Papa Francisco: uma vida dedicada aos pobres, excluídos e às causas que afetam a natureza.
Pontífice, após uma aparente melhora, faleceu na madrugada desta segunda-feira (21), depois de participar de todos os eventos da Semana Santa.
A última ceia de Francisco
O mundo sentiu alívio ao ver o papa celebrando quase todos os preceitos e rituais litúrgicos da Semana Santa. Mesmo com ares de recuperação, frente aos males que o condicionaram sob severos rigores médicos, Francisco fez aparições públicas, falou e se deslocou com a ajuda de uma cadeia de rodas. Em um dos momentos ele ficou aparentemente sem fôlego e foi aos pouco recolhido da aparição em uma das sacadas do enorme edifício que é o Vaticano. Na madrugada desta segunda-feira, 21 de abril, Jorge Mario Bergoglio, escolhido como 266.º Papa da Igreja Católica, Bispo de Roma e Soberano da Cidade do Vaticano, se despediu, aos 88 anos. Assumiu como Pontífice em 13 de março de 2013, permanecendo do mais alto cargo da Igreja Católica por 12 anos.
Francisco nasceu em Buenos Aires, 17 de dezembro de 1936, foi o primeiro sul-americano a ocupar o cargo, mantendo posição em combater a injustiça social, os conflitos e guerras e também as questões climáticas. Em uma de suas falas mais conhecidas “a desigualdade social e a degradação ambiental andam de mãos dadas e têm a mesma raiz: a do pecado de querer possuir e dominar os irmãos e irmãs e a natureza”.
Para Francisco, as soluções estavam nas políticas públicas conduzidas pelo Estado e no serviço religioso, atendendo não apenas aos problemas espirituais, mas o sofrimento cotidiano dos mais pobres. Como jesuíta, sempre atuou e se manifestou contra as diferenças sociais.
Foi adepto e ligado à chamada Teologia do Povo, um movimento conectado à Teologia da Libertação, originário da América Latina, ante os governos autoritários. A Teologia do Povo, por sua vez, atuava com pacifismo, não admitindo a luta armada durante as ditaduras. Bergoglio também foi um apoiador das políticas trabalhistas e de distribuição de renda nas gestões peronistas.
Quando jovem, frequentou o curso técnico em química, se dizia um amante do tango e torcedor do San Lorenzo, time de futebol, aliás, fundado por um padre salesiano. Foi ordenado padre jesuíta em época do Movimento dos Sacerdotes para o Terceiro Mundo, embora nunca tenha se associado à iniciativa, no entanto, suas críticas ao “lucro a qualquer custo” influenciaram a carreira eclesiástica.
Formando-se em filosofia e teologia, lecionado psicologia e literatura em diferentes universidades, Francisco foi um crítico tendência intelectualista do clero; frequentava hospitais, presídios e favelas, o que lhe valeu o apelido de padre “villero”, ou “favelado”, em acordo com a tradução; “quando alguém me acusa de ser um papa ‘villero’, apenas rogo para que seja sempre digno disso”, disse em várias oportunidades.
Arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio pediu aos sacerdotes em comunidades mais pobres; como cardeal ele mesmo mantinha essa aproximação, com os trabalhadores mais humildes, catadores de lixo, e aos inclinados em lutas pelos direitos humanos. O convívio com os pobres causou muitos desconfortos ao cardeal Bergoglio, chamado de marxista, comunista, sofrendo duros ataques da extrema direita. “A atenção aos pobres está no Evangelho e na tradição da Igreja, não é uma invenção do comunismo e não devemos fazer dela uma ideologia”, citando também dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.
O papa Francisco causou importantes reformas na Igreja Católica e será lembrado pelo carisma e defesa aos pobres, excluídos e oprimidos. Assim, Kevin Farrell, Cardeal Carmelengo da Igreja anunciou o seu falecimento: “Queridos irmãos e irmãs, é com profunda tristeza que devo anunciar a morte de nosso Santo Padre Francisco. Às 7h35 desta manhã, o bispo de Roma, Francisco, voltou para a casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de sua Igreja. Ele nos ensinou a viver os valores do evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados. Com imensa gratidão por seu exemplo de verdadeiro discípulo do senhor Jesus, encomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Uno e Trino”.
O funeral
Francisco atualizou regras do próprio funeral em 2024, determinando que houvesse “simplicidade e simbolismo”. Os funerais de papas são eventos importantes para a Igreja e, em geral, são acompanhados por milhões de fiéis ao redor do mundo. A cerimônia para Francisco seguirá o novo protocolo litúrgico que foi publicado oficialmente em novembro do ano passado. O primeiro passo após a morte de um papa é a confirmação do óbito. Quem realiza o protocolo é camerlengo, cardeal que administra a Igreja durante o período conceituado como “Sé Vacante”. Ele chamará o papa pelo nome três vezes. Se não houver resposta, a morte será oficialmente declarada. No passado o rito envolvia o uso de um martelo de prata. O camerlengo batia levemente na testa do pontífice, mas a prática foi abolida. Em seguida, o Anel do Pescador será retirado e destruído com um martelo, marcando o fim do pontificado.
O corpo de Francisco não passará pelo Palácio Apostólico; irá diretamente para a Basílica de São Pedro, onde haverá o velório, em caixão simples, no solo da Basílica, portanto sem um esquife elevado, como nas ocasiões anteriores.
Francisco pediu alterações no modelo do caixão. Antes o papa era enterrado em três urnas de cipreste, chumbo e carvalho. O caixão agora será madeira revestida com zinco, refletindo o estilo mais humilde do pontífice.
O papa não será enterrado na Basílica de São Pedro, onde repousam outros papas, mas sim na Basílica de Santa Maria Maggiore. Assim ele demonstra a sua forte devoção à Virgem Maria.
Após o funeral, a Igreja iniciará os “novendiales”, com missas e orações pela alma do papa. A tradição milenar reforça o período de luto e espiritualidade em todo o mundo católico.
Como líder espiritual de mais de um bilhão de pessoas, o funeral de Francisco contará com a presença de líderes mundiais, chefes de governo e representantes das principais religiões, transformando o evento em uma grande cerimônia inter-religiosa e diplomática.