O DNA de toda a nossa existência

Uma viagem ao tempo profundo para compreender as origens geológicas, naturais e humanas de um dos territórios mais enigmáticos do planeta.

Esta edição não é apenas mais uma etapa em nosso percurso editorial; é um divisor de águas. Ao longo dos anos, o Almanaque Futuro buscou registrar as transformações do nosso tempo. Desta vez, porém, decidimos mergulhar em uma profundidade diferente. Propusemo-nos a um desafio ambicioso: traçar um entendimento abrangente — ainda que necessariamente sintetizado — sobre o Parque Nacional do Iguaçu. Não sob o olhar comum do turismo contemplativo, mas sob a perspectiva da eternidade. O que apresentamos aqui é uma investigação sobre aquilo que nos formou, muito antes de sermos quem somos.

Cientificamente, não há erro em afirmar que esta região foi forjada nos primórdios, em um tempo em que a escala humana sequer era um rascunho. Falamos de um cenário configurado há centenas de milhões de anos, a partir de eventos geológicos de proporções colossais. Ao percorrer estas páginas, transitamos pela grandiosidade do tempo profundo e pelo inevitável contraste entre o eterno — as rochas que sustentam o abismo — e o efêmero — a vida que pulsa e se transforma a cada segundo sobre elas.

Por que o Almanaque Futuro decidiu mergulhar nessas águas agora? A resposta é simples em sua complexidade: mais para aprender do que para ensinar. Em um mundo saturado de informações rasas, sentimos a urgência de buscar discernimento. E, como jamais caminhamos sozinhos, convidamos você, leitor, para este mergulho de natureza científica e histórica, ancorado na realidade regional. Queremos que, ao final desta leitura, o seu olhar sobre as Cataratas não seja mais o mesmo.

O Parque Nacional do Iguaçu é muito mais que um santuário ecológico de beleza cênica inigualável. Ele é uma cicatriz magnífica na crosta terrestre, um registro físico da separação dos continentes e da força bruta de uma natureza que não pede permissão. É o resultado de vastos derrames basálticos que redesenharam o mapa do mundo. Nossa meta vai além do informar: buscamos transformar a percepção. Compreender a geologia é compreender o ritmo do próprio planeta.

Foz do Iguaçu expressa essa transformação de maneira singular. É um exemplo planetário de como a ousadia humana e a força natural podem, apesar das tensões, coexistir em favor da existência. De um lado, a engenharia monumental de Itaipu; de outro, a exuberância selvagem do Parque Nacional. Juntos, esses dois gigantes sustentam um dos mais relevantes corredores de biodiversidade do continente. Trata-se de uma reserva da biosfera exemplar, um último grande baluarte que prolonga a existência da Mata Atlântica — bioma praticamente erradicado pelos ciclos econômicos em pouco mais de um século.

Há algo de profundamente espiritual na ciência de campo. Quem teve a oportunidade de ver uma floresta resistir e renascer? Quem pode afirmar que convive com a reprodução de espécies que o mundo julgava perdidas? Ver nossos filhos ajudando a escolher os nomes dos filhotes de onças-pintadas não é apenas um gesto lúdico; é um reconhecimento coletivo de vitória. Quando a onça, topo da cadeia alimentar, se reproduz, ela emite uma mensagem inequívoca: o ecossistema está vivo. Tudo está em equilíbrio.

A tarefa de condensar 4,54 bilhões de anos de história planetária em poucas páginas é, admitimos, um desafio hercúleo. Mas é justamente no limite do possível que o Almanaque Futuro se posiciona. Vamos viajar no tempo. Percorrer o leito outrora fumegante que se tornou basalto rígido; ouvir a Terra rangendo enquanto os continentes se afastavam; observar o relevo adquirir a icônica forma em “U” e, lentamente, ser tomado pelo verde profundo.

Veremos a água ganhar densidade e o território ser povoado por uma diversidade inimaginável. E veremos, por fim, a chegada do homem com sua mão ambivalente: a que preserva por consciência, a que devasta por ganância e a que busca refúgio em busca de sentido. Traçar esses paralelos é instigante, necessário e urgente.

 

Seja bem-vindo a esta jornada.

O DNA da nossa existência está escrito nestas pedras e nestas águas. Vamos decifrá-lo juntos.

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