Por que nos sentimos tão bem nas Cataratas do Iguaçu?

Ciência, natureza e bem-estar no coração do Parque Nacional

Exclusivo Almanaque Futuro

Há uma pergunta que atravessa gerações de visitantes do Parque Nacional do Iguaçu e que raramente encontra resposta para além da emoção: por que nos sentimos tão bem ao visitar as Cataratas? Não se trata apenas do impacto visual, do som hipnótico das águas ou da grandiosidade da paisagem. A ciência começa a demonstrar que o bem-estar experimentado no Iguaçu tem fundamentos físicos, biológicos e ambientais mensuráveis — e que a região reúne um conjunto raro de fatores naturais terapêuticos.

Um estudo elaborado por Gilmar Piolla e Fábio Tadeu Lazzerini (IUCN-WCPA), apresentado em outubro de 2025, sistematiza essas evidências ao analisar o microclima das Cataratas e sua interação com o corpo humano. O principal elemento investigado são os íons negativos do ar — partículas eletricamente carregadas que se formam em grande quantidade em ambientes de água em movimento, como cachoeiras, corredeiras e florestas densas.

Medições realizadas na passarela da Garganta do Diabo registraram concentrações entre 18 mil e 22 mil íons negativos por centímetro cúbico. Para efeito de comparação, ambientes urbanos externos raramente ultrapassam mil íons/cm³, enquanto espaços internos climatizados podem chegar a níveis próximos de zero. Essa diferença coloca o microclima das Cataratas entre os mais ricos do planeta em carga iônica natural.

A literatura científica revisada por pares associa a exposição a altos níveis de íons negativos a melhora do humor, redução do estresse, qualidade do sono, clareza mental, regulação hormonal, efeitos anti-inflamatórios e até melhora da função cardiovascular. Estudos experimentais e meta-análises publicados em periódicos internacionais indicam ainda efeitos positivos sobre marcadores bioquímicos ligados ao estresse, como o cortisol, e sobre o desempenho cognitivo.

Mas o Iguaçu não oferece apenas ar carregado de energia natural. A região é também parte estratégica do Aquífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta. Em Foz do Iguaçu, essas águas apresentam características minero-medicinais, com temperatura naturalmente elevada, pH alcalino e alta concentração de sais minerais, atributos historicamente associados a efeitos terapêuticos em estâncias termais ao redor do mundo.

“Sabe aquela sensação de renovação que sentimos perto das quedas? Não é só psicológico, é física pura. Quando a água das Cataratas bate com força nas rochas, ela quebra as moléculas de ar e libera bilhões de íons negativos. Apesar do nome, esses íons são excelentes para nós: eles limpam o ar de poluentes e, quando os respiramos, aumentam nossa produção de serotonina, o hormônio do bem-estar. Enquanto o ar das cidades, cheio de aparelhos eletrônicos (carregado de íons positivos), nos deixa cansados e estressados, o microclima do Iguaçu funciona como uma ‘bateria natural’ que recarrega nossa clareza mental e reduz o estresse em poucos minutos.” Explica Gilmar Piolla.

Somam-se a isso a biodiversidade da Mata Atlântica, rica em espécies com propriedades medicinais e aromáticas, e o ambiente sonoro singular das quedas, cuja vibração contínua atua como um modulador fisiológico e emocional. Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece as chamadas soluções baseadas na natureza como instrumentos estratégicos para promoção da saúde e da qualidade de vida no século XXI.

O estudo também dialoga com abordagens mais amplas da relação entre ambiente e consciência, destacando a escolha de Foz do Iguaçu como sede de centros dedicados ao estudo da consciência humana. Sem recorrer a dogmas, a pesquisa propõe que grandes sistemas naturais — água em abundância, floresta íntegra e energia geológica — criam condições propícias à introspecção, ao equilíbrio emocional e à reorganização interior.

O que emerge desse conjunto de evidências é uma constatação poderosa: o Parque Nacional do Iguaçu não é apenas um destino turístico, mas um território de saúde preventiva, bem-estar e reconexão humana. Ao caminhar pelas trilhas, respirar o ar saturado de íons negativos ou simplesmente permanecer diante do abismo de água e basalto, o visitante participa de uma experiência que envolve corpo, mente e ambiente de forma integrada.

Entender por que nos sentimos tão bem nas Cataratas é compreender que a natureza, quando preservada em sua complexidade, não apenas encanta — ela cuida. Essa percepção amplia o sentido do Parque e prepara o leitor para a reflexão final desta obra: o legado que deixaremos às próximas gerações não se mede apenas em números de visitantes, mas na capacidade de manter vivo esse raro equilíbrio entre ciência, natureza e humanidade.

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