A vila no confim do mundo e o nascer de um povoado

Foz surgiu cercada pela mata soberana,como vizinhança — não como seu dono.

Exclusivo Almanaque Futuro

Se a ciência de Moisés Santiago Bertoni foi a primeira a sentir o pulsar profundo da região, coube à presença militar a tarefa física de marcar o território. Em julho de 1889, o Oeste paranaense não era uma cidade, tampouco um projeto urbano definido, mas um imenso silêncio verde, interrompido apenas pelo rugido constante das Cataratas e pela vida invisível da mata. A expedição comandada pelo tenente José Joaquim Firmino, enviada a partir de Curitiba sob a égide do Império de Dom Pedro II, não se assemelhava a um exército de conquista. Era um pequeno grupo de homens enfrentando uma jornada de meses por rios, picadas e doenças tropicais. Ao alcançarem as margens do Rio Paraná, descobriram-se, ironicamente, cidadãos de um novo regime: a República havia sido proclamada enquanto ainda lutavam contra febres, isolamento e mata fechada.

Colônia Militar do Iguaçu não nasceu como fortaleza inexpugnável, mas como um embrião de vila encravado na floresta. O primeiro censo revela tanto a fragilidade quanto a singularidade daquele início: pouco mais de uma centena de habitantes, entre brasileiros, paraguaios e argentinos, dividiam o mesmo espaço em casas de madeira e coberturas de sapé. Esse mosaico humano deixava claro que a fronteira, antes de ser política, era uma convivência forçada pela sobrevivência. O cotidiano era regido pelas roças de subsistência, pela abertura de trilhas e pela adaptação a um ambiente que ainda ditava todas as regras. Notícias do mundo exterior demoravam semanas para chegar, subindo lentamente as corredeiras dos rios.

Nesse cenário rústico e provisório, surge a figura de Cândido Rondon, então jovem oficial da Comissão Estratégica de Linhas Telegráficas. Rondon não trazia apenas fios, postes e mapas: trazia uma visão. Sua missão envolvia demarcar fronteiras e integrar o território ao restante do país, mas também estabelecer contato pacífico com os povos originários. Sua passagem pela região imprimiu um viés humanitário e científico à ocupação, ajudando a transformar o que era visto como “vazio” em território conhecido e respeitado. Ao inserir Foz do Iguaçu na malha de comunicações do Brasil, Rondon inaugurava uma forma menos violenta de presença estatal, em contraste com a rigidez dos marcos militares tradicionais.

A vida no povoado, porém, acontecia para além dos decretos e das medições oficiais. Enquanto oficiais desenhavam limites, civis percebiam as possibilidades oferecidas pela floresta e pelos rios. A convivência entre soldados-colonos, estrangeiros platinos e antigos moradores da região produziu uma cultura de fronteira peculiar, baseada na troca, no comércio rudimentar e na ajuda mútua. O chamado “posto militar” funcionava, na prática, como ponto de encontro de gente que via naquela encruzilhada fluvial uma chance de recomeço.

A poucos quilômetros dali, contudo, outro mundo permanecia soberano. O território das Cataratas — ainda sem nome oficial, sem cercas e sem qualquer estatuto de proteção — continuava intocado. A fauna reinava absoluta: onças, antas, aves em bandos e uma vegetação exuberante ocupavam um espaço onde o tempo humano ainda não havia se imposto. Esse ecossistema preservado coexistia como vizinho silencioso do nascente povoado, um relicário de biodiversidade que ignorava mudanças de regime, linhas telegráficas e disputas diplomáticas. Era o domínio pleno da água e do basalto, uma catedral verde alheia à lógica da ocupação.

Foz do Iguaçu surgia, assim, como um paradoxo geográfico e histórico: uma vila mínima instalada à margem de uma das maiores forças naturais do planeta. Em 1889, com apenas algumas dezenas de famílias, o povoado começava a atrair aventureiros, comerciantes e empreendedores atentos às oportunidades da fronteira. O discernimento que o Almanaque Futuro propõe é claro: Foz nasceu menos como imposição e mais como vizinhança.

Mas esse frágil equilíbrio seria logo testado. O palco estava montado para a próxima transformação — os ciclos econômicos que avançariam sobre a floresta em busca do “ouro verde” e da madeira, inaugurando o primeiro grande embate entre ocupação humana e preservação daquele paraíso que, até então, parecia eterno.

 

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