O encontro de gigantes. A aventura do inventor no Iguaçu.

Quando a sensibilidade de um inventor encontrou a força indomável da natureza, nasceu a ideia de preservação.

Exclusivo Almanaque Futuro

O ano era 1916. O mundo sangrava nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, e Alberto Santos Dumont, reconhecido internacionalmente como o Pai da Aviação, carregava uma melancolia profunda ao ver sua maior invenção convertida em instrumento de morte. Fragilizado pela saúde e em busca de silêncio, Dumont retornava de uma conferência no Chile quando o acaso lhe preparou um encontro decisivo. Em Buenos Aires, diante da vitrine de uma casa fotográfica, uma imagem colorizada à mão das Cataratas do Iguaçu capturou seu olhar. Ao seu lado, quase por ironia do destino, estava o autor da fotografia: Moisés Santiago Bertoni. Ali, entre dois homens movidos por ciência, pacifismo e visão de futuro, germinou o impulso que mudaria a história do Oeste paranaense.

Santos Dumont não era um visitante qualquer. Era a maior celebridade brasileira de seu tempo, e sua presença na região de fronteira causou um impacto que a memória oral local preservou com cuidado. Relatos registrados por pioneiras como Elfrida Engel e Otília Schimmelpfeng descrevem um homem introspectivo, atento e profundamente tocado pela paisagem. Dumont subiu o Rio Paraná até Puerto Aguirre — atual Puerto Iguazú — e foi recebido por moradores brasileiros, liderados pelo hoteleiro Frederico Engel, que o hospedou. O acesso às Cataratas, no entanto, exigia esforço físico extremo. A área, então propriedade privada do uruguaio Jesus Val, era uma selva fechada, onde batedores precisavam abrir caminho com facões, atentos à presença de onças e outros perigos da mata.

A jornada até as quedas levou quase um dia inteiro. A pequena comitiva, formada por cerca de vinte pessoas entre adultos e crianças curiosas, avançava protegida por lonas improvisadas cedidas pela Companhia de Fronteira. Ao alcançar o ponto onde hoje se ergue o Hotel das Cataratas, encontraram apenas um quiosque rústico coberto por folhas de palmito — o mirante precário daquele paraíso particular. Dumont, porém, não descansou. Enquanto o grupo se preparava para um almoço simples, ele desenhava e escrevia compulsivamente, tentando registrar em traços e palavras a força da água que desafiava a gravidade e a lógica humana.

O momento mais tenso da visita ocorreu no Salto Floriano. Para espanto dos acompanhantes, o inventor equilibrou-se sobre um tronco úmido projetado à beira do abismo. Diante do silêncio apreensivo do grupo e do olhar assustado das crianças, Dumont manteve-se sereno e pronunciou a frase que atravessaria gerações: “As alturas não me intimidam”. Ali, diante da potência bruta da natureza, ele percebeu algo além do espetáculo. A ideia de que aquela maravilha pertencesse a um único proprietário — e estrangeiro — era inconcebível. Naquele instante, Santos Dumont deixava de ser apenas um visitante ilustre para tornar-se o formulador de uma ideia radical: o Iguaçu precisava ser livre.

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