O ônibus da insensatez: pare o mundo fragmentado, eu quero descer

A nova ordem global troca cooperação por força bruta, eficiência por medo — e empurra todos nós para a contramão da história.

Rogério Bonato

Escrevi recentemente sobre os tempos de piá, quando a ficção nos mantinha orbitando o mundo da Lua. Era um tal de viajar no tempo, explorar o abismo submarino ou passear pelas estrelas como quem dobra a esquina. Alguns leitores, rápidos no gatilho, responderam prontamente à lembrança. Não era provocação — era memória. Um tempo em que o futuro imaginado não tinha espaço para picuinhas, cercas, muros ou bravatas. Na ficção clássica, quando não estávamos mergulhados na distopia, o planeta unia-se pela própria sobrevivência. O problema é que erramos feio nas projeções. A realidade de 2026 ficou bem pior. Seguimos, firmes, na velha marcha da insensatez.

Francamente, essa nova ordem mundial não condiz com a vida real. O planeta hoje se parece com um ônibus lotado, avançando aos solavancos, movido a cotoveladas e asfixia. O ar cheira a óleo diesel, o calor é insuportável, há gente pendurada nos estribos e, para piorar, vários motoristas brigam pelo volante. Nenhum deles disposto a frear. Isso não tem como dar certo.

Já não há fôlego nem para a velha bilateralidade. O que impera é a força bruta: arrochos, sanções, chantagens e um “toma lá, dá cá” profundamente desproporcional. Assistimos à consolidação da geoeconomia — ou, como preferem os analistas, à fragmentação global. Se a globalização entre os anos 1990 e 2010 buscava eficiência, escala e lucro sem fronteiras, a nova lógica troca tudo isso por segurança, soberania e medo. O mundo virou de pernas para o ar; as regras universais foram empacotadas no porão. Para os mais fracos, a lei é o silêncio.

A morte da eficiência deu lugar ao culto da “resiliência” — palavra gourmetizada para justificar retrocessos caros. Produzir onde é mais barato deixou de ser virtude; agora, vale produzir onde o “amigo” manda. É o friend-shoring: comércio apenas entre compadres ideológicos. Quem não pertence ao bloco é apagado do mapa. Some-se a isso o protecionismo tecnológico e verde, com subsídios bilionários e barreiras tarifárias travestidas de moralismo ambiental. O resultado é matemático: tudo fica mais caro para quem está dentro do ônibus. É o custo desse calor insuportável que não passa.

O multilateralismo virou peça de museu. Em vez de tribunais, temos represálias. Em vez de negociação, bloqueio de chips, sequestro de minerais críticos e estrangulamento financeiro. Pequenas nações são empurradas para escolhas binárias, sacrificando autonomia para não enfurecer os gigantes. A economia deixou de ser ponte para virar trincheira. Já não se invade apenas com tanques; invade-se com cadeias de suprimento, moedas, juros e algoritmos de inteligência artificial que decidem quem senta na janela e quem é jogado para fora.

Tudo isso nos é vendido como “segurança nacional”, mas o que se sente é o cheiro acre do cinismo. Ver potências invadindo territórios em busca de recursos naturais, em pleno século da sustentabilidade, enquanto o discurso oficial prega a preservação, parece mais roteiro apocalíptico de baixo orçamento do que política pública. O esforço humano deveria ser o oposto: flexibilizar em vez de fracionar, cooperar em vez de sitiar. Mas as mentes gananciosas optaram pela contramão. E nós, passageiros desse ônibus desgovernado, pouco podemos fazer diante do poderio militar e econômico que nos mira.

Ainda existe algum espaço de manobra para quem tenta a neutralidade — especialmente no Sul Global —, mas ele é estreito, escorregadio e provisório. A tendência é clara: quem não segura o volante paga o impacto da batida.

Alô, alô, marciano…
Se puder, nos dê uma carona.
Pare este mundo.
Eu quero descer.

*Rogério Bonato escreve com excluisvidade para o Almanaque Futuro.