O preço da ilusão: Anvisa investiga 65 mortes suspeitas e Foz do Iguaçu vira epicentro do mercado ilegal de “canetas emagrecedoras”
Febre de fármacos como Ozempic e Mounjaro impulsiona apreensões recordes na fronteira com o Paraguai; relatório revela mais de 2,4 mil eventos adversos graves, incluindo "experiência de morte iminente".
Redação Almanaque Futuro (Com informações de Ed Wanderley/Agência Pública e foto divulgação na internet)
O que começou como uma revolução no tratamento da obesidade e do diabetes transformou-se em um desafio de segurança pública e sanitária no Brasil. Segundo levantamento do jornalista Ed Wanderley, da Agência Pública, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga atualmente 65 mortes suspeitas associadas ao uso de canetas emagrecedoras entre 2018 e 2025. O dado é alarmante: o número de óbitos em análise é dez vezes maior do que as notificações de pancreatite anteriormente divulgadas.
A conexão Foz: o perigo que atravessa a ponte
Enquanto a Anvisa monitora os efeitos colaterais de medicamentos regulares, a faixa de fronteira, especialmente em Foz do Iguaçu, enfrenta uma realidade ainda mais sombria. As chamadas “canetas do Paraguai” ou versões falsificadas de substâncias como a semaglutida tornaram-se as principais protagonistas das apreensões da Receita Federal e da Polícia Federal na região.
O mercado paralelo em Foz é alimentado pela alta demanda e pelos preços reduzidos no país vizinho, atraindo turistas e sacoleiros que ignoram os riscos de transporte sem refrigeração adequada e a procedência duvidosa dos insumos. Somente até setembro de 2025, o volume de insumos irregulares interceptados no Brasil seria suficiente para fabricar 8 milhões de unidades piratas, muitas delas entrando clandestinamente pelo Oeste paranaense.
Além do “mal-estar”: os números da agência pública
A investigação de Ed Wanderley revela que os problemas vão muito além de náuseas e diarreias comuns. Das 2.436 notificações de eventos adversos registradas no sistema VigiMed:
69% das ocorrências estão ligadas à semaglutida (Ozempic/Wegovy).
1% dos casos são considerados gravíssimos, incluindo falência de órgãos e a aterrorizante “experiência de morte iminente” (71 registros).
Pancreatite e Astenia Severa (perda total de força) figuram como as complicações mais recorrentes sob investigação.
A urgência do olhar especializado
O cenário descrito pela reportagem da Agência Pública reforça o que especialistas em saúde têm alertado exaustivamente: a automedicação com análogos de GLP-1 é um jogo de azar com a vida. A Anvisa ressalta que a presença de uma notificação não confirma que o remédio causou a morte, mas exige uma investigação clínica profunda que considera o histórico do paciente. Em Foz do Iguaçu, o risco é dobrado: ao utilizar um medicamento de fronteira sem procedência, o paciente perde o suporte da farmacovigilância e se expõe a substâncias que podem nem sequer conter o princípio ativo anunciado, ou pior, conter impurezas letais.
“Para saber se existe realmente uma relação causal, é necessária uma avaliação clínica completa. O uso dessas canetas sem acompanhamento médico ignora condições pré-existentes que podem ser fatais”, alerta a Anvisa em nota.
A série investigativa da Agência Pública culminará no lançamento do podcast “A Última Bolacha” em março, prometendo dissecar os interesses da indústria e os riscos ocultos dessa nova “corrida do ouro” pelo emagrecimento a qualquer custo.
