No bico do Corvo: o batuque dos blocos ensaiando e a gritaria na política

O clima é de Carnaval, mas a política segue no módulo da arrumação da casa. Há quem se agrarre na mesa de trabalho antes da quarta-feira, quando teremos cinzas e lágrimas.

 Diplomacia de fachada: o atropelo ao Itamaraty

A política externa brasileira parece ter ganhado um “puxadinho” bastante caro na Praça dos Três Poderes. Quando a gestão de Hugo Motta justifica um aumento de 78% nos gastos com viagens sob o pretexto de “protagonismo internacional”, ela ignora uma instituição centenária: o Itamaraty. O Brasil possui um dos corpos diplomáticos mais refinados do mundo, treinado para defender os interesses da nação com técnica e sobriedade. Ver parlamentares cruzando o oceano para “fortalecer laços” soa como um deboche à inteligência do contribuinte. Sem poder de Estado para assinar tratados e sem o preparo técnico da carreira diplomática, essas comitivas servem mais para inflar egos em salas VIP do que para trazer resultados reais. É a institucionalização da diplomacia paralela, onde o custo é público, mas o benefício parece ser estritamente pessoal ou partidário.

 

O deputado “global” e a base órfã

Existe um abismo intransponível entre o carpete dos fóruns internacionais e o asfalto esburacado das bases eleitorais. O parlamentar que se deslumbra com o brilho de Washington ou o charme de Paris, como frequentemente vemos em figuras que priorizam o alinhamento ideológico externo em detrimento do dever interno, acaba por abandonar quem realmente lhe deu a cadeira: o eleitor. A função do deputado é ser o elo entre o povo e o Orçamento da União, e não um viajante frequente em busca de fotos com líderes estrangeiros. Quando o “protagonismo” em solo estrangeiro se torna a prioridade, a prestação de serviços na saúde, educação e segurança entra em modo avião. No fim das contas, o “deputado global” é apenas um representante que esqueceu o caminho de casa, mas não esqueceu como se gasta em moeda estrangeira.

 

A epidemia das diárias nas Câmaras Municipais

Se Brasília voa alto, as Câmaras Municipais decidiram seguir a mesma rota, mas com um cinismo ainda mais paroquial. Virou moda o vereador descobrir uma “necessidade técnica” inadiável de participar de congressos em capitais litorâneas ou em Brasília para “buscar recursos”. É o turismo político em sua forma mais rasteira. Enquanto o bairro reclama da falta de iluminação e do lixo acumulado, o representante se desloca para movimentos partidários ou manifestações ideológicas sob o manto de “missão oficial”. Esses vereadores, que mal conhecem os becos de sua jurisdição, tornam-se especialistas em aeroportos. É um desvio de finalidade escancarado: o mandato vira um passaporte para o lazer remunerado, enquanto a zeladoria da cidade fica entregue à própria sorte.

 

O check-in da verdade: a contabilidade do voto

Em ano eleitoral, o “viajante” de ontem vira o “visitante” de hoje. É a hora em que os parlamentares trocam o champanhe das recepções internacionais pelo cafezinho na cozinha do eleitor. Mas o povo não deve aceitar a desculpa de que “o trabalho externo impediu a presença interna”. A conta é simples: se o parlamentar estava fora representando o Brasil, onde está o relatório de benefícios? Onde está o recurso captado que não seja apenas a pulverização de emendas para garantir votos em outras áreas? O eleitor atento precisa cobrar a contabilidade real. Se o voto é fruto da esperança de uma cidade e o recurso desaparece em aventuras externas ou é distribuído longe de quem elegeu, não há “protagonismo” que justifique. A festa acabou, e o check-in agora é na urna.

 

Vermelho e o dever de casa

Odeio puxa-saquismo tanto quanto qualquer cidadão atento, mas justiça seja feita: estou de olho nos deputados da nossa terra. E, nesse levantamento sobre viagens e missões, absolvo o deputado Vermelho de qualquer ilação negativa. Na verdade, ele nem precisaria de absolvição, pois tem feito o dever de casa com transparência. Se ele viaja, é para sair e voltar em Brasília e trazer o que Foz precisa. Diferente de quem faz “turismo legislativo”, Vermelho presta contas em tempo real, botando a cara para dizer o que faz no Planalto. É esse o comportamento que o eleitor espera: que o mandato não seja um bilhete premiado de passagens aéreas, mas uma ferramenta de trabalho que traga retorno para quem lhe confiou o voto. Quanto aos outros… bom, a dúvida permanece no ar, enquanto o deputado Vermelho mantém os pés no chão da sua base.

 

Buraco até na pista: o preço do movimento

Olha a que ponto chegamos: aviões desviando de Foz porque até a pista do aeroporto resolveu mimetizar as ruas da cidade e abrir crateras. Pode parecer desleixo, mas vamos pensar com um pingo de justiça técnica: asfalto esburaca porque é usado. Nas nossas ruas, o trânsito pesado não dá trégua e nenhum pavimento resiste enquanto a Perimetral Leste não tira os caminhões do centro. No aeroporto, a lógica é a mesma. Com a retomada pujante do turismo e cerca de 40 “bichões” de centenas de toneladas batendo as rodas no chão todos os dias, a manutenção precisa acontecer. Não é apenas uma questão de qualidade do asfalto, é fadiga de material pelo uso contínuo. O problema não é o avião pousar; o problema é a gestão da manutenção não acompanhar o ritmo da decolagem da nossa economia. Se a cidade está esburacada por falta de alternativa, a pista do aeroporto não pode seguir o mesmo roteiro. Aeroporto de uma pista só paga esses pecados.

