De volta ao dial e de olho no tabuleiro
A Coluna No Bico do Corvo nos traz a nostalgia do microfone na Rádio Cultura, o pragmatismo "Bim-Bom" em Santa Terezinha e o choque entre a Ratolândia e o mundo de Rafael Greca.
Estreia e memória
Nesta terça-feira, ontem, 03/02/2026, como prometido, voltei aos microfones da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. Sim, troco o “fui” pelo “voltei”, porque certas casas a gente nunca deixa de fato. Senti algo diferente: um sopro de ventos de 46 anos atrás, quando a emissora ocupava aquele edifício aos fundos do lendário Hotel Cassino Iguassu. Naquela época, o movimento na Rua Dom Pedro II era ditado por figuras como Ennes Mendes da Rocha, Anésio Gonçalves, Wilson Santana (o eterno Compadre), Selmo Jandir Aragão, Antônio Soares, Luiz Carlos Souto e outros — todos sob olhares e ouvidos de Toninho e Rosa Cirillo.
Sou um radialista que sobreviveu aos tempos, devidamente licenciado pela memória para contar essas histórias. Faço-o com sorriso e, por vezes, lágrimas, pois são recordações que aquecem o coração. Meu agradecimento ao Nelso Rodrigues e à querida amiga Dina Oro pela acolhida. Vida longa à família “Rádio Cultura”!
Nome e sobrenome
No rádio, o sobrenome é a instituição. Ouvimos sempre: “encontrei o Nelso, da rádio” ou “a Dina, da rádio, ligou”. Agora, a sentença se completa: “quem disse foi o Bonato, da rádio”. Esse “da rádio” é o nosso “da Silva” ou “dos Santos”; é o que nos dá RG diante do ouvinte.
E para abrir os trabalhos no Contraponto em 2026, estreamos com o prefeito de Santa Terezinha de Itaipu, Antonio Luiz Bendo, o Bim. Ele veio acompanhado de Osli Machado, meu ex-professor de Direito e antigo colega de serviço público. Sim, caros leitores, este que vos escreve frequentou os bancos da UNIFOZ por alguns períodos — o Direito não me fisgou, mas a dialética eu trouxe de lá.
Santa Terezinha
O termômetro popular em Santa Terezinha diz que o prefeito tem sido “Bim-Bom”. E se o povo faz o trocadilho, é bom acreditar. Pessoalmente, senti uma empatia imediata: o homem tem um jeitão direto e uma humildade que foge ao script político tradicional. Sem bajulações (até porque o elogio de hoje é a crítica de amanhã, se necessário), é preciso reconhecer que a família Bendo é a própria gênese daquela terra. Bim é “da casa”. Embora nascido em Foz, ele veio ao mundo quando as duas cidades eram um corpo só. Ele não governa uma cidade vizinha; ele governa o quintal de sua própria história.
Ligações e divisões
Bim carrega uma obsessão saudável: criar vias mais abertas entre Foz e Santa Terezinha. Ele planeja uma avenida paralela à BR-277. Se tirar do papel, dará uma aula de como emancipar um município da “ditadura” de uma rodovia federal. No Brasil, as BRs têm o hábito perverso de rasgar cidades ao meio, isolando bairros e dificultando a vida urbana. Tomara que as autoridades de Foz embarquem na mesma onda; do contrário, a avenida do Bim será uma ponte para lugar nenhum, morrendo exatamente onde a integração deveria florescer.
O vai e vem do pão
É impressionante o fluxo na BR-277: iguaçuenses e itaipuenses se cruzam diariamente nas janelinhas de ônibus e carros, trocando de cidade para ganhar o pão. Uma avenida intermunicipal não seria apenas uma obra; seria um reconhecimento desse “organismo único” que as duas cidades formam.
Mas o prefeito olha além. Ele fala em modais, indústrias voltadas ao agro e entrepostos internacionais. Não é devaneio; o valor do metro quadrado em Santa Terezinha já reflete essa ambição. E, claro, houve a “paternidade” da Fespop. Antes de Bim, a festa era um órfão de sucesso: se ia bem, o mérito era político; se ia mal, a culpa era do organizador. Bim deu um freio, atendeu o Ministério Público, “amarrou o cadarço” e transformou o evento em marca registrada do município. A pressa, definitivamente, não é convidada para a festa.

