A costura verde; o Corredor da Biodiversidade e a lição de Itaipu

A preservação do futuro nasce quando a floresta deixa de ser fragmento e volta a ser caminho.

Exclusivo Almanaque Futuro

O discernimento que o século XXI exige é simples e profundo: a natureza não sobrevive em ilhas isoladas. Durante décadas, o Parque Nacional do Iguaçu foi percebido como uma joia solitária cercada por um oceano de desmatamento — herança direta dos ciclos econômicos que moldaram a região. Esse paradigma, porém, começou a ser superado por uma revolução silenciosa e exemplar, que transformou Foz do Iguaçu em referência internacional de restauração ambiental: o Corredor da Biodiversidade. Nesse redesenho do território, o papel da Itaipu Binacional revela-se decisivo e, para muitos, surpreendente.

Se no passado Itaipu era celebrada quase exclusivamente por seus recordes de geração de energia, hoje atrai a atenção do mundo por uma conquista igualmente estratégica: a de maior programa contínuo de reflorestamento de áreas de proteção de reservatórios do planeta. Antes mesmo da construção da barragem, quando a região ainda carregava as cicatrizes das obrages e da exploração madeireira, iniciou-se um esforço sistemático para reconduzir a Mata Atlântica a um estado funcional de equilíbrio ecológico. O Corredor da Biodiversidade consolidou-se, assim, como uma verdadeira “costura verde”, conectando o maciço florestal do Parque Nacional às reservas mantidas ao longo do Lago de Itaipu e do Rio Paraná.

Essa conexão não é apenas simbólica; ela é biológica. Ao permitir o fluxo gênico — a circulação natural de fauna e flora entre áreas protegidas — o corredor garante a sobrevivência de espécies a longo prazo, fortalecendo populações e reduzindo o risco de extinções locais. O que se observa em Foz do Iguaçu é uma lição concreta para o mundo contemporâneo: grandes obras de engenharia e desenvolvimento tecnológico não precisam ser inimigas da vida.

Quando orientadas por planejamento científico e compromisso ambiental, tornam-se aliadas poderosas da regeneração.

Itaipu consolidou-se, nesse processo, como um verdadeiro posto avançado da biosfera. Seus viveiros produzem milhões de mudas de espécies nativas, utilizadas para recompor áreas degradadas e ampliar a cobertura florestal contínua. Essa infraestrutura verde é o que permite à região proteger um dos biomas mais ameaçados do planeta. O reconhecimento internacional veio com o selo da UNESCO, que classifica a área como Reserva da Biosfera — validação de um modelo que integra a água que gera energia à floresta que sustenta a vida.

Para o visitante contemporâneo, compreender Itaipu apenas como uma obra monumental de concreto é reduzir sua verdadeira dimensão. Sua maior proeza talvez seja invisível à distância: o cinturão verde que protege o reservatório, amplia os horizontes do Parque Nacional e fortalece a conectividade ecológica regional. Ao caminhar pelas trilhas do Parque ou observar o lago de Itaipu, percebe-se que a fronteira entre “obra do homem” e “obra da natureza” começa a se dissolver em favor de uma aliança necessária

A palavra-chave dessa nova era é simbiose. Foz do Iguaçu envia ao mundo uma mensagem clara e contemporânea: o que foi destruído pode ser restaurado, desde que haja visão estratégica, persistência científica e compromisso institucional. O Corredor da Biodiversidade garante que as futuras gerações não herdem apenas uma paisagem congelada no passado, mas uma floresta viva, conectada e em expansão. A lição do Iguaçu é definitiva: a verdadeira energia de uma nação não está apenas na força de suas turbinas, mas na capacidade de manter a vida em movimento — ligando o brilho eterno das quedas à sombra sagrada da mata renascida.

 

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