Fortalecer a educação e políticas públicas é chave no combate à violência contra a mulher e intolerância religiosa
Os temas foram pauta de audiência discutida na Câmara de Foz na manhã de hoje
A Câmara Municipal de Foz do Iguaçu realizou, na manhã de segunda-feira (30), uma audiência pública para debater ações de prevenção e combate à violência contra a mulher e à intolerância religiosa. A discussão, proposta pela vereadora Anice Gazzaoui (PP), reuniu representantes do Poder Executivo, forças de segurança, entidades e membros da sociedade civil, com base nos requerimentos nº 58/2026 e nº 122/2026.
Ao abrir a sessão, a parlamentar destacou a gravidade dos dados e a necessidade de enfrentamento dos temas. “Somente entre janeiro e dezembro de 2025 foram registradas cerca de 2 mil ocorrências em Foz, sendo mais da metade dentro das casas dessas mulheres. Estamos reunidos para tratar de questões que exigem sensibilidade e comprometimento. Não podemos mais permitir que mulheres sejam agredidas por sua religião, nem normalizar ataques, como os direcionados à muçulmanas pelo uso do hijab. Precisamos avançar com leis mais rigorosas para que nenhum tipo de violência seja tolerado”, afirmou a vereadora Anice Gazzaoui (PP).
Relatos e posicionamentos sobre intolerância religiosa
No que se refere à questão do combate à intolerância religiosa, a representante da mesquita, Amar Alrai, leu na tribuna um documento elaborado no âmbito do Fórum Nacional Inter-Religioso, destacando propostas como o reconhecimento formal da intolerância religiosa como violação no âmbito municipal, a implementação de políticas públicas voltadas à convivência entre diferentes crenças, a inclusão do tema na agenda legislativa e a promoção de campanhas de conscientização. “Este documento não é apenas uma carta, mas um posicionamento coletivo de vozes que se recusam a aceitar a exclusão”, ressaltou.
O representante do Centro Cultural Islâmico de Foz, Khalid Walid Omari, também se manifestou: “Enquanto não conseguimos construir um paraíso aqui na Terra, precisamos recorrer ao Legislativo para que produza leis importantes, capazes de beneficiar as comunidades e as minorias que sofrem constrangimentos, especialmente as mulheres”.
Nadia Zeinedin, representante da instituição Mulheres do Lar Druzo, leu na tribuna uma nota de repúdio à intolerância religiosa. “Viemos a público manifestar nosso repúdio a todo tipo de intolerância. É inadmissível, nos dias atuais, a persistência desse comportamento. Reafirmamos nosso compromisso com o diálogo inter-religioso, pois a intolerância compromete valores fundamentais da sociedade, como o respeito, a dignidade e a convivência pacífica”, declarou.
Mãe Angela, presidente da Aremafi, manifestou solidariedade ao povo muçulmano e relatou experiências de intolerância. “Nós, do povo do axé, somos solidários e também sofremos preconceito por causa das nossas vestes. Muitas vezes, as pessoas usam termos pejorativos por desconhecerem nossa cultura. Não gostar de uma religião é um direito, mas respeitá-la é um dever. A fé do outro deve ser compreendida como parte da dignidade humana”, afirmou.
O sheik Jihad, presidente da Associação Nacional dos Juristas Islâmicos, destacou princípios de convivência. “Deus nos orienta a apoiar uns aos outros no bem e na devoção, e não no erro. Essa deve ser a base das relações humanas, independentemente da religião. Parabenizo Foz do Iguaçu por essa iniciativa, uma cidade que já enfrentou desafios e soube superá-los”, disse.
Já o sheik Oussama El Zahed ressaltou o impacto da intolerância na sociedade. “Esse tema é fundamental, pois afeta a dignidade das pessoas. A violência contra a mulher é uma grave violação dos valores humanos, já que ela é a base da família. Uma sociedade saudável depende do respeito e da proteção. O Alcorão nos ensina a agir com bondade, e Foz, com sua diversidade, é um exemplo — que precisa ser preservado diariamente”, pontuou.
Representando a Assembleia de Deus, Luciano Lima enfatizou o papel coletivo na construção de uma sociedade mais justa. “A sociedade precisa construir ambientes saudáveis em casas, igrejas e comunidades. Foz é exemplo dessa convivência, mas precisamos avançar. A OAB está aqui para defender o direito de todos à liberdade de fé, inclusive de quem não tem religião. Por isso, defendemos leis mais rigorosas contra a intolerância e o cumprimento das que já existem”, afirmou.
