que torna essa formação particularmente singular é o encontro entre o fogo e a areia. Em vastas áreas da região, a lava não apenas recobriu as dunas do Botucatu, mas “cozeu” seus grãos, consolidando-os em arenitos altamente porosos. Esses arenitos, aprisionados sob espessas camadas de basalto, passaram a armazenar água ao longo de milhões de anos, dando origem ao Aquífero Guarani — uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta. Há, nesse processo, uma ironia geológica eloquente: a água que hoje sustenta populações inteiras está guardada dentro das dunas fossilizadas de um deserto soterrado por lava incandescente.

Foi nesse cenário de ruptura e reconstrução que a arquitetura do Rio Iguaçu começou a ser definida. As fraturas tectônicas geradas pelos derrames basálticos criaram extensas zonas de fraqueza na crosta. A icônica curvatura em forma de “U” que caracteriza o abismo das Cataratas reflete diretamente essas cicatrizes estruturais, associadas ao resfriamento da lava e às falhas que acompanharam a abertura do Oceano Atlântico. O rio não escolheu esse caminho ao acaso: ele seguiu, ao longo de milhões de anos, as linhas de menor resistência deixadas por um continente que estava sendo literalmente rasgado ao meio.

Compreender esta página é entender o Iguaçu como um monumento permanente à transformação. O basalto das Cataratas testemunha um tempo em que a Terra expelia fogo para reinventar sua própria superfície. A serenidade da paisagem atual contrasta com a violência que a originou. O solo de Foz do Iguaçu é uma sobreposição de extremos: o deserto soterrado, a lava solidificada, a água aprisionada e a tectônica que determinou o curso de um rio. Caminhar pelo Parque Nacional é, portanto, pisar sobre uma fundação de basalto que já foi o combustível incandescente de um planeta em pleno processo de reinvenção.

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