A Quaresma como caminho de conversão e o impacto social da Campanha da Fraternidade 2026
Com o início do período quaresmal em Foz do Iguaçu, a Igreja Católica reforça o papel da fé na transformação da realidade habitacional brasileira sob o tema "Fraternidade e Moradia".
Redação Almanaque Futuro
Nesta quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, as paróquias de Foz do Iguaçu deram início a um dos tempos mais significativos da cristandade: a Quaresma. Na Catedral Nossa Senhora de Guadalupe, o bispo diocesano Dom Sérgio de Deus Borges presidiu celebrações que marcaram o rito da imposição das cinzas, um gesto que recorda a fragilidade da vida e a necessidade de renovação espiritual. Ao pronunciar “Tú viestes do pó e ao pó retornarás”, a Igreja não propõe um pessimismo sobre a existência, mas um convite à “metanoia” — uma mudança profunda de mente e coração. Este período de 40 dias, que antecede a Páscoa, é uma tradição que remonta ao Século IV, consolidada após o Concílio de Niceia em 325 d.C., inspirada nos 40 dias de retiro de Jesus no deserto e na jornada de 40 anos do povo hebreu rumo à libertação.
Para a fé católica, a Quaresma é sustentada por um tripé fundamental: a oração, o jejum e a caridade. Não se trata apenas de uma prática externa, mas de um exercício de desapego do egoísmo para a abertura ao próximo. No Brasil, essa mística quaresmal ganhou uma expressão única e concreta há mais de 60 anos com a Campanha da Fraternidade (CF), organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O que começou em 1961 como uma iniciativa local de Dom Eugênio Sales em Natal (RN), transformou-se no maior movimento de evangelização e ação social do país, dividindo-se historicamente em fases que acompanharam os desafios do povo brasileiro.
Na sua fase inicial (1964-1972), a CF focou na renovação interna da Igreja pós-Concílio Vaticano II. Já entre os anos 70 e 80, em meio ao contexto da ditadura militar e do despertar social, a campanha passou a olhar para os problemas estruturais, abordando temas como trabalho e saúde. A partir de 1985, consolidou-se em uma fase de defesa de direitos e dignidade humana, pautando questões como a fome, a situação dos menores, a questão indígena e, em 2026, o direito fundamental à habitação com o tema “Fraternidade e Moradia”.
O tema deste ano é um grito de alerta para uma ferida aberta na sociedade brasileira. Dados da campanha revelam que 6,2 milhões de famílias vivem sem moradia adequada e cerca de 328 mil pessoas estão em situação de rua no país. Em sua participação no programa Contraponto, da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, Dom Sérgio de Deus Borges trouxe essa realidade para o contexto local. O bispo ressaltou que a moradia não é apenas um “teto”, mas o alicerce para que o cidadão tenha acesso à saúde, educação e segurança. Dom Sérgio enfatizou que a Quaresma funciona como um “treinamento” espiritual que deve resultar em gesto concreto. Para ele, a Igreja não pode se calar diante do drama habitacional, e a CF 2026 busca justamente provocar o debate público e incentivar ações que envolvam tanto a sociedade civil quanto o poder público na busca por soluções para as periferias e áreas de risco da diocese.
Assim, a Quaresma de 2026 se apresenta como um convite duplo: o olhar para dentro, buscando a santidade pessoal, e o olhar para fora, combatendo a indiferença. Através do jejum e da oração, o fiel é provocado a perceber que a ressurreição de Cristo na Páscoa só é plenamente celebrada quando se trabalha para que o irmão também tenha uma vida digna. A jornada que começa com as cinzas na testa termina com o compromisso de mãos dadas, transformando a fé em uma força capaz de reescrever a história das cidades brasileiras.