 

Bad Bunny, o “continente” e o fígado de Trump

O Super Bowl sempre foi o altar do nacionalismo americano, mas Bad Bunny decidiu profanar esse templo com uma verdade que dói no gabinete de Donald Trump: a América é um continente, não um país. Ao acenar para o Brasil e reafirmar a identidade latina no palco mais assistido dos EUA, o cantor não fez apenas um show, fez uma demarcação de território cultural. Para Trump, que chamou a apresentação de “nojenta”, o choque é geracional e ideológico. O presidente vê uma afronta à “pureza” americana, enquanto o mercado vê o futuro. Bad Bunny desafiou o sistema dentro da casa do adversário, provando que o poder suave (soft power) latino é uma força que muro nenhum consegue segurar — especialmente quando o ritmo conquista até quem não entende uma palavra de espanhol.

 

A nova Muralha da China e o dólar no chão

Enquanto os EUA se perdem em guerras culturais e críticas a shows de intervalo, a China faz o que sabe de melhor: joga o jogo longo. A habilidade de Pequim em “aparar arestas” e estabilizar relações comerciais está drenando a força do dólar em escala global. A vida de Trump não está difícil apenas por causa de artistas latinos; se complica porque o tabuleiro econômico mudou. Com a China se posicionando como a mão que estabiliza as crises, o dólar vai perdendo aquele status de “porto seguro” inquestionável. É a ironia do destino: os EUA discutem se o show do Bad Bunny foi apropriado, enquanto a economia real assiste à moeda americana desabar porque a diplomacia do pragmatismo asiático está vencendo a diplomacia do grito. Que barbaridade hein?

 

Gabriel Rugoni: do “voo de galinha” à precisão da rapina

Muita gente se equivocou ao subestimar a trajetória de Gabriel Rugoni no atual governo. No início da jornada eleitoral do General Silva e Luna, houve quem chamasse a empreitada de “voo de galinha”, mas o tempo — esse senhor da razão — provou que estávamos diante de um voo de ave de rapina: estratégico e de alcance. Rugoni não caiu de paraquedas na nova Secretaria Extraordinária de Governo (SGOV); ele escalou a confiança do prefeito com lealdade desde o primeiro dia, quando tudo ainda era um projeto. Sua saída do Centro de Convenções é para assumir a articulação política institucional. Rugoni agora é o elo oficial entre o Palácio das Cataratas e a Câmara, e quem esperava vida curta para sua influência terá que se acostumar com ele no centro das decisões.

 

O xadrez do General: SGOV e o reforço no front

A criação da Secretaria Extraordinária de Governo (SGOV) é um movimento para blindar a gestão contra ruídos de comunicação e trações desnecessárias. Com Gabriel Rugoni na linha de frente do cotidiano institucional e da relação com a Câmara, o General Eduardo Garrido ganha fôlego para focar na articulação política macro e na gestão estratégica de gabinete. Neste início de ano, prefeitura se organiza como fosse o recomeço de governo: enquanto uns cuidam da retaguarda e do planejamento orçamentário, outros, como Rugoni, vão para o “tête-à-tête” político garantir que as demandas da cidade não fiquem travadas na burocracia ou no embate legislativo. Ele sabe que o trabalho será intenso, cuidando da interlocução com órgãos de controle e entidades civis, mas para quem acompanhou o General desde o marco zero, Rugoni sabe que na SGOV né tudo ou nada.

 

O bom menino

Aqui vai uma nota pessoal, doa a quem doer na oposição: eu conheço o “Gab” desde o início de sua carreira. Ele foi estagiário sob minha gestão na Fundação Cultural e, desde aquela época, já mostrava sim um talento fora da curva. Gabriel Rugoni foi uma das peças-chave na elaboração de projetos que são o coração de Foz até hoje, como a Feirinha da JK, a Feira do Livro, o Carnaval e a Fartal. O que sempre o destacou não foi apenas o currículo, mas a habilidade rara no trato com o conflito. Onde havia um atrito ou um descontentamento, ele chegava com o jeito e a precisão para resolver. Eu costumava brincar: “você deveria estar no Instituto Rio Branco (a escola de diplomatas) e não na faculdade de Serviço Social”. O jovem possuía um dom natural para desatar nós onde outros só viam embaraço. Portanto, não subestimem o novo Secretário Extraordinário; ele é talentoso, conhece os meandros da política e, acima de tudo, sabe agir onde o campo é minado.

 

Meu amigo Almirante

A participação do Contra-Almirante Paulo Sergio Tinoco Guimarães, nosso Secretário Municipal de Segurança Pública, no programa Contraponto desta segunda-feira, a fileira inteira de notas. No entanto, ele tratou os temas de forma tão cirúrgica que não restou muito espaço para interpretações: sua pasta hoje desempenha um papel fundamental no governo e conta com o aval silencioso, porém sólido, do contribuinte. O Almirante explicou a força-tarefa montada para o Carnaval, que vai garantir a segurança tanto de quem cai na folia quanto de quem prefere o sossego do feriado prolongado em casa. É a “segurança presente” que nos permite descansar.

Falando em Contraponto, aproveito para informar que precisei me ausentar nesta terça (10) e também não estarei na bancada nesta quarta-feira (11). Compromissos agendados ainda no ano passado acabaram coincidindo com o horário do rádio, sem chance de adiamento. Deixo aqui minhas desculpas sinceras aos ouvintes e ao meu caro Dr. Nelso Rodrigues, que faz questão da bancada completa para garantir o verdadeiro debate. Um abraço a todos e uma ótima quarta-feira — o ritmo já é de batuque, mas a responsabilidade continua sendo o nosso norte.

 

Rogério Bonato acompanha os fatos cotidianos e dá as suas bicadas fantasiado de Corvo, ainda que em tempos de Carnaval. A Coluna é publicada com exclusividade no Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu