As fronteiras mentais e as ondas vermelhas

Entre semáforos e a síndrome de vira-lata, Foz do Iguaçu tenta entender sua própria grandeza enquanto espera as águas de março. Vamos tentar entende o contraste entre a grandeza cosmopolita de Foz e os problemas "provincianos" de gestão.

Ai, o trânsito

Para quem já sobreviveu ao caos de São Paulo ou ao “salve-se quem puder” do Rio de Janeiro, dirigir em Foz do Iguaçu ainda é um bálsamo. Por aqui, o congestionamento costuma ter apenas dois culpados: um acidente ou o humor volátil dos semáforos. O superintendente do Foztrans, Maxwell Lucena de Moraes, justificou a falta da tão sonhada “onda verde” com uma explicação curiosa: temos diferentes “famílias” de semáforos. Pelo visto, em Foz, até os sinais de trânsito sofrem com crises existenciais e falta de diálogo, cada um piscando do seu jeito. Pensei que sistemas eletrônicos facilitariam, no lugar de causarem esse nó na cabeça dos contribuintes.

 

O custo da luz

Se manter essa “fauna semafórica” já custa uma fortuna os cofres públicos, imagine o preço de harmonizar essa árvore genealógica eletrônica. Há quem defenda que uma poda radical no sistema viário reduziria sensivelmente o número de semáforos — que, convenhamos, servem mais para queimar combustível e testar a paciência do motorista do que para organizar o fluxo. É verdade que eles evitam colisões, mas o problema real não é a falta de lâmpadas coloridas, é o excesso de ousadia e a escassez de educação ao volante. Curioso notar que, em muitas cidades desenvolvidas, o semáforo é peça de museu, substituído pela fluidez da inteligência viária.

 

O efeito da lombada

Ah, os nossos “montinhos de asfalto”. As lombadas existem para forçar a civilidade, dando chance ao pedestre e ao condutor vizinho. Na prática, viraram pista de obstáculos. Enquanto uns ignoram o tempo alheio, os motociclistas se tornaram exímios equilibristas, desfilando no estreito corredor entre a lombada e o meio-fio para não perder o embalo. Uma alternativa mais humana (e menos agressiva à suspensão dos carros) seria adotar o limite de 40 km/h em todo o perímetro urbano. Cidades que trataram a velocidade com seriedade viram seus índices de acidentes despencarem. Trânsito, afinal, se resolve com engenharia, mas se conduz com bom senso.

 

Transporte público “importado”

O superintendente interino do Foztrans, emprestado pela competência da PRF, revelou que o plano de mobilidade e a futura licitação estão nas mãos de especialistas da academia catarinense. A solução proposta? “Alimentadores”. A pergunta é — e este colunista não é o único a fazê-la: precisamos mesmo importar cérebros de outros estados para ler o mapa de uma cidade tão singular? Será que a nossa engenharia local, que convive diariamente com as particularidades de uma tríplice fronteira, não daria conta do recado? No fim das contas, a “conta” dessa consultoria turística vai chegar, e não será barata.

 

Hipocrisia

O argumento para buscar consultoria fora é o de sempre: “blindar o processo contra corrupção e favoritismo”. É de uma hipocrisia sem tamanho. Para garantir a lisura, vamos então carimbar a desonestidade preventiva de todas as nossas cabeças pensantes? É um atestado de incompetência moral que a cidade não merece.

 

Cosmopolita, sim senhor!

Fiz uma pequena enquete sobre o status de Foz. Ouvi risinhos, suspiros e até fui chamado de ignorante. “Cosmopolita é Nova York, Londres… larga mão, cara!”, me disse um. Pois eu reafirmo: Foz é COSMOPOLITA, com todas as letras maiúsculas. Ter o mundo dentro de casa e não perceber é uma forma de miopia cultural. Ser cosmopolita não é ter arranha-céus que escondem o sol, é ter 90 nacionalidades compartilhando o mesmo pão, o mesmo asfalto e os mesmos problemas semafóricos.

 

Para pensar

Antes de saírem por aí distribuindo pitacos caolhos, algumas pessoas deveriam estudar as raízes e a alma iguaçuense. Essa mania de achar que a inteligência não pode ter “paternidade local” é uma balela sem precedentes. Desprezar a capacidade de quem vive e constrói esta cidade é um exercício de “autominização” que só nos atrasa. Desculpem-me os que preferem o que vem de fora apenas por ser de fora, mas eu ainda aposto no santo de casa.

Um bom dia a todos e uma excelente quinta-feira, dia 5 de março. E as águas de março, afinal, resolveram tirar férias ou ficaram presas em algum semáforo dessincronizado?

 

Rogério Romano Bonato escreve a coluna No Bico do Corvo com excluisvidade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. O colunista nõ engole frases assim: “vamos criar algo maravilhoso, mas que não tenha uma paternidade”. Isso, é “pau, é pedra, é o fim doi caminho“.