O palco do mundo. As Cataratas na lente do cinema

Quando a paisagem vira narrativa, o Iguaçu deixa de ser cenário e passa a ser personagem.

Exclusivo Almanaque Futuro

Se a natureza esculpiu o abismo e o homem desenhou fronteiras, foi o cinema que transformou as Cataratas do Iguaçu em mito global. Para a sétima arte, a precisão cartográfica jamais foi um entrave: as quedas já foram apresentadas como o coração inexplorado da Amazônia, portais para mundos perdidos ou o palco de civilizações ocultas e tecnologicamente avançadas. Essa “geografia da imaginação” começou cedo. Já em 1925, o cinema mudo encontrou no Iguaçu o cenário ideal para representar o fantástico. O Mundo Perdido, inspirado na obra de Arthur Conan Doyle, utilizou imagens das quedas para ilustrar o platô onde o tempo havia parado e dinossauros ainda reinavam. Era o início de uma relação duradoura entre câmeras e basalto, na qual a força da paisagem dispensava explicações.

A memória local — oral e documental — preserva passagens curiosas dessa convivência com o cinema. Quem não se lembra do icônico agente secreto? Em 1979, 007 Contra o Foguete da Morte levou Roger Moore às Cataratas em uma perseguição de lancha que, por obra da edição, começava em um rio qualquer e terminava na Garganta do Diabo. O herói escapava com uma asa-delta acoplada à embarcação, enquanto o vilão “Dente de Aço” despencava no abismo. Décadas depois, em 2008, foi a vez de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal ambientar suas cenas finais nas mesmas águas — ainda que o roteiro insistisse em localizá-las na Amazônia peruana. Para o público, o rugido era inconfundível: era o Iguaçu.

A lista de produções é extensa e atravessa gêneros. A Missão, protagonizado por Robert De Niro e Jeremy Irons, talvez seja o filme que melhor utilizou a imponência das Cataratas para narrar o drama espiritual das Missões Jesuíticas, tema explorado nas páginas anteriores. Mais recentemente, o Parque Nacional serviu de matriz visual para as “Warrior Falls” de Wakanda em Pantera Negra, onde a tecnologia digital encontrou a força ancestral da paisagem para coroar reis. De animações e comédias a blockbusters de ação, o Iguaçu provou ser cenário universal: adapta-se a qualquer narrativa sem perder identidade.

Mas a fama das Cataratas não se construiu apenas sob os refletores de Hollywood. A publicidade brasileira também se apropriou do espetáculo. Um dos momentos mais lembrados da televisão nacional foi o comercial da Lorenzetti, no qual Renato Aragão, o eterno Didi, surgia diante das quedas para demonstrar a potência de uma ducha elétrica.

O contraste entre o humor popular e a força brutal da água ajudou a fixar as Cataratas no imaginário doméstico do país. Seja por meio de efeitos especiais sofisticados ou de campanhas simples e diretas, as imagens do Iguaçu — reais ou recriadas digitalmente a partir de sua estética — tornaram-se uma das ferramentas mais poderosas de divulgação do Brasil.

O discernimento que o Almanaque Futuro propõe nesta página é perceber que, ao ser filmada, a Catarata deixa de ser apenas água e rocha para assumir o estatuto do sublime. O cinema construiu o desejo da visita, despertou a curiosidade de estar diante do que parece irreal na tela. Damos agora um salto ao presente, em que o Parque Nacional do Iguaçu não é apenas um set de filmagem, mas uma unidade de conservação modelo, visitada por milhões de pessoas que — tal como diretores e fotógrafos — tentam capturar, nem que seja em um clique rápido, um fragmento daquela eternidade. O espetáculo continua. A diferença é que, agora, o protagonista é você.

Clique aqui e veja o Suplemento completo em PDF