A Páscoa em seu sentido maior
Por Rogério Romano Bonato – Exclusivo Almanaque Futuro
É muito provável que as pessoas esqueçam as razões de celebrar a Páscoa, bem como os ensinamentos contidos em cada capítulo da liturgia cristã. Ainda assim, a semana não passa em branco em parte alguma do mundo; é tradição, até para os que não congraçam a Paixão de Cristo. O ser humano, afinal, é movido por essa emoção, esteja ela próxima ou distante.
Certa ocasião, dividia a mesa em um sábado ensolarado com um amigo que se dizia ateu e pregava isso abertamente. Próximo de nós, outro grupo berrava sobre política. Não demorou para o desentendimento acabar em “vias de fato”, como diz o jargão policial. Um dos envolvidos quebrou uma garrafa e ameaçou o desafeto. “Meu Deus!”, gritou o ateu, levando as mãos à cabeça. O Criador, para ele até então inexistente — uma figura imaginada por vigaristas, onipotente “de coisa nenhuma” —, surgiu do nada. No meio do fuzuê, não sabíamos se ríamos ou se corríamos daquele quebra-pau coletivo.
“Então, agora Deus existe?”, perguntou um comensal. O incrédulo emendou, sem graça: “É apenas figura de linguagem”.
Caminhando para os 70 anos, ponho-me a refletir mais sobre tais questões: as forças desconhecidas e as divindades sobreviventes. Afinal, milhares de deuses desapareceram com o tempo. Teriam seus milagres deixado de contemplar os fiéis? No fundo, a humanidade opera uma reciclagem de fé, mas o destino permanece o mesmo: a busca pela esperança.
A Páscoa, celebrada pelos judeus milênios antes de Cristo, foi adaptada pelo cristianismo sob o exemplo da ressurreição — o renascimento. A “Semana Santa” nos traz a leitura dos vitrais em capelas e catedrais; a jornada de um homem pela paz, que enfrentou o martírio e a cruz. Antes disso, foi julgado e descredibilizado, experimentando sentimentos que feriram muito mais do que o açoite ou as agruras do Calvário. É uma lição de vida e de sociedade, sobre lealdade e traição, pureza e tristeza. Eis aí a centelha divina em cada um de nós, embora a maioria ainda não a tenha assimilado.
O que não for entendido assim torna-se menor, até perdulário. A angústia por não possuir recursos para chocolates ou para uma ceia farta de peixes, aves, carnes e bebidas é bobagem. A última ceia de Cristo e seus apóstolos era a mesa do Pessach: sementes, ovos, frutas secas, ossos de cordeiro e ervas amargas, relembrando os tempos difíceis no cativeiro egípcio.
A refeição cotidiana é tão ou mais importante que o evento pascal. Um abraço, um telefonema, um carinho ou uma simples lembrança valem mais que ovos confeitados e a fartura de apenas um dia. Há quem compre essas iguarias em prestações a perder de vista, quitando as parcelas apenas no Natal para começar tudo de novo. Barbaridade! Mas é assim e talvez sempre será. O efeito comercial gera renda, emprega pessoas e causa felicidade; por isso, reclamar seria pecado.
Enquanto meditamos sobre a vastidão desses pensamentos, o mundo segue seu curso tortuoso: uns jogam bombas, políticos arquitetam candidaturas e muitos planejam a melhor maneira de chegar à segunda-feira, acreditando terem provido o bem conforme os rigores sociais, e não pelas escrituras.
Tudo bem. No fim das contas, de um jeito ou de outro, o que vale é o bom propósito. Vamos lembrar que na maioria dos lares haverá humildade à mesa, não por opção, mas pela necessidade. Unir-nos a isso não é hipocrisia; é simplicidade e uma prova de aprendizado na mais importante de todas as lições.
Uma boa Páscoa a todos!
