A cátedra do acolhimento: o legado imortal de Germano Lauck em Foz do Iguaçu

Dezessete anos após sua partida, a memória do "apóstolo da resiliência" continua a pulsar no coração da fronteira, unindo fé, justiça social e um exemplo inabalável de superação.

Redação Almanaque Futuro com informções e pesquisa de Patrícia Iunovich e lay out da imagem proposto por Rogério Bonato

Neste domingo, 1º de março, as badaladas dos sinos da Matriz São João Batista parecem ecoar um nome que se tornou sinônimo de Foz do Iguaçu: Hermann Josef Lauck. Para nós, simplesmente Padre Germano. Se estivesse entre nós fisicamente, o clérigo alemão que escolheu o Brasil como pátria completaria 92 anos este mês. No entanto, sua presença é sentida de forma tão vívida que os 17 anos de sua ausência parecem apenas um breve intervalo em uma conversa que nunca terminou.

Diferente das grandes figuras de autoridade que se isolam em torres de marfim, a “cátedra” de Padre Germano era o anexo simplório ao lado da Matriz. Ali, a hierarquia social era inexistente. Na fila de espera por um conselho, o prefeito e o gari compartilhavam o mesmo banco e a mesma expectativa.

Sempre bem-humorado, apesar das dores que o acompanhavam desde o grave acidente em 1975, ele recebia a todos com uma paciência que parecia brotar de uma fonte inesgotável. Ele não apenas ouvia; ele curava conflitos familiares e restaurava a harmonia entre jovens e casais, mantendo grupos ativos que serviam como a verdadeira rede de proteção social da cidade.

A trajetória de Germano Lauck é um tratado sobre a capacidade humana de transcender a biologia. Paraplégico e dependente de sessões contínuas de fisioterapia, ele transformou sua limitação física em uma ponte de empatia. Sua “cruz diária” não era um fardo exibido com lamento, mas uma ferramenta de trabalho. Ao ver o padre, em sua fragilidade física, lutar pelos desvalidos, a comunidade entendia que não havia desculpa para a omissão.

Esse espírito se materializou no Projeto Social Esperança e Vida. O que nasceu em 1997 para socorrer vítimas de uma enchente no Jardim Panorama, hoje é uma instituição robusta que alimenta centenas de pessoas e capacita cidadãos através da alfabetização e do ofício. É a prova de que a caridade de Germano não era um ato isolado, mas um sistema de amor ao próximo.

A amizade com o ex-prefeito Paulo Mac Donald Ghisi rendeu à cidade uma homenagem à altura de sua importância: o Hospital Municipal Padre Germano Lauck. Mais do que uma placa na fachada, o nome carrega a responsabilidade do cuidado. Na capela do hospital, vitrais e fotos imortalizam o rosto sereno do padre, lembrando a pacientes e profissionais que a cura passa, invariavelmente, pelo acolhimento humano.

Hoje, o túmulo no pátio da Matriz São João Batista não é um local de luto, mas de romaria. Tornou-se um ponto de convergência onde a fé prática de Germano Lauck continua a operar milagres cotidianos na esperança de quem ali dobra os joelhos.

Padre Germano não passou por Foz do Iguaçu; ele se fundiu a ela. Dezessete anos depois, sua “âncora moral” continua a estabilizar as águas por vezes agitadas da nossa fronteira.