Entre fronteiras, tarifas e promessas que não decolam

Do centro paraguaio com apoio do FBI ao eterno atraso da pista de Foz, a coluna desta quarta-feira percorre os paradoxos da Tríplice Fronteira, os reflexos do tarifaço e a novela eleitoral que insiste em se repetir.

Bom dia, leitores!

Chegamos a 20 de agosto, quarta-feira. O calendário marca que hoje é dia de São Bernardo de Claraval, o “Doutor Melífluo”, patrono dos apicultores, conhecido pela doçura das palavras e firmeza das ações — exemplo raro de combinação entre mel e ferrão. No Brasil e seus registros históricos curiosos, em 1822, D. Pedro I convocava uma Assembleia Constituinte para elaborar a primeira Constituição do país recém-independente. Em 1944, durante a Segunda Guerra, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) embarcava para lutar na Itália. Já em 1968, os estudantes tomavam as ruas do Rio de Janeiro na histórica “Passeata dos Cem Mil”, um grito contra a ditadura. No mundo, em 1914, a Alemanha declarava guerra à Bélgica, e em 1960 a então pequena nação do Senegal conquistava sua independência da França. O dia também lembra que, em 1975, a NASA lançava a Viking 1, primeira missão a pousar com sucesso em Marte — sem precisar esperar homologação de pista. Curiosidade extra: o Calendário Cívico Nacional também celebra o Dia do Maçom, e na agenda internacional é o Dia Mundial da Fotografia, homenagem ao anúncio do daguerreótipo em 1839, invenção que congelou o tempo em imagens. Com tantos fatos, fica a lição: cada 20 de agosto traz um pouco de história, luta, fé e ciência. E agora, seguimos com a coluna.

 

Semântica não é frescura — é economia

Chamar de “centro antiterrorismo” uma estrutura que atuará na Tríplice Fronteira é pedir para o turista imaginar sirenes e helicópteros militares sobre as Cataratas. Em 2002, no auge da boataria pós-11/9, o Parque Nacional do Iguaçu recebeu 645.832 visitantes — bem abaixo da tendência histórica. O nome pesa no bolso. Se a missão é inteligência, cooperação e repressão a ilícitos transnacionais, por que não algo como “Centro Integrado de Segurança de Fronteira”? Comunicação clara evita manchete histérica e protege a principal vocação econômica da região.

 

O que há (de fato) no plano paraguaio

O ministro do Interior, Enrique Riera, disse à CNN que o Paraguai instalará um centro em Assunção, com cerca de 15 agentes treinados pelo FBI, e base operacional fixa no lado paraguaio da Tríplice Fronteira. Foco: monitorar Hezbollah e reforçar o combate ao crime organizado, com apoio técnico dos EUA. Até aqui, é cooperação policial e de inteligência — não “ocupação”.

 

“O FBI pode isso?” — pode cooperar, não policiar

O FBI mantém escritórios de adidância (Legat) em embaixadas, inclusive Brasília e Buenos Aires, para treinamento, troca de informações e apoio técnico. Agir como polícia judiciária estrangeira, não; colaborar com autoridades locais, sim — exatamente o que foi anunciado. Ou seja, nada de “quartel do FBI em Ciudad del Este”; é centro paraguaio com suporte.

 

Cerco ao Brasil? Menos drama, por favor…

Em 30 de maio de 2025, Brasil, Argentina e Paraguai renovaram o Comando Tripartite, atualizando o protocolo de cooperação na fronteira. Em julho, avançou-se ainda para uma base conjunta de inteligência em Puerto Iguazú, com treinamento do FBI. O vetor é coordenação regional, não “cordão sanitário” contra o Brasil. A política faz muito barulho.

 

O pacote de Washington: imigração entra na conta

No dia 14 de agosto de 2025, o Secretário de Estado Marco Rubio e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano assinaram, em Washington, um memorando que inclui cooperação para processamento de pedidos de proteção (asilo) em território paraguaio — o chamado arranjo de “terceiro país seguro”. A agenda de segurança na fronteira veio junto desse guarda-chuva diplomático.

 

Tarifaço, sanções e o risco de misturar alhos com bugalhos

Sim, há o tarifaço de 50% aplicado pelos EUA a uma cesta de produtos brasileiros (em vigor desde 6 de agosto de 2025, com várias exceções) — e a retórica cruzada contra autoridades. Também é fato que Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por decisão do STF. Mas confundir cooperação policial na fronteira com “punição” geopolítica é convite ao erro de análise; segurança pública requer frieza técnica, não holofote eleitoral.

