Rogério Bonato ingressa em 2026 nas asas do Corvo
A primeira coluna do ano analisa o fuzuê nos primeiros movimentos da nau Foz do Iguaçu, que segue o curso e se esforça para não dar de cara com o iceberg
O corvo bate as asas!
Aqui quem vos escreve é Rogério Romano Bonato, com a liberdade que só o cronista cotidiano ainda ousa exercer. Dei-me de presente alguns dias de descanso. A ideia inicial era uma quinzena sabática, mas o chamado da diretoria — sempre ela — falou mais alto. Dizem alguns leitores que certos assuntos pedem minha opinião. Confesso: é um tipo elegante de cobrança e, melhor ainda, um reconhecimento que não se recusa. Volto, portanto, não por obrigação, mas por vocação incurável.
Notas ou texto corrido? Eis a questão
Durante o recesso, pensei menos no mundo e mais no formato da coluna. Consultei amigos, leitores atentos e curiosos profissionais do palpite. A dúvida era simples e antiga: escrever em notas ou em texto corrido? As notas são rápidas, condensadas, quase pílulas editoriais — permitem mudar de assunto sem pedir licença. O texto corrido, por sua vez, é mais denso, linear, exige fôlego e entrega uma reflexão completa, com começo, meio e, se possível, alguma lucidez no fim. O curioso é que a votação deu empate técnico: 50% para cada lado. Democracia pura. A solução? Alternar formatos, respeitar o tema e o humor do dia. Afinal, nem todo assunto pede sermão; alguns pedem cutucão. Registro: as colunas seguirão acompanhadas não apenas de palavras. Haverá fotos, ilustrações, vídeos e, quando o assunto pedir ousadia, até animações.
Reforma administrativa, versão preliminar
E já que pedem a minha opinião, lá vai. O governo do general Silva e Luna estaria, ao que tudo indica, dando os primeiros passos em uma reforma administrativa. O que se viu de concreto – com direito a rebuliço – foi a chegada de Patrícia Iunovich à presidência da Fundação Cultural e o remanejamento da jornalista Leilane Dalla Benetta para uma diretoria do Centro de Convenções. Faço aqui a correção necessária — não é Neubarth (como alguns desavisados escreveram), é Dalla Benetta — e faço também justiça: a competência é parelha. A nossa Leilane é profissional rara, dessas que entregam resultado sem alarde. Não vive de currículo decorativo, mas de experiência acumulada. Não por acaso, é quase uma “tri-diretora”: está sempre sendo chamada para missões relevantes. Quanto mais quadros assim o governo espalhar por secretarias e autarquias, maiores são as chances reais de *correção de rumo.
Arranca-rabos e uma defesa curiosa
Falando da Leilane — sem puxar orelha de colegas nem entrar no esporte predileto de espezinhar adversários — o debate nas redes sociais claramente passou do ponto. Houve exageros, previsíveis, diga-se. As correntes contrárias ao governo cumpriram seu papel: existem para isso, vivem disso, sustentam-se nisso. É quase um fenômeno natural, como o medo de Herodes das criancinhas. O curioso foi outro ponto: quem saiu em defesa da Leilane não foi a situação nem colegas do serviço público. Foi gente de direita, de esquerda, de centro, de todos os matizes ideológicos. Não se defendeu um governo; defendeu-se a competência. Algo cada vez mais raro num ambiente onde o pessoal costuma atropelar a análise fria da máquina pública. Eu mesmo permaneci neutro — raramente entro nessas brigas digitais. Esperei o retorno à lide para, aí sim, opinar.
E a Patrícia?
Sobre a Patrícia Iunovich, começo lembrando que escrevo sobre amigos — quase todos os envolvidos, independentemente do lado nas diatribes, são pessoas com quem convivo há muito, muito tempo. Isso ajuda a separar afeto de análise. Patrícia é uma mulher que aprendeu cedo a se defender da vida. Nasceu literalmente na garupa de uma moto, no “Globo da Morte”, acompanhando os pais de cidade em cidade até o parque de diversões se fixar em Foz do Iguaçu, nos anos 1980. Enquanto a família trabalhava, ela estudava. Formou-se jornalista com essa visão mambembe e sagrada do mundo, onde o pão na mesa é conquista diária. Alguém realmente acha que um turbilhão de dois dias a assustaria? Pelo contrário: desafio é coisa que ela nunca recusou. Se virou vidraça, aguenta. Não escrevo por dever de amigo — já a critiquei quando foi preciso. Escrevo por dever de cronista. E, convenhamos, a pobreza do debate público em torno disso tudo é que deveria nos causar algum constrangimento. A cidade merecia algo bem maior e mais elegante — gostem ou não do prefeito, concordem ou não com seus movimentos.
