No Bico do Corvo: Do asfalto salgado à bênção da canja
Entre os percalços dos pedágios, o alerta contra os maus-tratos e as memórias do Padre Germano, o Corvo prepara o voo para o Carnaval e o retorno aos microfones.
Só política?
Ah, por favor, né? Quem aguenta? Vamos esperar o Carnaval passar e aí sim manter um olho no peixe e outro no gato, se for para analisar a política com cuidado, zelo e verdade. Mas como hoje é segundona, vamos refrescar um pouco o rescaldo do final de semana. Vou relatar a minha experiência pelas estradas. Gravei até vídeos, diversos, mas escrever também faz parte do cardápio para os leitores; há quem ainda não tenha avançado para as mídias sociais.
Estradas paranaenses
Pura ilusão foi acreditar que os pedágios seriam uma solução para a manutenção das nossas estradas. Quem dera? Francamente, nunca pensei um dia sentir falta do Governo do Estado na função. Desempenhava muito mais e de graça. O preço, aliás, anda bem mais salgado que antigamente.
Os custos
Aí vão se defender: “os custos aumentaram bastante e o valor do pedágio foi ajustado em conformidade com as planilhas”. Tá bem, e o que a gente tem com isso? Prometeram preços mais cômodos e serviços mais rápidos e nada se concretizou, pelo menos até o momento. Antes o valor nas cancelas era R$ 11,00, R$ 12,00 e no máximo R$ 16,00; agora estão acima disso. Um disparate com a cara do usuário.
Inércia
Cadê as obras de duplicação em vários trechos, conforme anunciaram? Nadica de nada por enquanto. As faixas auxiliares continuam as mesmas, as lombadas ainda estão em alguns locais, sem falar nas filas desconfortáveis com as operações de tapar buracos. Transitar pelas estradas paranaenses em temporadas de lazer é um exercício de paciência e que custa caro.
Comparação
Antes as estradas catarinenses eram um pavor, bem como são os caminhoneiros daquele estado ao volante. Vá explicar. Mas um desvio forçado mudou a minha opinião. Tentando chegar em Joinville, o trânsito travou na BR-101. Formou-se uma fila de mais de 30 km devido a uma colisão entre caminhões. A previsão de abertura da estrada era, pasmem, de quatro horas, segundo diziam as pessoas que escutavam rádio. Para alguém sentado em formigueiro, é muito tempo para esperar.
A solução foi consultar o Waze e ligar para o Vermelho, porque deputados vivem transpondo todos os trechos entre regiões. “Onde você está?”, perguntou. Ao relatar a posição, ele deu a dica: “Aí perto tem uma entrada para Tijucas do Sul, entre e vá seguindo as placas até São Bento do Sul…”.
Vale a pena
Fazendo os cálculos, gastamos meia hora a mais que o normal, se fosse em trecho livre, mas eu e a Eliane aproveitamos muito mais a viagem. Há obras pelo caminho, caminhões e lombadas quando o caminho corta vilarejos, mas é algo bem mais humanizado, com mirantes, bons restaurantes, postos de gasolina e toda a infraestrutura necessária aos motoristas. Percorrendo o trecho, descobri que há opções boas de retorno até Foz. Aos que estiverem no litoral catarinense e desejarem fugir do sufoco, basta acessar a Estrada Imperial Dona Francisca, em Joinville, chegar em São Bento e, de lá, Mafra, Lapa, saindo em Palmeira. Um ótimo passeio, mas é bom fazer durante o dia.
Orelha e Caramelo
Mudando de “saco para mala”, a sociedade brasileira ainda sangra com as imagens do cão Orelha e do Caramelo, lá de Florianópolis. É impressionante como o público se comove e se mobiliza quando casos de tamanha covardia vêm à tona. Em Foz, os olhos estão voltados para uma ação em curso contra um cidadão acusado de praticar contínuos maus-tratos. A comunidade iguaçuense, sempre atenta, quer saber: haverá um desfecho exemplar ou este será apenas mais um caso relegado à gaveta do esquecimento? A memória coletiva, como este colunista já disse, é bem afiada e não aceita mais o silêncio como resposta.
