Quem é rei nunca perde a majestade: a consagração emérita de Walmor Maciel
A estranheza de um novo monarca recebendo as chaves da cidade deu lugar a uma onda de reverência quando o eterno Rei Momo, após 50 anos de folia, surgiu entre seus súditos para abençoar a nova geração.
Redação Almanaque Futuro com informações e imagens de arquivo; fotos de Eliane Schaefer e Abel da Banca
Para os olhos acostumados às tradições das Cataratas, uma cena causou um estranhamento. No palco oficial, o jovem Leonardo Moisés Galdino de Oliveira recebia as chaves de Foz do Iguaçu das mãos do prefeito General Silva e Luna. Leo cumpria todos os requisitos: sorriso largo, samba no pé e o porte que o cargo exige. Ao seu lado, a Rainha Lívia Costa Santos, mas, nas alas dos veteranos, o sussurro era um só: “Onde está o Walmor?”
Afinal, Walmor Bonfim Maciel não é apenas um nome na lista de personagens da cidade; ele é uma das “pedras fundamentais” do nosso Carnaval, como definiu a diretora-presidente da Fundação Cultural, Patrícia Iunovich. Há mais de 25 anos ele mantinha a coroa, com face inabalável de alegria — um sobrevivente da pandemia, governos que ignoraram a folia e a gestões que flertaram com a incompetência. Walmor nunca abandonou seus súditos.
A aparição surpresa do “Rei Emérito”
A sucessão, embora necessária, não foi bem assimilada de imediato pelo “reino”. O afastamento de sua majestade, motivado por questões de saúde — um persistente problema nos joelhos e uma recente cirurgia de catarata —, manteve o Rei em convalescença doméstica. Contudo, quem tem o samba no DNA não se rende ao repouso.
Na tarde de sábado, para surpresa geral, Walmor surgiu dirigindo o próprio veículo na Charanga da Yolanda. Ao desembarcar, o tempo parou. Não houve apenas aplausos; houve reverência. O mais nobre integrante do Bloco Papai Urso (homenageado em 2025) estava ali, não para reclamar o trono, mas para sentir o calor do povo que o ama.
A emoção tomou conta de Walmor quando Patrícia Iunovich aproximou-se para render homenagens. Preocupada em não incomodá-lo durante sua recuperação, a Fundação optou pela “substituição monárquica”, mas com uma ressalva histórica: Walmor agora é o Rei Emérito do Carnaval de Foz.

Meio século de folia, 25 anos de trono
A trajetória de Walmor é um mapa do prazer iguaçuense. Tudo começou em 1974, no Clube Gresfi. De lá para cá, ele foi o comandante-mor dos salões do Floresta Clube, do Oeste Paraná e do Country. Quando o Carnaval desceu para o asfalto, lá estava ele, invariavelmente acompanhado de sua saudosa esposa, Dona Maria Maciel, no lendário Restaurante Rei Momo, onde a dobradinha e a feijoada alimentavam os blocos Vamos Animar e o Bloco da Skol.



Hoje, viúvo e enfrentando as responsabilidades domésticas e os cuidados com a saúde, Walmor admite, com a voz embargada, que é hora de passar o cetro. “Para ocupar esse trono é preciso muita disposição e saúde em dia, pois o circuito é agitado”, revelou com a sabedoria de quem já deu a volta por cima em tantas avenidas.
O Gesto Nobre: “vida longa ao Rei”
A transição, que começou com um susto para os foliões, caminha agora para um desfecho de gala. Walmor manifestou o desejo de realizar uma transição formal para o jovem Leo, um rito que a Fundação Cultural deve organizar.
Ao abençoar o sucessor com um generoso “Vida longa ao Rei!”, Walmor provou que a coroa é apenas um objeto de metal e pedrarias, mas a realeza é algo que se carrega na alma. E deixou um aviso, com o brilho nos olhos de quem ainda tem muito confete para jogar: “Se um dia me chamarem para estar ao lado da rainha e das princesas, não recusarei o convite!”.
O Carnaval de Foz segue, agora com dois reis: um que herda o futuro e outro que, para sempre, guardará as chaves do nosso coração.