Pegada firme
Patrícia subiu a escadaria — quase sacrossanta — da Fundação Cultural sem tempo para liturgias administrativas. Mal teve espaço para conhecer a planta do prédio e já deu de cara com o Carnaval, esse evento que sacode a poeira, a rotina e o humor dos iguaçuenses. Reuniu-se com os blocos praticamente no primeiro dia de gestão, pediu projetos, mexeu na programação, analisou detalhe por detalhe com a precisão adquirida nos anos de Itaipu Binacional. Ali, organizou incontáveis atividades culturais: eventos, shows, lançamentos de livros, exposições, sempre em diálogo com o turismo, na missão permanente de impressionar centenas de milhares de visitantes ávidos por experiências. Posso relatar, sem medo de errar, que não houve pedido de entidade ou proposta cultural e social que não fosse analisada — e, na medida do possível, atendida. É com esse cabedal que resolveu assumir a Fundação Cultural. Houve sacrifício? Sim. Não por dinheiro — está muito bem aposentada —, mas por dever e devoção à cidade que lhe deu chão. Só por isso, já merecia tapete vermelho. O que recebeu foi tábua de faquir.
Canja, Charanga e Carnaval da Saudade
Na tardinha da segunda-feira, Patrícia reuniu-se com os organizadores da Canja do Galo Inácio, da Charanga da Yolanda, do Bloco Papai Urso, além da presidente do Rotary Foz do Iguaçu – Grande Lago e da representante do CAIA – Centro de Atenção Integral ao Adolescente, entidade homenageada na 25ª edição da Canja, que, além de solidária, é assumidamente carnavalesca. A reunião foi conduzida com primazia e método — e saiu dali algo raro nos tempos atuais: confiança. É exatamente isso que um gestor público deve provocar quando a proposta é, de fato, atender o contribuinte. Participei do encontro, portanto não relato por ouvir dizer. Descrevo como foi. E foi bom. Os detalhes devolverei em próxima coluna.
Cidades, navios e naufrágios
Para iniciar o ano — político, de Copa do Mundo e de outros testes de resistência — vale lembrar que cidades se parecem muito com navios. Há um capitão, uma tripulação e, claro, os passageiros: a população. A história está repleta de naufrágios, alguns causados por erro humano, outros por circunstâncias tão extraordinárias que desafiam o julgamento posterior. Recentemente reli um artigo do The Guardian lembrando que, mais de cem anos depois, ainda há controvérsias sobre a culpa no desastre do Titanic. À época, não se previa o deslocamento de massas de gelo colossais nas correntes do Atlântico. O navio era uma potência tecnológica, uma montanha de aço rebitado a todo vapor e, por mais ousada que fosse qualquer manobra, dificilmente escaparia da colisão. Nem todo naufrágio é simples de explicar — ou de atribuir responsabilidade.
O leme, o voto e a viagem
Não sei se cidades estão fadadas a tragédias semelhantes, mas sobrevivem a terremotos, enchentes e, não raramente, a governos mal conduzidos. A diferença fundamental é que cidades têm eleições. A população escolhe quem segura o leme — algo que navios não permitem. Talvez por isso sejam mais democráticas do que companhias de navegação, ainda que nem sempre escapem dos naufrágios políticos. No caso de Foz do Iguaçu, conhecido o tamanho do estrago herdado pelo atual governo, cabe aos passageiros decidir: a nau deve seguir viagem, com correções de rumo ao longo desses três anos, ou deve ser afundada de vez? Às vezes, é isso que parece quando se escutam certos discursos. Calma, né. Participar do processo, cobrar escolhas melhores na composição da tripulação e alertar o comandante também é exercício de cidadania. Observemos, então, os próximos movimentos dessa travessia. Até amanhã.
