No Bico do Corvo: Enio Verri no Contraponto e o Xadrez Político de 2026
Em um ano de xadrez eleitoral, Enio Verri utiliza a vitrine da binacional para blindar investimentos e consolidar o projeto de 2026, provando que a técnica e a política podem (e devem) falar a mesma língua.
Audiência
O rádio ainda é o termômetro mais fiel da fronteira. No final da manhã de 26 de janeiro, o Diretor-Geral Brasileiro (DGB) da Itaipu, Enio Verri, sentou-se à bancada do programa Contraponto, na Rádio Cultura, para um bate-papo que misturou gestão técnica com a malícia necessária de quem conhece os corredores de Brasília e Curitiba. Verri distribuiu diplomacia, mas deixou recados claros nas entrelinhas.
Democracia: o General e o deputado
Verri demonstrou o que chamamos de “grandeza institucional”. Mesmo com o General Silva e Luna — seu antecessor e adversário político — agora no comando da Prefeitura de Foz, Enio foi categórico: “Vale quem foi eleito”. Garantiu que a Itaipu não será usada como arma de retaliação. É a política da boa vizinhança levada a sério. Mas, convenhamos, para um ser político como Verri, deve ter dado aquela coceirinha na garganta ao falar da gestão vizinha. Ele engoliu, mas com classe de diplomata.
Torneira aberta (e com filtro)
Dissipando os “venenos” espalhados pela rádio-corredor, o DGB confirmou que o Itaipu Mais que Energia não vai parar. São 399 municípios do Paraná e parte do MS no radar. Enio é, de longe, o DGB mais político e articulado dos últimos tempos. Ele sabe que, em ano eleitoral, investimento no interior é o melhor cartão de visitas para o projeto maior do governo federal.
A tarifa “mico” da oposição
Verri defendeu a tarifa da Itaipu como uma das mais baratas do Brasil. No ano passado, muita gente da oposição (inclusive parlamentares que confundem kW com kWh) tentou emplacar a narrativa do prejuízo. O resultado? Pagaram o mico. Itaipu tirou de letra, provando que seus acordos e o famoso Anexo C são blindados contra falácias de curto prazo.
O “rombo” que não existe
Sobre as notícias de prejuízo contábil, Verri foi enfático: são distorções para alimentar manchetes caça-cliques. A saúde financeira da usina é sólida como o concreto da barragem. O “rombo” é fruto de interpretações criativas de quem quer desgastar a gestão, ignorando que Itaipu é uma entidade binacional com regras próprias de balanço.
Além da Energia: o futuro é verde
Itaipu não é mais só uma “fábrica de luz”. Verri destacou o Hidrogênio Verde e o SAF (Combustível Sustentável de Aviação). A usina se posiciona como um hub tecnológico global. Para quem não lembra, Itaipu recuperou florestas inteiras que o ciclo da madeira e da erva-mate tinha devastado décadas atrás. Hoje, ela planta tecnologia e colhe sustentabilidade.
Agro e água: casamento blindado
A parceria com cooperativas para proteger as matas ciliares e controlar sedimentos é vital. Se o reservatório assoreia, a turbina para. Verri resgatou essa história que vem desde os anos 70, mas que agora ganha contornos de agricultura familiar orgânica. É o agro moderno entendendo que sem a água da Itaipu, o lucro seca.
O social que vem do lixo
O carinho do Governo Lula com os catadores não é segredo. Verri lembrou que Itaipu financia mais de 250 cooperativas. Não é apenas assistência, é economia circular na veia. O modelo é tão eficiente que o mundo está de olho no que Foz e região fazem com o que os outros jogam fora.
Paradoxo do bolso vazio
Uma reflexão lúcida: o Brasil tem excesso de energia limpa (solar e eólica bombando), mas a conta de luz continua salgada devido aos encargos setoriais. Verri jogou a real: o governo quer baixar o custo, mas o sistema é pesado. Itaipu faz sua parte entregando energia barata na fonte; o problema é o “pedágio” que ela paga até chegar no seu chuveiro.
Cinquentona e em forma
As 20 turbinas de Itaipu têm 50 anos, mas alma de 20. O processo de Atualização Tecnológica (UAT) é um investimento bilionário que garante eficiência para o próximo meio século. É o maior projeto de modernização desde a construção da usina.Xadrez 2026: o Plano Lula 4.0
Na política, Enio jogou com o regulamento debaixo do braço. Não descartou 2026, mas focou na gestão. Sabemos que a prioridade do PT é a reeleição de Lula. Enio, que abdicou do mandato de Deputado Federal para assumir o comando da usina, continua sendo um “player” central. Ele não saiu da política; ele apenas trocou o plenário por uma das cadeiras mais potentes da América Latina.

Rogério Romano Bonato assina a coluna No Bico do Corvo. Escreve de segundas as sextas-feiras com exclusividade para o Almanaque Futuro e Rádio Cultura de Foz do Iguaçu.
