A colheita dispersa
Foz do Iguaçu como sintoma da crise partidário-eleitoral brasileira
Por Rogério Romano Bonato
Devo uma resposta mais profunda aos leitores frente às minhas colunas recentes. Reli com atenção o que escrevi e, como de costume, sigo em frente, sem recuar um milímetro na repulsa ao cenário que denunciei. O que cumpre fazer agora é examinar essa tempestade de candidaturas por um prisma mais amplo. Afinal, reconhecer que a pulverização eleitoral em Foz do Iguaçu é sintoma — e não apenas causa — da nossa irrelevância política não anula o diagnóstico anterior; apenas revela a raiz do tumor. E essa deformidade não nasceu na fronteira: ela foi gestada em Brasília.
O que antes apontei como fruto de uma cultura política provinciana e vaidosa é, na verdade, o resultado previsível de um desenho institucional perverso. Um sistema que premia a proximidade do orçamento público e pune o enraizamento comunitário. Não se trata de força de expressão, mas de fria engenharia orçamentária.
Desde que as emendas parlamentares — individuais, de bancada, de comissão e as suas versões mais opacas, como a emenda Pix — se converteram na verdadeira moeda corrente da política nacional, o cálculo do aspirante a líder mudou. Ele deixou de perguntar “como construir uma base eleitoral fiel e um projeto para a cidade?” e passou a indagar “como me aproximar de quem controla o fluxo de recursos federais?”.
Quem se encosta no cofre elege-se com folga, dispensando a necessidade de construção partidária de base. Quem fica longe do balcão precisa pulverizar-se em candidaturas avulsas, rezando por sobras. É nessa encruzilhada que a vaidade local se encontra com o oportunismo nacional, sangrando o futuro do município.
A escolha recente de Foz do Iguaçu por uma liderança militar para a Prefeitura ilustra essa dinâmica: não faltou ambição política à cidade, mas faltou um capital político próprio que não dependesse da tutela de Brasília para se sustentar. A liderança que cresce fora do circuito das emendas avança devagar, conquistando o eleitorado palmo a palmo. A que nasce dentro do circuito cresce rápido, porque a lealdade é comprada antecipadamente no orçamento, muito antes de o cidadão pisar na urna. Elas não competem em igualdade de condições. Essa assimetria de largada deforma o pleito muito antes da campanha começar.
Chamo isso de deformação porque a Constituição promete o oposto. A isonomia entre os concorrentes é premissa fundante da representação democrática. No entanto, enquanto as leis eleitorais se iludem com limites de gastos, cotas partidárias e tempo de rádio e TV, o instrumento mais avassalador de todos corre à margem da fiscalização: o orçamento da União, distribuído o ano inteiro sob a forma de convênios e obras carimbadas. Perto disso, qualquer teto eleitoral é mero detalhe contábil.
A bagunça iguaçuense é o reflexo em miniatura da anarquia nacional. O “presidencialismo de coalizão” faliu para dar lugar a uma barganha individual entre o Planalto e mandatos avulsos, intermediada pelo Centrão, reduzindo partidos a balcões de aluguel. Se as legendas não se empenham em organizar seus quadros nacionais, por que se importariam em estruturar candidaturas coerentes para deputados estaduais e federais nesta esquina de fronteira? O espetáculo grotesco a que assistimos nas nossas ruas e redes sociais é rigorosamente o mesmo que se projeta no painel do Congresso Nacional. Muda-se a escala; a lógica da pilhagem permanece a mesma.
Sendo assim, cabe reformular a pergunta que fiz na última coluna — “E como é que se faz?” — e entregar a complementação que a gravidade do momento exige.
Não se resolve esse impasse apenas apelando ao bom senso dos candidatos vaidosos, nem esperando milagres da maturidade cívica do eleitor, embora ambos façam falta. Faz-se atacando a engrenagem que tornou racional preferir a captura do orçamento à construção de uma representatividade legítima.
Isso exige transparência plena e rastreável sobre cada centavo de emenda parlamentar; exige recompor o papel dos partidos para que voltem a oferecer programas e não apenas siglas; e exige, sobretudo, a coragem de admitir que nenhuma reforma eleitoral cosmética resolverá um problema de sequestro institucional.
Enquanto essa engrenagem continuar pagando dividendos aos espertos, cidades estratégicas como Foz do Iguaçu continuarão a produzir um excesso vergonhoso de candidatos e uma escassez trágica de verdadeiras lideranças. E o cidadão assistirá, refém e indignado, a essa invasão de figuras estranhas deboche afora, pronunciando besteiras e loteando o amanhã da nossa terra.