 

FBI já tem uma tarefa

Olha a coincidência: justo a cidade escolhida para abrigar o futuro escritório do FBI no Paraguai está sob intervenção administrativa. Ciudad del Este, governada pelo prefeito Miguel Prieto, que coleciona nada menos que 39 denúncias no Ministério Público, virou laboratório de auditorias e relatórios. Oficialmente, a missão do FBI por aqui será enfrentar terrorismo e crime organizado. Mas bem que poderiam começar em casa, dando uma força ao interventor Ramón Ramírez Caballero, que herdou uma prefeitura com cheiro de papel queimado e contratos suspeitos. Se precisarem de treinamento prático, basta abrir os arquivos da “Navidad Sustentable” ou das famosas usinas de asfalto: material para investigação não falta. É o típico caso em que o FBI vai descobrir que combater terroristas talvez seja até mais fácil do que investigar políticos locais.

 

Ciudad paradoxal!

Com o dólar em queda, caiu do céu para Ciudad del Este o que mais anima sua economia: brasileiros com malas vazias e bolsos ansiosos. Foz do Iguaçu voltou ao ranking dos destinos mais procurados, não só pelas Cataratas, mas pelo “pacote combo”: turismo e carrinho de compras, versão trinacional. O aeroporto local registrou 11% de aumento no fluxo de passageiros, e as agências de viagem já vendem o kit básico: selfies nas quedas, passagem pelo Duty Free argentino – e os brasileiros – e um dia de garimpo no paraíso dos eletrônicos. A ironia? A segunda maior cidade do Paraguai, depois da Rua 25 de Março de São Paulo, sobrevive dolarizada, mesmo tendo o guarani como moeda oficial. E haja disposição: são tantas galerias, shoppings e camelôs que dois dias são poucos para vasculhar tudo.

 

A lógica das etiquetas

Enquanto isso, as vitrines seguem reescrevendo o câmbio à sua maneira. Um iPhone novo sai por US$ 1.000, com margem de lucro mínima — coisa impensável no Brasil, onde a mesma maçã mordida custa quase o triplo graças ao fisco glutão. Lojistas de Ciudad já aceitam Pix, o que torna a vida do turista mais prática e a fiscalização mais confusa. Mas atenção: CNH não serve como documento, a cota é de US$ 500 e o olhar da Receita Federal está mais afiado que vendedor de perfume na calçada. Moral da história: Ciudad del Este continua sendo o eterno paradoxo — lugar onde todo mundo acha que está economizando, mesmo saindo com mais sacolas do que dinheiro no bolso. Um parêntesis: comerciantes aceitam Pix em Ciudad del Este e também em Miami, o que faz o Trump ficar mais louco que o Batman!

 

A mão estrangeira e a floresta alheia

O embaixador Rubens Barbosa cutucou a ferida: em tempos em que se fala em comprar a Groenlândia e retomar o Canal do Panamá, não é devaneio imaginar cobiça sobre a Amazônia. A biodiversidade, os minérios e, sobretudo, a água doce são ativos cada vez mais estratégicos. O problema é que, enquanto se especula sobre a “internacionalização da Amazônia”, o Brasil investe pouco em Defesa. Uma economia do tamanho da nossa continua tratando segurança nacional como despesa supérflua, e não como seguro contra aventureiros.

 

Tarifaço, dependência e soberania em liquidação

A tensão recente com os Estados Unidos, fruto do tarifaço trumpista, expõe uma vulnerabilidade embaraçosa: a dependência quase absoluta de equipamentos bélicos da Otan, sobretudo americanos. Se vierem sanções ou restrições, sobra pouco além do desfile de 7 de Setembro para mostrar poder militar. O alerta do embaixador é simples: sem planejamento de longo prazo, sem base industrial forte e sem orçamento previsível, o Brasil corre o risco de ver sua soberania leiloada a prestações — enquanto segue discutindo se há ou não terrorismo na fronteira.

 

Brasil desarmado, vizinhos atentos

Enquanto países vizinhos reforçam seus arsenais, o Brasil insiste em gastar menos da metade da média mundial. Resultado: a Marinha admite desmobilizar 70% da frota até 2028, o Exército só concluirá o Sisfron em 2039 e a Aeronáutica segue interceptando aviões do tráfico com Tucanos de treinamento, à espera dos caças Gripen que chegam a conta-gotas. Paradoxal para uma nação de dimensões continentais, dona de 9 mil km de costa, do pré-sal e da maior fatia amazônica. A ausência de meios modernos abre espaço para o crime transnacional e fragiliza a soberania em plena era da “nova ordem global”. É a velha história: quando todos se armam, nós seguimos desfilando — e torcendo para que ninguém leve a sério a fragilidade do “país do futuro”.

