O Decreto da redenção; do lombo do burro aos tribunais

Da indignação à ação, Santos Dumont transformou contemplação em política pública.

Exclusivo Redação Almanaque Futuro

A transformação da indignação de Santos Dumont em ação concreta exigiu coragem física e determinação moral. Logo após a visita às Cataratas, ignorando as limitações impostas por sua saúde fragilizada, o inventor iniciou uma travessia extenuante em lombo de burro até Guarapuava. Dali, seguiu para Curitiba com um propósito inegociável: encontrar-se com o então presidente do Estado do Paraná, Affonso Camargo. Dumont não buscava homenagens nem concessões. Exigia providências. Sua tese era clara, avançada para a época e de profundo alcance civilizatório: riquezas naturais daquela magnitude não podiam ser mercadoria; pertenciam ao povo e à humanidade.

O encontro foi decisivo. Diante da autoridade moral e científica de Santos Dumont, Affonso Camargo assinou o decreto de desapropriação das terras pertencentes a Jesus Val. A reação do proprietário foi violenta e duradoura. Relatos históricos registram sua inconformidade, marcada por tentativas reiteradas de reverter a decisão, inclusive oferecendo devolver a indenização recebida. O litígio atravessou décadas e deixou ecos que ainda hoje transitam pelos tribunais superiores. Como esclarece o Almanaque Futuro, contudo, essa pendência atinge apenas uma fração mínima — menos de 10% — da área atual do Parque Nacional do Iguaçu, sem jamais ameaçar sua soberania territorial.

Santos Dumont não se limitou ao gesto inicial. Assumiu com convicção o papel de divulgador das Cataratas, levando o tema a autoridades e formadores de opinião. Cumpriu a promessa feita aos amigos em Foz do Iguaçu e dialogou com Cândido Rondon, defendendo que o governo federal assumisse a proteção integral da área. O encontro entre o homem das comunicações e o homem da aviação consolidou a semente de uma política ambiental inédita no país. Essa ideia fomentaria, anos depois, na criação oficial do Parque Nacional do Iguaçu, em 1939.

Muito antes de o termo “ambientalismo” integrar o vocabulário público, Santos Dumont já compreendia o extrativismo descontrolado como ameaça direta à identidade nacional. Sua visão ultrapassava o presente e enxergava o valor da paisagem como patrimônio coletivo e direito das futuras gerações. Homenageá-lo em Foz do Iguaçu é, portanto, um exercício de justiça histórica — ainda que o inventor, amante do silêncio e da introspecção, talvez se incomodasse com celebrações ruidosas.

Seu verdadeiro monumento não é de bronze. É feito de água, basalto e floresta preservada. Graças à sensibilidade de Dumont e ao encontro fortuito com Bertoni em Buenos Aires, o Brasil deixou de ignorar seu extremo Oeste para reconhecê-lo como tesouro. A visita de 1916 não foi apenas uma passagem ilustre: foi o marco zero de uma nova consciência. Quando Santos Dumont se equilibrou sobre aquele tronco no Salto Floriano, segurava, na verdade, o futuro de Foz do Iguaçu — impedindo que ele despencasse no abismo do esquecimento.

 

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