Sulamita Carvalho, também representante da Assembleia de Deus, trouxe um relato pessoal. “Falo como cidadã e como voz de mulheres que enfrentam violência religiosa e de gênero. Cresci em um lar evangélico e sofri preconceito pela forma de me vestir. Hoje, como mãe e empresária, me sinto no dever de combater essa realidade. Muitas vezes, a violência começa em silêncio e termina em tragédia. Violência não educa, violência é crime. Precisamos de leis mais rígidas e de mais respeito às mulheres”, concluiu.
Pastor Sebastião, Vice presidente do conselho de pastores – COPEFI. “Falando a respeito de intolerância e respeito, a religião nunca vai pregar o ódio. Nunca vi uma autoridade religiosa mandar matar outra, temos que amar nossos irmãos para ter uma sociedade em que todos possam viver juntos. A nossa fronteira aqui é o Paraguai e a Argentina, mas a real fronteira é o respeito”.
O sheik Mohamad Khalil também se pronunciou durante a audiência. “Acompanhamos as notícias sobre violência contra a mulher, mas precisamos ir além dos aspectos negativos e valorizar exemplos positivos. No exterior, ainda há uma visão distorcida do Brasil, associada à violência e a estereótipos, o que me constrange. O país é referência em convivência, harmonia e desenvolvimento, e isso também precisa ser destacado”, afirmou.
Luciana Branco, representante da Federação Internacional das Mulheres de Carreiras Jurídicas, destacou sua preocupação com a realidade enfrentada pelas mulheres. “Falo como jurista e alguém que transita por diferentes espaços religiosos. Todos os livros sagrados nos ensinam a igualdade, e as religiões pregam a paz e o amor. Ainda assim, me incomoda ver tanta violência contra as mulheres nesse contexto”, afirmou.
A delegada Iana Nayara Dantas, da Delegacia da Mulher e do Turista, destacou a importância de transformar o debate em ações concretas. “Discutir a violência é expor a realidade e buscar soluções. Acredito no diálogo como caminho para construir políticas públicas. Quando falamos de intolerância religiosa, a maioria das vítimas são mulheres, e não dá para separar esse tema de questões como misoginia e racismo, pois estão interligados. Já temos leis, mas precisamos avançar para que as mulheres não continuem sendo vítimas dentro de casa”, afirmou.
Aplicação da lei para redução dos casos de violência contra as mulheres
Maristela Bail, coordenadora da Patrulha Maria da Penha, ressaltou a importância da efetividade das leis. “A lei é muito bonita no papel, mas precisa ser aplicada. Em Foz do Iguaçu, estamos há dez anos sem casos de feminicídio entre mulheres com medidas protetivas; às vítimas que tivemos não solicitaram a medida, seja por medo ou falta de informação. Não adianta o agressor ser condenado se a mulher já não está mais entre nós. Precisamos prevenir, não apenas combater. Quando a violência acontece, é sinal de falha da sociedade e do poder público, por isso a educação, desde cedo e em todos os espaços, é fundamental”, afirmou.
A policial penal Edilena Coelho, representante da diretora da Penitenciária Feminina de Foz do Iguaçu, destacou os desafios e avanços no sistema. “Algo que sempre me incomodou foi a falta de atenção às mulheres, inclusive quando a unidade era dirigida por homens. Tivemos que lutar por nossos direitos, e hoje a direção é exclusivamente feminina, o que representa um avanço. A intolerância muitas vezes chega ao sistema penal, e o cumprimento da pena não deve ser apenas punitivo, mas também voltado à reeducação. Hoje, há medidas como estudo e trabalho para os apenados, mas precisamos continuar enfrentando a violência contra as mulheres”, afirmou.
Educação e políticas públicas efetivas como ferramentas para enfrentamento da violência
A vereadora Marcia Bachixte (MDB) destacou a importância da educação no enfrentamento à violência. “Vivemos em um país laico, mas isso nem sempre se reflete na prática. O combate à violência começa pela prevenção, dentro da sala de aula. É preciso educar para superar o preconceito, porque quando uma mulher é agredida por sua fé, toda a sociedade está falhando”, afirmou.
A vereadora Yasmin Hachem destacou a gravidade dos temas. “Falar de violência contra a mulher e de intolerância religiosa é tratar de dores reais que atravessam a vida de muitas pessoas. Sempre defendi a liberdade religiosa como um valor inegociável. Quando falamos de intolerância, estamos tratando de violação de direitos e de violência concreta. Já a violência contra a mulher precisa ser enfrentada com seriedade, não como algo pontual, mas com ações efetivas do poder público”, afirmou.
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