 

Contraponto tropical

Há quem veja no Brasil esse tal “país do futuro” não por causa da ciência, do agronegócio ou da cultura, mas porque, ao contrário do resto do planeta, preferiu não rasgar bilhões em tanques, caças e bombas. Seria quase um ideal pacifista: quando as nações perceberem que precisam desmobilizar arsenais para assinar tratados desenvolvimentistas, estaremos prontos para dar a aula de moral — com 1,1% do PIB em Defesa e o coração aberto. Mas, cá entre nós, mesmo que estivéssemos bem equipados, alguém acredita que resistiríamos ao poderio bélico dos eternos “aliados” que cobiçam nossas riquezas? Não passa de ilusão patriótica. A esta altura só faltava Donald Trump, com a ajuda do Pink e do Cérebro, ensaiar seu plano infalível para “dominar a Amazônia”. Seria cômico se não fosse trágico. Ai Trump, vai lavar o pé e dormir!

 

Vamos mudar de assunto

Volante demais para tão pouco espaço. Foz do Iguaçu tem hoje 157,4 mil motoristas cadastrados no Detran, número que só cresce — foram 2,2 mil novas CNHs no primeiro semestre, 22% a mais que em 2024. É gente demais disputando ruas curtas, avenidas congestionadas, cruzamentos caóticos e estradas que começam e terminam na cidade. Some-se a isso argentinos, paraguaios e turistas de todo canto, e o trânsito vira laboratório de paciência. Comparada a muitas capitais, a cidade, com área urbana menor, já aparece no mapa dos grandes centros em densidade de condutores. Não é à toa que os índices de acidentes continuam desafiando autoridades e estatísticas.

 

Condutores em alta, eleitores em queda

O quadro chama atenção: 90,7 mil homens e 66,6 mil mulheres ao volante, além de 18,9 mil CNHs vencidas e 6,6 mil provisórias. A massa de motoristas em atividade, quando confrontada com o número de eleitores, rende até piada: parece que Foz gosta mais de dirigir do que de votar. Afinal, condutores são estáveis e em crescimento, já os eleitores oscilam a cada pleito, caem e depois sobem, mas o que adianta?

 

De novo, a novela do segundo turno

Foz do Iguaçu já virou personagem de si mesma nessa história: a cada ciclo eleitoral surge a expectativa de estrear no segundo turno. Em 2024, havia motivo para comemorar — mais de 204,7 mil eleitores aptos a votar, manchetes e rojões para celebrar a novidade democrática. Mas bastou o general Silva e Luna garantir 50,1% dos votos logo no primeiro turno para enterrar o sonho. Não houve tempo nem de experimentar o sabor da modalidade. Foi como montar arquibancada para final de campeonato e acabar o jogo na primeira rodada.

 

Oscilações que cansam e custam caro

O enredo voltou em 2025: depois do prazo de regularização, quase 9 mil títulos foram cancelados, e o município despencou para 198 mil eleitores. Hoje, com novos cadastros, subimos um pouco — 198,6 mil até agosto —, mas ainda abaixo da linha mágica dos 200 mil. E aqui entra o detalhe: quem deixa o título irregular não perde apenas o direito ao voto. Fica impedido de prestar concurso, tomar posse em cargo público, renovar matrícula em escola oficial, obter empréstimo em banco estatal ou até mesmo emitir passaporte. A ladainha se repete: sobe e desce nos números, novela sem capítulo final. Resta saber se até 2028 Foz terá, enfim, eleitores suficientes para garantir seu “primeiro segundo turno” — e se os cidadãos vão assumir que cidadania não se regulariza em cima da hora.

 

Eita que demora!

Quem diria que homologar uma pista de aeroporto fosse tarefa digna de novela mexicana? Pois em Foz é assim: a pista foi ampliada em 2021, mas até hoje não está plenamente operacional. Só agora, em 2025, um jato da FAB anda fazendo testes de ILS, para aferir o sistema de pouso por instrumentos. Se tudo der certo, a cidade finalmente poderá receber aeronaves de grande porte, abrir espaço para voos internacionais de longa distância e movimentar a logística regional. O deputado Vermelho virou ponta-de-lança da pressão política, cobrando para que parem de empurrar o processo com a barriga. Enquanto isso, o turismo e a economia seguem esperando.

 

Tradição do atraso

Mas não é novidade para os iguaçuenses. A pista é só mais uma página no livro das obras que envelhecem antes de inaugurar. Lembram como foi a Perimetral Leste? Mais de 30 anos de espera. Da duplicação da BR-469? Outro calvário. A segunda ponte com o Paraguai ficou tanto tempo no papel que, quando ficou pronta… ninguém ainda conseguiu atravessá-la e já está envelhecendo. Já nem se pode chamá-la de “nova”. Tudo em Foz parece ganhar prazo elástico. E agora, com a pista do aeroporto, a sensação é a mesma: mais uma promessa que demora a decolar. Se a homologação sair ainda este ano, será um feito histórico, digno de foguetório (proibido em Foz). Só vamos mesmo acreditar depois que avião gigante pousar de fato. Uma boa quarta-feira a todos!

Rogério Bonato escreve para o Almanaque Futuro