Incógnitas
Ao que parece, o mundo animal incomoda um pouco o atual governo. Alguns protetores teriam recebido um aviso sobre a interrupção na distribuição de ração. Era o que faltava! Sem ração, medicamentos e itens de acolhimento, a população de bichos de rua pode aumentar drasticamente. Pelas bandas da casa do Corvo, na região sul, há muitos cachorros novos no pedaço. Os moradores fazem o que podem, mas não imaginam como conter os morcegos, que são muito comuns na região. Basta caminhar pelas ruas para sentir os voos rasantes dos “ratos de asas”. Morcegos e animais domésticos não formam uma boa combinação, dependendo da endemia que não está sob controle. Não vamos alarmar, mas o alerta serve para a prevenção.
Semana da Canja
No próximo sábado, a Canja do Galo Inácio será lançada oficialmente. O evento será ao cair da tarde, no Joãozinho Espetinhos, que fica na última quadra da Avenida Iguaçu, na mais que charmosa Vila Yolanda. É quando a organização distribui as tarefas, os ingressos, as camisetas e faz a contagem regressiva para o evento mais carismático do Carnaval, abençoado pelo saudoso Padre Germano Lauck. Haverá inclusive um ensaio do Bloco Papai Urso. Reserve desde já o seu cantinho. Prestigie a Canja!
Charanga dá a partida
E no mesmo local, próximo à Imigrantes, será realizada a segunda edição da Charanga da Yolanda, um carnaval para matar a saudade dos velhos tempos em que as marchinhas dominavam os eventos carnavalescos. A quadra será fechada apenas no sábado, data única de realização da Charanga, pelo menos por enquanto. Haverá muita música e desfile de fantasias das crianças. É quando vovôs e vovós se divertem jogando confete e serpentina. A Charanga entrou no calendário oficial do Carnaval, organizado pela Fundação Cultural! Alô, alô Paty Iunovich! Precisando é só chamar!
É amanhã…
Não é propaganda de loja de departamentos, e sim o informe sobre a presença de Rogério Bonato, ou seja, eu, no programa Contraponto, da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, nesta terça-feira. É assim que o jornalista, pai assumido do Galo Inácio e do Corvo, retorna aos microfones. Vale lembrar: a ideia de dar nome para a coluna como “No Bico do Corvo” não foi de Dobrandino Gustavo da Silva, como andaram escrevendo. Foi Paulo Mac Donald Ghisi quem telefonou dando a dica, aceita imediatamente pelo colunista. A iniciativa foi substituir o nome Galo Inácio, cedido definitivamente para a realização da famosa canja; afinal, a coluna vive cometendo uns pecadinhos aqui e ali, e é assim que sobrevive tanto tempo na opinião pública (perdoem a confusão com a primeira e segunda pessoa neste texto).
Pecados e absolvições
Para encerrar, um caso envolvendo o Padre Germano. Era ele quem provava a primeira porção da Canja. Sem que isso acontecesse, o alimento não era distribuído. Nos primeiros anos, havia muitos metidos a chefes de cozinha no evento e todos despejavam um pouco de sal nos caldeirões. O padre provou e mandou a Terezinha achar este colunista: “Você quer matar o padre? Essa canja está louca de salgada! Jogue água até dessalgar e não entreguem ela desse jeito às pessoas”, disse. Naquele ano aconteceu assim, uma espécie de milagre da multiplicação, tamanha a quantidade de água para ajudar na dissolução do sal.
Anos depois, Germano me chamou em sua sala e disse: “Eu leio a tua coluna e todos os pecados cometidos no ano são absolvidos pelo fato de você se esforçar para fazer a Canja”, e riu bastante. A todos um bom início de fevereiro e, nesta segunda-feira, viva Nossa Senhora dos Navegantes! Odoyá, Mãe das Águas!

Rogério Romano Bonato escreve com exclusividade para o Almanaque Futuro e Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. Nesta terça-feria ele retorna aos microfones, participando do porgrama Contraponto.
