No Bico do Corvo: o Sol quadrado e as sombras do Alvorada

Entre o misticismo da porta de cadeia e o realismo das pesquisas, a coluna analisa o eclipse do bolsonarismo e os novos ventos que sopram para 2026.

Uma semana!

Buongiorno! Mamma mia, a coluna No Bico do Corvo segue sua trajetória em torno do Sol! Saciando a curiosidade de alguns leitores, volto a informar que ocuparei uma cadeira na bancada do programa Contraponto, da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, entre os dias 02 ou 03/02. Explico: eu e Eliane Luiza faremos uma rápida viagem de negócios ao redor da Baía da Babitonga, inspecionando o que fazem os golfinhos. Pode ser, uma ou outra coluna acabe falhando.

 

Lamúria

Quando Lula cumpria pena na PF de Curitiba, havia velas, políticos em vigília e rojões em dias de jogo do Corinthians. Mas nada se compara ao estardalhaço bolsonarista na porta da Papuda. É uma sonora barbaridade! Se em Curitiba o clima era de resistência ideológica, na capital o tom beira o transe místico, misturando política com um messianismo de porta de cadeia que assusta.

 

A coluna Nikolas

O deputado e organizador da marcha não contava com um raio desabando sobre os peregrinos. Fez cara de piá pançudo sob o temporal. Estima-se que a mobilização de Nikolas Ferreira, no domingão, tenha levado 18 mil pessoas à Praça do Cruzeiro. Para quem inflava o peito esperando um milhão de vozes, a decepção foi nababesca. O fenômeno das redes descobriu que, sob chuva, o “like” não vira pé no barro.

 

Falação

E quem diria: muitos participantes reclamaram mais da organização do que da prisão do líder. “Cadê o almoço?”, uns gritavam. No palanque, falaram de todos os males da Nação, quase esquecendo de clamar pela liberdade do “seo” Jair. Se ele viu a manifestação, foi no formato quadrado, tal o sol faz escândalo ao se pôr na Capital. Antes ele admirava a paisagem das vidraças palacianas; agora, o horizonte é o que cabe no respiradouro.

 

Sonhadores

Há fanáticos que dão de fazer comparações com a prisão de Lula: “A história se repete, ele será solto e eleito”. O problema é a ficha corrida. As penas para crimes contra o Estado Democrático são espessas e o Código Penal não é tão lúdico. Enquanto o petista discutia ritos e fóruns, o “Capitão” encara tipos penais que não costumam oferecer o benefício do esquecimento ou da anulação por CEP errado.

 

Santo do pau oco

Um entusiasta da causa soltou o perdigoto: “Bolsonaro é o preso político mais famoso do mundo em todos os tempos”. É de uma carência histórica que comove. Nelson Mandela, que amargou 27 anos por lutar contra o Apartheid, ou Gandhi, mestre da resistência, devem estar rindo no éter. Comparar a saga de quem enfrentou impérios com a de quem guardou joias e tramou no Alvorada é um insulto à inteligência.

 

Aula de história

O termo “preso político” serve para quem é encarcerado por suas ideias, não por atos previstos no Código Penal. Bolsonaro não está lá por suas opiniões, mas por indícios de tentativa de golpe e outros “pecadinhos” administrativos. Se a moda pega, todo batedor de carteira que tiver uma ideologia vai exigir o status de exilado de cela. Falta livro na prateleira dessa gente e sobra tempo para teorias delirantes.

 

O ranking da fama

A lista de presos célebres é longa e pesada. Tem de Sócrates a Martin Luther King, passando por figuras que mudaram o curso da humanidade sem precisar de “live” ou cartão corporativo. Colocar o ex-presidente no topo desse pódio é algo que nem o melhor psicanalista explica. Ele é, no máximo, o detento mais comentado nos grupos de WhatsApp da família, o que é um título bem menos nobre. Observação: o Sócrates em questão não é o ídolo dos corintianos.

 

Voto de silêncio

Curioso notar que, enquanto a claque grita, os aliados de primeira hora começam a praticar o voto de silêncio. Muitos que juravam lealdade eterna agora fingem que não conhecem o “número 22”. O poder é como uma festa de réveillon: todo mundo aparece para o espumante, mas na hora da faxina no dia seguinte, os “parças” somem e o dono da casa fica sozinho segurando o pano de chão e a conta da bodega.

 

O Sol é quadrado

Ué? O exercício vale, quando há bolsonarista que ainda teima que a Terra é plana! Voltando ao tema, a rotina carcerária é um choque de realidade para quem vivia cercado de puxas-sacos e lagostas. Na Papuda, não tem cercadinho para ofender jornalistas, nem motociata para desopilar o fígado. O tempo lá dentro corre devagar, num ritmo que a ansiedade não alcança. É o encontro do mito com o homem comum, e o homem comum, neste caso, usa uniforme padrão e obedece a sinal de apito.

 

Amnésia coletiva

O plano dos “crentes da soltura” é uma eleição em 2026 com o nome de Jair na urna. Esquecem, por conveniência, que a inelegibilidade é um nó cego difícil de desatar. Estão rezando de joelhos por um milagre jurídico que ignore a lei e a lógica. No fim, o que sobra é a lamúria de quem não aceita o fim do espetáculo. A cortina caiu, o cenário está sendo desmontado, mas eles continuam sentados na plateia, esperando o bis.

 

Vale tudo

O fato é que muitos aliados do ex-presidente não deram as caras na manifestação, nem mesmo no momento da largada. Estão é articulando um jeito de esticar e puxar para enfrentar Lula nas eleições deste ano. E essa será a cara de 2026: de gente se alternando para testar números das pesquisas.

 

Falar em pesquisa…

A redação do Almanaque Futuro recebeu em primeira mão uma recente pesquisa avaliando a corrida pelo governo do Estado. Malgrado a mecânica, os nomes e os cálculos, Moro segue na ponta, em cenário muito parecido com a corrida dos cavalinhos do Fantástico. Para cumprir a tabela e obedecer à lei, mesmo não publicando a tal pesquisa e seus relatórios, é necessário informar que ela foi realizada pela Paraná Pesquisas, em acordo com a Resolução-TSE n.º 23.600/2019, e registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o n.º PR-08451/2026 para os cargos de Governador e Senador. Mais adiante este colunista dará mais atenção aos levantamentos. Uma boa última semana de janeiro a todos!

Como todos os mortais deveriam fazer, este colunista (Rogério Romano Bonato) põe o pé na estrada por alguns dias, menos até que uma semana. Descanso? Antes fosse. Mais trabalho que outra coisa. Mesmo assim a coluna será postada com exclusividade para o Almanaque Futuro e Rádio Cultura de Foz do Iguaçu