Uma cidade mais democrática e sustentável pode ser também um bom negócio

*Por Luiz Henrique Dias

 

Até alguns anos, debates e discussões sobre o cuidado ambiental e as formas de democratização dos espaços urbanos eram consideradas freios, amarras, para as economias.

Quando falávamos em proteção de áreas, sempre alguém dizia que a legislação ambiental atrapalhava o progresso. Da mesma forma que, quando defendíamos a ampliação de direitos, como gratuidades no transporte público, logo uma voz já se levantava para perguntar “e quem vai pagar essa conta?”. Ou seja, havia uma relação de amor e ódio permeando os temas.

Mas hoje a situação mudou por completo e quem ousar defender a economia com argumentos anti-sociais ou anti-sustentáveis estará caminhando para o ostracismo.

Precisamos pensar coletivamente em um modelo de urbanismo mais convidativo e considerar que, em tempos de transição energética, combustíveis verdes, preservação de florestas e cuidados com as águas e o solo, Foz do Iguaçu tem um capital ecológico e natural valioso e que pode aumentar em muito as chances de atrair à cidade mais e mais turistas e até moradores de alta qualificação que buscam uma cidade de médio porte, com bons serviços e mais pacata que os grandes centros.

As sucessivas administrações públicas que passaram, ainda com os pés – ou o corpo inteiro – na antiga forma de perceber o tripé cidadania – sustentabilidade – economia, não compreenderam que as pessoas vêm para cá para ver a natureza e que preservar de forma insistente e incisiva, bem como inserir a preservação na lógica da intervenção urbana, pode fazer com que as pessoas fiquem, gostem e voltem mais.

Já deveríamos ter um transporte coletivo bom, gratuito ou muito barato, de absoluta qualidade e elétrico, ou ao menos mais sustentável, com veículos confortáveis e silenciosos.

Já deveríamos ter discutido de forma mais séria o modelo de asfalto que usamos e nossas calçadas, olhando para a diminuição das ilhas de calor e para a caminhabilidade. Também, já deveríamos ter uma rede integrada e sombreada de ciclovias, com estrutura de parada, descanso e hidratação. Já imaginou os turistas tirando fotos de toda essa mobilidade exemplar?

Ao mesmo tempo, poderíamos ter políticas públicas de referência. Foz poderia ser lembrada pelo Brasil e pelo mundo como a cidade das Cataratas e da cidadania inovadora, com a criação de mecanismos de participação popular constantes e eficazes, como conselhos populares e um grande orçamento participativo, que abrangesse não somente o processo decisório mas também a fiscalização dos resultados e políticas.

Seria adequado investir em arranjos econômicos locais, valorização de modelos de economia circular, sistemas de hortas públicas para alimentação saudável e programas de renda poderiam ser feitos em maior escala, numa grande ação de marketing positivo e verdadeiro, apontando que a cidade se ocupa do ofício de cuidar bem quem também vai receber visitantes e futuros moradores.

Inclusive, tenho insistido na questão “quem quer vir morar aqui” pois, se antes queríamos as pessoas aqui por mais dias, defendendo o aumento da permanência do turista, hoje devemos nos preparar para receber quem decide morar e construir sua vida na cidade, como acontece com professores e técnicos, por exemplo, que vieram para trabalhar na Unila. Pessoas que trabalham aqui, difundem educação e cultura, mas também compram na cidade, investem em imóveis, movimentam a economia e formam jovens. Só benefícios para a cidade e para a economia, não?

Dessa forma, é razoável pensar que Foz do Iguaçu ganha muito economicamente quando preserva suas riquezas e quando cuida de sua estrutura urbana e social. Ao meu ver, tal assunto nem mais deveria ser tema de debates ou artigos, como esse, em sim um consenso social e político, já com um planejamento claro e com ações em andamento.

E para quem ainda insiste em perguntar de onde sairia o dinheiro para toda essa transformação, vale lembrar: que grande organismo brasileiro ou internacional sério não financia ou não incentiva mudanças sustentáveis em uma cidade como Foz do Iguaçu?

Luiz Henrique Dias é professor e coordenador do Coletivo de Cidadania de Foz do Iguaçu.