Miguel Hachen: uma despedida, um legado que permanece
Adepto da imagem Neoguarani, artista plástico, escritor, professor e muralista construiu uma trajetória ligada à identidade cultural da Tríplice Fronteira e deixou obras que integram a história de Foz do Iguaçu.
*Da Redação- Eliane Luiza Schaefer_
Miguel Hachen fez da arte uma forma de traduzir a identidade, a memória e a diversidade cultural da Tríplice Fronteira. Artista plástico, escritor, professor e muralista, construiu ao longo de décadas uma linguagem própria e deixou sua presença registrada na história cultural de Foz do Iguaçu.
Sua morte, aos 63 anos, deixará uma lacuna na vida cultural da fronteira. Sensível e atento ao lugar onde escolheu viver, encontrou na natureza, na ancestralidade e na diversidade elementos para desenvolver uma produção singular.
Nascido em Oberá, na província argentina de Misiones, teve ainda na infância contato próximo com uma comunidade Mbyá-Guarani. Mais tarde, estudou artes em Buenos Aires e retornou à região, fixando-se em Foz do Iguaçu, onde viveu por mais de três décadas.
Foi na cidade que desenvolveu o seu olhar Neoguarani, linguagem que reuniu referências culturais, ancestralidade e natureza. O trabalho iniciado em seu ateliê ganhou projeção e atravessou fronteiras.
Suas obras circularam por diferentes países, chegaram a coleções e acervos no exterior e despertaram interesse acadêmico. Ao longo da carreira, recebeu premiações em salões de arte no Brasil e na Argentina, participou de exposições e realizou murais na América do Sul.
Além do reconhecimento conquistado fora do país, Miguel deixou marcas pela cidade. Uma das mais expressivas está na Praça da Paz. O mural “A Lenda das Cataratas”, com aproximadamente 165 metros quadrados, apresenta Naipi e Tarobá entre referências à natureza e à cultura local, tornando-se parte da paisagem urbana. Milhares de pessoas passam diariamente pelo espaço. Algumas conhecem a história de quem criou o painel; outras apenas observam suas formas e cores. É também dessa maneira que a arte permanece: integrada ao cotidiano e à memória da cidade.
Outro trabalho de destaque, “Ysy, Kuarahy ha Yvytu” — “A Mãe Água, o Sol e o Ar”, reforça sua presença artística em Foz do Iguaçu.
Miguel também escreveu, ensinou e compartilhou conhecimento.
Defendeu a valorização cultural da fronteira e aproximou novas gerações desse universo por meio da literatura e da educação.
Conhecer a trajetória de um artista é compreender que por trás de cada criação existe muito mais do que aquilo que os olhos conseguem alcançar. Há uma vida inteira de estudo, pesquisa, persistência, escolhas e sentimentos transformados em expressão.
A partida de Miguel também provoca uma reflexão sobre a importância de reconhecer os grandes talentos e preservar suas histórias enquanto elas são construídas. O artista conquistou reconhecimento dentro e fora do país. Um de seus grandes feitos foi olhar para este território e compreender artisticamente aquilo que o torna tão particular. Enxergou a fronteira não apenas como divisão geográfica, mas como encontro de povos, línguas, histórias, memórias e culturas. E transformou esse olhar em arte.
Assim, foz do Iguaçu se despede do homem, do professor, do escritor e do artista. Sua ausência será sentida por familiares, amigos, colegas e por todos aqueles que acompanharam sua trajetória. Permanece, porém, aquilo que a morte não consegue levar: sua obra. Ela continuará nos murais, nas pinturas, nos livros e nas pesquisas. Estará na Praça da Paz diante de quem passar por ali hoje ou daqui a muitos anos, preservando a história de alguém que soube interpretar esta terra por meio de formas, símbolos e cores. Alguns artistas registram seu tempo. Outros também deixam registrada a história do lugar ao qual pertenceram. Miguel Hachen fez os dois.
A cidade se despede de um de seus grandes artistas, mas suas marcas permanecerão. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de eternidade que a arte pode oferecer.
