Entre a Liberdade e o Respeito: O Debate que o Carnaval Reacendeu

*Por Eliane Luiza Schaefer_

 

O episódio recente envolvendo o Carnaval de Foz do Iguaçu reacendeu uma discussão que, embora antiga, permanece extremamente atual: o equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade social. Declarações que associaram a festa a religiões de matriz africana de forma pejorativa provocaram reação institucional e, sobretudo, convidam à reflexão.

A liberdade de expressão é indispensável em qualquer sociedade democrática. É ela que sustenta o debate, a crítica e a pluralidade de ideias. No entanto, esse direito não pode ser interpretado como autorização para discursos que reforcem preconceitos históricos ou desqualifiquem manifestações culturais e religiosas. Quando a fala ultrapassa o campo da opinião e passa a atingir identidades, tradições e grupos sociais, o impacto deixa de ser apenas retórico.

O posicionamento do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Foz do Iguaçu insere-se justamente nesse contexto. Ao repudiar publicamente as declarações consideradas ofensivas, o órgão reafirma algo fundamental: respeito não é um gesto opcional, mas princípio básico de convivência. O debate não se trata de silenciamento, mas de responsabilidade.

O carnaval, muitas vezes reduzido à ideia de festa, é também expressão cultural, memória coletiva e patrimônio simbólico. Sua construção histórica está ligada à diversidade brasileira, especialmente às contribuições da cultura afro.

A própria Constituição Federal estabelece uma lógica clara de convivência entre direitos. Ao mesmo tempo em que assegura a liberdade de expressão, protege a liberdade de crença, o livre exercício dos cultos e as manifestações culturais. Esses princípios não competem entre si; complementam-se.

Por esta ótica, ganha relevância também a reafirmação da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu quanto à valorização do carnaval. A cultura, em sua essência, é o espaço de encontro. É o território onde a sociedade expressa sua pluralidade, constrói identidade e aprende, de maneira prática, o significado da convivência.

Palavras não circulam em vazio histórico. Elas carregam significados, memórias e efeitos concretos, especialmente quando tocam em questões culturais, religiosas e identitárias.

Liberdade é um direito. Respeito é o que a torna possível.

O Carnaval de Foz do Iguaçu deve permanecer como símbolo de diversidade, participação e expressão coletiva. Porque manifestações culturais não são apenas eventos, são reflexos vivos da sociedade que as constrói. E uma sociedade plural que exige, antes de tudo, respeito mútuo.

 

Foto: Chris Borges

Eliane Luiza Schaefer é jornalista, artista plástica, empreendedora e empresária do ramo da comunicação.