Ouro verde paranaense: como o Biometano está redesenhando a logística e a matriz energética do Estado
Com foco em economia circular e redução de custos, o Paraná articula o maior ecossistema de gás renovável do Brasil, transformando o "problema" dos dejetos em autonomia para o setor de transportes.
Redação Almanaque Futuro com informações e fotos da AEN
O Paraná está consolidando uma estratégia inédita no Brasil para liderar a descarbonização do transporte de cargas pesadas. Enquanto o mundo discute a transição energética em fóruns globais, o estado já executa no campo e nas rodovias o projeto dos Corredores Rodoviários Sustentáveis. A iniciativa não se limita apenas à redução de emissões de gases de efeito estufa; trata-se de uma reorganização econômica que conecta secretarias de estado, cooperativas agroindustriais, transportadores e concessionárias de energia para criar um mercado robusto de biometano.
Diferente das eletrovias, que já cruzam o estado com 730 quilômetros de rede para veículos leves, o biometano foca no “músculo” da economia: os caminhões de grande porte que movimentam a safra e a produção de proteína animal. O gás renovável, quimicamente idêntico ao gás natural fóssil, mas com origem em resíduos orgânicos, surge como o substituto ideal para o diesel, oferecendo uma redução de custos de até 35% por quilômetro rodado.
A Logística dos Corredores e Microcorredores
A estratégia paranaense opera em duas frentes complementares. A primeira é a estruturação de rotas de longa distância pela Compagas. Em 2024, a operação da primeira rota entre Londrina e Paranaguá conectou o Norte ao Porto, garantindo autonomia para veículos pesados com 13 postos de GNV/Biometano em pontos estratégicos. Essa malha permite a integração logística com São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, garantindo que o transporte interestadual possa migrar para uma matriz mais limpa.
A segunda frente, talvez a mais inovadora, foca nos “microcorredores” no interior do estado. Nessas regiões, onde não há gasodutos e a produção de biomassa é abundante, o biometano é produzido e consumido localmente. É a chamada economia circular levada ao extremo. Segundo Sandro Vieira, superintendente de Energia do Paraná (SUPEN), o conceito evoluiu: “Hoje chamamos de corredor sustentável porque não importa mais a fonte. O Paraná trabalha com eletromobilidade, biometano, etanol e biodiesel, reforçando nossa diversidade energética”.
O Exemplo que Vem do Campo: O Caso Primato
No Oeste do estado, o biometano já é uma realidade operacional e não apenas um projeto piloto. Em Toledo, a cooperativa Primato inaugurou uma bioplanta que processa diariamente 630 mil litros de dejetos suínos. O que antes era um passivo ambiental complexo tornou-se combustível para seis caminhões da própria frota e fertilizante organomineral para os cooperados.
Juliano Millnitz, diretor-executivo da Primato, destaca que a motivação nasceu de um problema regional — o enorme plantel de suínos do Oeste. “Percebemos que o nosso problema trazia uma oportunidade. Hoje, o dejeto vira adubo para milho e soja, que alimentam o suíno novamente, e o biometano reduz drasticamente nossos custos fixos. É a sustentabilidade que abre portas no mercado internacional para a nossa carne”, explica.
Investimento em Infraestrutura e Dutos
O setor privado tem respondido ao incentivo estatal com investimentos pesados. A Compagas anunciou um aporte de R$ 200 milhões para expandir a oferta de gás. Um dos destaques é a parceria com a Potencial, na Lapa, que se tornará a segunda fabricante nacional de biodiesel a escoar parte de sua produção via dutos. O plano é interligar a usina às bases de distribuição em Araucária, otimizando o transporte energético em um raio de 50 quilômetros e fortalecendo o polo petroquímico da região.
Ao mesmo tempo, a Secretaria da Indústria e Comércio (Seic) trabalha junto à Fetranspar para sensibilizar transportadoras. Rodrigo Becegato, assessor técnico da Seic, aponta que o setor de transporte é responsável por 74% das emissões energéticas do estado. “Nosso foco é criar condições para que o transportador veja o biometano como alternativa viável, seja em modelos híbridos ou exclusivamente a gás”, detalha.
Horizonte 2035 e o Ciclo Virtuoso
Por meio de programas como o RenovaPR, o estado oferece financiamento e equalização de juros para a implantação de biodigestores. O metano, se liberado na atmosfera, é até 21 vezes mais agressivo que o CO2. Com a biodigestão, o produtor trata o resíduo, gera energia e cria um ativo econômico.
O horizonte para 2035 é de que o Paraná consiga substituir cerca de 15% de todo o diesel consumido em seu território por biometano. Para Herlon Almeida, coordenador do RenovaPR, estamos no início de um novo ciclo econômico. “O Paraná tem uma nova cadeia produtiva que gera emprego local e diminui o custo do frete. É uma revolução silenciosa, mas potente, que coloca o estado como o principal laboratório de transição energética do país”, conclui.
