Getúlio Vargas e a teimosia da pedra 

Uma descida às memórias de Foz para resgatar a pitoresca inauguração do busto que, entre tombos e pombas, teima em desafiar o esquecimento. Assim é a coluna de Rogério Romano Bonato, consagrada como No Bico do Corvo.

Ai, que saudade da “memória”

O título beira a redundância, mas sustenta-se em fundamentos sólidos. Um amigo sugeriu: “Vamos escrever sobre a memória coletiva?”. Aceitei o desafio. Afinal, ao nos tornarmos testemunhas no longo curso da convivência e da observação cotidiana, prestamos um serviço essencial à história. Tomara, temas assim despertem o interesse dos leitores.

De antemão, sinto-me confortável — até prazeroso — em resgatar lembranças, amigos, figuras do meu tempo e as situações pitorescas de cada caso. Sinto-me um pouco como Ulisses na Odisseia de Homero (revisitada pela genialidade de James Joyce). Ao descer ao submundo para consultar o passado, o herói grego reencontrou o glorioso Aquiles.

Ulisses tentou consolar o amigo, exaltando sua glória eterna, mas ouviu uma resposta amarga: Aquiles preferiria ser um simples servo na terra, trabalhando para um homem pobre, a ser o rei de todos os mortos.

É exatamente por isso que escrevo. Escrevo para imortalizar os amigos, trazendo-os de volta à luz do dia com a fidelidade da minha narração histórica. Se a morte é esse vazio silencioso que assustava até o maior dos heróis gregos, a crônica é o meu modesto instrumento de resistência. Sou testemunha de uma era e uso as palavras para garantir que esses nomes e momentos não se percam na poeira do Hades, mas continuem vivos, pulsando em cada parágrafo.

 

O busto do Getúlio

Comungo a admiração por muitos artistas e escultores iguaçuenses. A lista começaria por Luiz Brecher, passaria por Haroldo Alvarenga (de saudosa memória) e jamais esqueceria Giovanni Vissotto, com belas obras espalhadas pela região. O São Francisco e os bichos, no Morumbi – maravilhoso; os murais de Tarobá e Naipi; a restauração do painel das Cataratas na Fundação Cultural… trabalhos que oferecem a dimensão de seu talento e envergam personalidade.

O mesmo escrevo sobre o polêmico “Dourado”, sugestivamente posicionado em frente a uma casa de pesca. Já o busto de Getúlio Vargas, não recordo com tanta eloquência ou justeza. É uma opinião puramente pessoal. Considero-o um pouco irreal no ponto de vista da semelhança ao ex-presidente. Ainda assim, é uma obra esculpida e merece cuidados de análise, porque Giovanni trabalhou em seu estilo, agrade ou desagrade a algumas pessoas. Mas há explicação para isso, embora o destino nos force a revisitar o Hades iguaçuense.

 

Budel e a obra

O engenheiro e político Carlos Juliano Budel venceu a disputa para a presidência da Câmara em 2005. A Casa de Leis funcionava, desde os anos 70, no edifício da Praça Getúlio Vargas, ao lado do Palácio Cataratas. Budel ocupava posto na executiva nacional do PTB e daí surgiu a ideia: homenagear o patriarca do partido com um busto.

 

Carlos Duso enfiou a mão no bolso

O empresário Carlos Fernandes Duso, então presidente do PTB, juntou-se à empreitada. Pela memória de Getúlio — e para marcar a própria passagem pela legenda. Poderiam ter encomendado um bronze em qualquer fundição do país, mas queriam originalidade. Chamaram Giovanni Vissotto. A escolha gerou controvérsia nos anais do partido, mas selaram o acordo: tratava-se de um notável das artes em Foz.

 

O estudo da epopéia

Giovanni aceitou o desafio. Fez esboços, pesquisou materiais e, buscando a tal originalidade, resolveu talhar a esfinge em pedra basáltica. Tarefa hercúlea. O basalto é o horror de qualquer artista: duro, indomável, difícil de moldar e transportar. O escultor desceu a barranca do Paranazão para escolher a pedra no leito do rio majestoso. Fonte de inspiração, dizia. Deu um trabalho imenso retirar o pedregulho de cinco toneladas. Exigiu guincho, caminhão e empilhadeiras para chegar ao ateliê.

 

Conselhos de Michelangelo

Entre um cigarrinho e outro — não perguntem a procedência — o escultor conversava com Michelangelo, Donatello e Benvenuto Cellini. Assim formatava a imponente figura. Orgulhoso da obra pronta, notou uma sobressalência na testa. Tentou reparar com a talhadeira. A escultura rachou ao meio; um pedaço desabou de cada lado, quase esmagando o pé do artista. Giovanni entornou um litro de cachaça de raiva. A ressaca, porém, não o impediu de buscar outra pedra. Começou tudo de novo.

