A Herança de Gondwana – O Berço Continental

Quando continentes eram um só, o solo do Iguaçu começou a ser moldado pelas forças que antecedem a própria vida.

Excluisvo-Almanaque Futuro

Muito antes de o Rio Iguaçu receber seu nome em guarani, das fronteiras serem desenhadas por tratados diplomáticos ou de o primeiro ser humano contemplar este horizonte, o chão que hoje sustenta Foz do Iguaçu era o coração de um gigante esquecido: o supercontinente Gondwana. Há cerca de 500 milhões de anos, a geografia do planeta desafiaria qualquer mapa moderno. Não existiam o Oceano Atlântico ou o Índico como os conhecemos. América do Sul, África, Índia, Antártida e Austrália estavam soldadas em uma única massa continental, um império geológico que dominava o hemisfério sul. A região que hoje chamamos de Oeste do Paraná não era uma fronteira, mas as entranhas profundas desse bloco colossal.

Nesse tempo remoto, o DNA do Iguaçu começava a ser escrito em uma linguagem de silêncio e pressão. Não havia o verde das matas nem o rugido das águas. O que imperava era a sedimentação lenta em grandes bacias interiores. O ambiente, que hoje nos pareceria desolador, funcionava como um laboratório geológico de fundação. Compreender Gondwana exige um exercício de imaginação radical: esta região, hoje tropical e úmida, já esteve fisicamente conectada ao que viria a ser o deserto da Namíbia e às bacias de Karoo, na África. Éramos um interior continental absoluto, um verdadeiro coração de pedra, distante de qualquer influência moderadora dos oceanos primitivos.

Durante esse período, o clima global passou por oscilações extremas. À medida que o supercontinente derivava sobre latitudes polares, extensas calotas de gelo avançaram sobre porções do que hoje é o território brasileiro. O embasamento geológico sobre o qual Foz do Iguaçu repousa foi testemunha silenciosa dessas glaciações gondvânicas. Detritos transportados por geleiras e sedimentos de mares interiores rasos começaram a se acumular, formando camadas que, milhões de anos depois, serviriam de suporte para os grandes derrames vulcânicos. Era a preparação da base, a fundação necessária para sustentar o que viria das profundezas da Terra.

Compreender Gondwana também é compreender a deriva continental. As rochas que formam a base do solo paranaense possuem equivalentes diretos do outro lado do oceano. A geologia demonstra que a separação dos continentes não foi um processo suave, mas um rasgo profundo que redesenhou o relevo global. Esta região situava-se em uma zona de aparente estabilidade que, paradoxalmente, acumulava tensões internas imensas. Enquanto a vida avançava lentamente nos mares em formas multicelulares mais complexas, o continente permanecia dominado por rochas expostas, ventos persistentes e longos períodos de aridez.

A relevância de olhar para Gondwana hoje reside na percepção da escala do tempo. Tendemos a imaginar a paisagem como algo fixo, mas a herança desse supercontinente ensina que o chão é nômade. Foz do Iguaçu já ocupou latitudes polares e já integrou o interior de um deserto global. O que hoje é um santuário de biodiversidade começou como um substrato mineral rígido, moldado por ciclos de frio extremo e pressões tectônicas contínuas.

Esta etapa da história planetária nos permite compreender que o Parque Nacional do Iguaçu não nasceu de um evento isolado, mas de um longo processo de maturação da crosta terrestre. Este é o primeiro ato de uma narrativa que levou meio bilhão de anos para se desenrolar. Antes da água, houve o gelo; antes da floresta, houve a poeira sedimentar de um continente que abraçava metade do planeta. Ao caminhar pelas trilhas do Parque, pisamos, literalmente, nos vestígios de um império geológico que precisou se fragmentar para que a vida, em sua diversidade atual, pudesse florescer.

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