E a política?
Bim foi pragmático: “apoiaremos quem o governador indicar”. Gratidão política se paga com voto. Mas, ao final, ele deu uma de Vicente Matheus (aquele lendário presidente do Corinthians que agradeceu à Antarctica pelas Brahmas): disse que “Santa Terezinha é de Itaipu”, num aceno impagável à Binacional.
Aqui entram minhas convicções: a sucessão de Ratinho Jr. no Paraná parece um labirinto. A conversa começa em Sérgio Moro, passa por Guto Silva e Sandro Alex, esbarra em Alexandre Curi e termina em Rafael Greca. É uma ordem inversa que desafia a lógica dos institutos de pesquisa e dos corredores do Iguaçu.
Mundos distantes
O Dr. Nelso Rodrigues foi cirúrgico: “Greca não é do mesmo mundo que Ratinho e seus preferidos”. De fato, a distância é astronômica. É impossível imaginar Greca vibrando em um show de sertanejo universitário; dizem que ele tem urticária só de ver o chapéu de cowboy. Rafael Greca de Macedo é a personificação de um Paraná barroco, intelectualizado e urbano. A “Ratolândia” talvez ainda não tenha percebido que Greca é mais a cara do Paraná do que toda a lista de “ungidos” do Palácio.
O perigo mora ao lado
Se o Greca “envaretar” (como dizemos por aqui) e romper com o governo de vez, a dor de cabeça será crônica. De um lado, o peso de Moro; de outro, o herdeiro de Ratinho. Greca surge como a terceira via que pode engolir as outras duas. Até Tarcísio de Freitas, lá em São Paulo, já teria cantado a pedra: se Ratinho não conseguir fazer o sucessor em casa, o sonho da Presidência da República vira poeira. O Paraná, quem diria, virou o fiel da balança nacional.
Vale tudo
Vivemos tempos de marasmo e tsunamis. A política é esse jogo onde se aposta a calça de veludo e, num descuido, fica-se de “bunda de fora”. É triste que o destino do estado dependa de blefes e sorte no carteado, quando deveria ser fruto de projeto. Se Ratinho pensasse mais no paranaense e menos no tabuleiro de 2026, o caminho seria mais curto. Mas, como disse, são apenas convicções de um “radiojornalista” que gosta de observar o vento.
Agenda
O entrevistado desta quarta-feira, 04/02 é o competente Dr. Rogério Antonio Lopes, delegado-chefe delegado da 6ª Subdivisão Policial (SDP) de Foz do Iguaçu. Sua fala, claro, terá a devida menção na coluna de amanhã. No fim, participar do Contraponto é muito bom para esticar pauta, porque assuntos não faltam.
Deoclécio

Já na quinta-feira, 05/02, é o Deoclecio Duarte quem integrará a bancada do programa Contraponto, e, certamente, além de suas atividades profissionais que falam alto, ele deve dar os pitacos na movimentação política. O empresário observa microscopicamente o setor, com a mesma velocidade que percorre as estradas paranaenses, cotidianamente.
Memória sempre afetiva
Meus caros, para lembrar, até porque nunca esqueço: em 1975, antes de completar 18 anos, sentei-me em frente uma máquina de escrever daquelas bem antigas e não sabia como iniciar um obituário, missão que me foi dada no lendário O Arauto do Pentágono, na simpática São Caetano do Sul. O jornal ficava bem próximo da divisa com São Paulo, na altura da Vila Alpina, do outro lado do Rio Tamanduateí. Lá eu vivia e, por isso, ia a pé ou de bicicleta. Pois garanto: ao iniciar uma nova empreitada, mais de 50 anos depois, sinto a mesma avidez, seja no rádio ou nos meios eletrônicos.
Uma boa quarta-feira a todos!

Rogério Romano Bonato, autor desta coluna denominada No Bico do Corvo, desde o primeiro dia em que foi escrita em A Gazeta do Iguaçu, precisamente em 2002.