 

A outra pegada

O processo ganhou um tom pitoresco, lembrando os judeus cativos arrastando pedras para as pirâmides. Daí a expressão “judiação”. Mas, na obstinação de entregar o objeto contratado, Giovanni o concluiu. Carlos Duso foi conferir. Olhou o estúdio e perguntou: “Onde está o Getúlio?”. Não o reconheceu na pedra lixada. Não concordou com o tal estilo e disse: “Não vou pagar”, avisando o Budel. O vereador, com convites já distribuídos, viu-se em apuros. Convenceu o correligionário com um argumento forte: a presença do prefeito Paulo Mac Donald Ghisi na cerimônia. Era uma rara ocasião para amainar as diatribes entre ambos — os amigos evitavam convidá-los para o mesmo churrasco sem antes recolher facas e garfos.

 

Instalação do objeto

Um caminhão-guincho subiu no canteiro da Câmara para instalar o busto sobre um pilar de tijolos. Ao assentarem a peça, a base trincou. Getúlio levou o primeiro tombo. Improvisaram outro arrimo com areia socada, pois faltava tempo para concretar. No dia seguinte, 24 de agosto de 2005, a Banda Sinfônica e o maestro Sobrinho chegaram para a solenidade. O prefeito, antecipado, atravessou a avenida para conferir a obra. Giovanni dava os retoques finais. — Mas cadê os óculos do Getúlio? — questionou Paulo, apontando a falta da característica fundamental. — Usei como referência a fase jovem, quando ele ainda possuía boa visão — defendeu-se o escultor.

 

“Puxa o pano!”

Banda tocando, vereadores se amontoando, ônibus trazendo o povo dos bairros. Autoridades de Curitiba rodeavam o monumento coberto por veludo verde. Ao lado, um banner com a foto oficial garantiria a aparência do homenageado. “Puxa logo o pano!”, gritou Paulo Mac Donald. Budel, Duso e Alex Canziani fizeram as honras, de mãos dadas. O povo soltou um “ohhhh”, mas alguém sussurrou: “Que merda”. Giovanni fez cara feia, com razão. O ex-vereador Vilmar Andreola tentou atenuar: “Não se pode agradar gregos e romanos”, referindo-se às interpretações. Um crítico local, por sua vez, aplaudiu eloquentemente. A arte apronta dessas.

 

Comoção e lágrimas

A inauguração foi um momento histórico e hilário. Nada semelhante ocorrera desde a instalação de Santos Dumont no Parque Nacional. Para ler a “Carta Testamento”, convocaram Mário Du Trevor Júnior. A interpretação arrancou lágrimas do prefeito e sussurros do saudoso Sérgio Lobato Machado. Uma barbaridade! Paulo encerrou o ato com um “Viva Foz do Iguaçu!”. Budel e Duso garantiram: a obra não custou um centavo aos cofres públicos; foi paga pelo PTB.

 

Aqui jaz uma placa

A descrição afixada no pilar rezava: “Ao grande brasileiro Getúlio Dornelles Vargas, patriarca do trabalhismo… a homenagem do povo de Foz do Iguaçu. Obra do artista Giovanni Vissotto. 24 de agosto de 2005”.

 

Recordação

O que me motivou a escrever foi um recente acidente de trânsito. Getúlio foi com a cara ao chão pela terceira vez! Vale lembrar um detalhe original: o Brasão da República, dourado, contrastava com o rústico do basalto na faixa presidencial. Dois dias após a inauguração, tentaram levar o relevo como souvenir. Nestes 21 anos, o busto foi pichado, azucrinado, batizado por bêbados e pombos; enfeitado com macumba e até vendado em protestos trabalhistas. E, claro, “atropelado” por motoristas desatentos.

 

“Tirem isso de lá!”

Dizem a este escriba que um ilustre vereador pretende propor a remoção do busto, alegando ser um risco ao trânsito. Ora, o monumento dista 15 metros das avenidas. É culpado pelos sinistros? Vai entender.

 

Para a eternidade!

O fato é que o busto resiste. Repousa ao lado da Estação Cultural Haroldo Alvarenga. Tentaram realocá-lo, mas o autor ameaçou ir ao Ministério Público se bulissem em sua obra mais polêmica. Giovanni é um escultor premiado e concorrido; seus trabalhos serão perpetuados. Assim, meus caros, encerro nossa descida ao Hades desta amada Foz do Iguaçu.

Alex Canziani, Carlos Duso, Paulo Mac Donald Ghisi e Carlos Budel inauguram o busto de Getúlio Vargas, em agosto de 2005