Quando o urbanismo é de solavanco

Entre buracos, promessas e “leitos carroçáveis”, esta coluna saúda os leitores do Almanaque Futuro e os ouvintes da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, que passam a acompanhar também pelo rádio as crônicas urbanas de uma cidade vivida no passo e no volante.

Conversas e soluções?

Acompanhei, com a curiosidade de quem já viu esse filme outras vezes, uma conversa nas redes sociais em que o asfaltamento — ou melhor, a pavimentação, para não ofender os dicionários técnicos — voltava a ser o assunto da semana. Tema democrático, diga-se: interessa ao motorista apressado, ao ciclista esperançoso, ao pedestre resiliente e, sobretudo, ao sujeito que só percebe o problema quando o amortecedor vai embora antes do IPVA. Pavimentação não é luxo urbano, é item de sobrevivência cotidiana. Dependemos dela do nascer do sol ao apagar das luzes — e até no derradeiro cortejo. Cruz e credo! Defunto algum merece chacoalhar no caixão por culpa de buraco mal resolvido. Isso, além de desrespeitoso, é má engenharia.

 

Prático ou inútil?

Na tal conversa — que nem chegou a virar discussão, porque todo mundo já estava cansado demais — surgiram palavras técnicas, dessas que fazem qualquer leigo pensar que a solução está próxima. Uma delas foi “pano de teste”, etapa em que a massa asfáltica entra em observação pelos executores da obra. A expressão já soa estranha, mas fica quase poética quando explicam que tudo acontece no “leito carroçável”. Barbaridade! Parece nome de peça teatral, mas não é. Leito carroçável é, oficialmente, o espaço por onde trafegam veículos de transporte. Ou seja, o local onde sua suspensão morre lentamente. Urbanismo também é vocabulário — e às vezes ele assusta mais do que buraco.

 

Piso que afunda

A realidade nua, crua e esburacada é que, se o tal “pano de teste” fosse levado a sério em Foz do Iguaçu, nossas ruas não seriam movediças. E não é força de expressão. Movediças como mangue, daqueles onde o caranguejo anda de lado para não afundar. Basta passar pela Avenida das Cataratas, na altura do semáforo em frente ao Restaurante China, para observar as valetas que se formaram no glorioso “leito carroçável”. Ali não é rua: é ensaio geológico. Basta um ônibus parar que o asfalto afunda. Dali se deduz, sem esforço técnico, que o pano de teste foi um fracasso. De teste, nada. Entregam o remendo porcamente e nós pagamos.

 

Medida equivocada

Se quisermos mais exemplos, não precisamos ir longe. A rotatória de acesso à Avenida Safira, em frente ao Shopping Catuaí Palladium, é outro monumento à deformidade urbana. Trafegar pela faixa da direita virou uma experiência sensorial completa: você testa a suspensão, avalia o alinhamento, conversa com o mecânico mentalmente e ainda agradece por não ter perdido uma roda. Os profissionais da mecânica adoram aquele trecho — é ponto de prospecção e salvação do caixa.

 

Causa e efeitos

As causas são conhecidas e repetidas como ladainha: material inadequado, tráfego pesado antes da cura, calor excessivo e, quem sabe, um erro conceitual de origem. Talvez ali nunca devesse existir uma rotatória. Talvez um cruzamento semaforizado resolvesse. Sei que semáforo é palavrão para muita gente, afinal, Foz vista de cima, já parece uma árvore de Natal permanente: tantos sinais que a cidade brilha mais que boate.

 

Pobre pedestre

Adoro caminhar. Caminhar é civilizar. O problema é descobrir onde. Dias atrás, fiz uma marcha quase épica. Saí de casa e enfrentei um trecho de obras na BR-469, exatamente junto ao Hotel Carimã, onde a calçada está em execução — mas será ciclovia, garantem. Superado o trecho, dei de cara com o novo viaduto e o conjunto de alças da Perimetral Leste. Ali, simplesmente não há espaço para pedestres nem ciclistas. Zero urbanidade. Nenhum respiro. Quem gosta de caminhar pela Avenida das Cataratas não consegue seguir adiante. O fluxo para. A promessa da BR-469 com passeio e ciclovia até o Parque Nacional vira miragem. No papel, uma maravilha europeia. No chão, um beco sem saída.

 

De que jeito?

Como será, então, a vida prática? Quem quiser caminhar na BR-469 revitalizada terá que estacionar o carro em algum lugar — se encontrar — ou ir de Uber, táxi ou ônibus até o ponto onde começa o passeio. Parece detalhe, mas não é. Urbanismo se faz nos detalhes. O conceito favorece o trânsito, mas abandona o pedestre. Em vez de conectar, interrompe. Em vez de incluir, exclui. Bastava copiar bons exemplos locais, como a Avenida Araucária, nos fundos do CTG, na Vila A, onde as pessoas estacionam, caminham, respiram e convivem. Custava fazer uma calçada mínima sob o viaduto da Perimetral? Um metro de humanidade já ajudava.

 

Visão externa

Aqui mora o nó do problema: quem projeta não vive em Foz do Iguaçu. Não caminha pela cidade, não sua no calor, não conhece os hábitos da população nem o ritmo multicultural das ruas. Ignora que aqui circulam brasileiros, argentinos, paraguaios, coreanos, árabes, chineses e gente de todos os continentes. Falta senso de idiossincrasia — palavra difícil, mas indispensável aos projetistas das coisas públicas. O mais grave é que autoridades recebem, aprovam e aplaudem esses projetos como se obra pública fosse um presente. E é, um presentão eleitoreiro! Oras, por favor! Cidade não é maquete, nem voto é concreto armado.

 

Aqui estou

Bom dia, amigos. Esta coluna é escrita nas primeiras horas da manhã por este humilde escriba, Rogério Romano Bonato, no espaço conhecido como No Bico do Corvo, publicado no Almanaque Futuro, agora em sintonia e compartilhamento com a Rádio Cultura de Foz do Iguaçu.

Seguimos caminhando — quando deixam.

 

Rogério Romano Bonato escreve com exclusividade para o Almanaque Futuro e agora Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, com muito orgulho!