O palácio das águas: glamour, diplomacia e o “Tarzan” Austríaco

O luxo discreto e a selva indomável; Foz do Iguaçu tornou-se palco de acordos, aventura e destino global.

Exclusivo Almanaque Futuro

Se as décadas de 1930 e 1940 foram marcadas pela fundação do Parque Nacional e pela arquitetura de pedra lascada, os anos 1950 e 1960 representaram o florescimento definitivo de Foz do Iguaçu como destino internacional.

O símbolo maior dessa transição foi a consolidação do Hotel das Cataratas. Com sua arquitetura colonial e o tom rosado das paredes contrastando com o verde profundo da Mata Atlântica, o hotel redefiniu a experiência de visitação: o santuário natural deixava de ser apenas um destino rústico para tornar-se refúgio de sofisticação, contemplação e encontro entre mundos.

Foi nesse cenário que surgiu uma das figuras mais emblemáticas da história do turismo iguaçuense: o austríaco Franz Kohlenberger. Chegou em 1955 como turista e, impactado pela força das Cataratas, decidiu permanecer.

Tornou-se o primeiro funcionário registrado do hotel e, com disciplina europeia aliada a um espírito aventureiro raro, construiu uma lenda viva. Enquanto administrava o requinte do estabelecimento, descia paredões de basalto com uma corda no ombro para guiar hóspedes por trilhas e mirantes hoje inimagináveis. Sem saber nadar, mas conhecendo cada pedra do rio, criou passeios em canoas artesanais que levavam visitantes — inclusive celebridades — até as imediações da Garganta do Diabo. Assim nasceu o apelido que atravessaria décadas: o “Tarzan das Cataratas”.

A fama do Iguaçu, porém, já ultrapassava fronteiras. Uma frase atribuída à ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, teria selado simbolicamente o destino do lugar ao compará-lo às Cataratas do Niágara: “Poor Niagara!”. Verdadeira ou lendária, a exclamação tornou-se o mais poderoso slogan espontâneo da história do Paraná. Ao confrontar a paisagem urbanizada e domesticada do Niágara com a vastidão selvagem das mais de 270 quedas do Iguaçu, a frase expressava o sentimento de uma era: ali estava um espetáculo natural que não aceitava equivalências.

O Hotel das Cataratas, entretanto, não foi apenas palco de glamour e contemplação. Seus salões também abrigaram decisões que redefiniriam o mapa energético do continente. Em 1966, foi ali que os chanceleres Juracy Magalhães e Sapena Pastor assinaram a Ata do Iguaçu, documento que lançou as bases para a criação da Itaipu Binacional. Entre o rugido das águas e o ritual diplomático, selava-se um acordo que provaria, mais uma vez, que o Iguaçu era ponto de convergência entre natureza, política e desenvolvimento.

A partir desse momento, o tempo de Foz do Iguaçu acelerou. O turismo deixou de ser promessa e consolidou-se como eixo estruturante da economia local. Entre os anos 1960 e 1970, a cidade passou a contar com pontes internacionais, aeroporto moderno e uma rede hoteleira que se expandiu muito além dos limites do Parque. O “Xangri-lá” intuído por Santos Dumont e compreendido por Bertoni estava, enfim, conectado ao mundo.

Nesse processo, Franz Kohlenberger tornou-se símbolo de uma transição bem-sucedida. Começou limpando balcões e encerrou sua trajetória como Cidadão Honorário de Foz do Iguaçu. Ele personificou a ponte entre a selva bruta e a hospitalidade de excelência, demonstrando que o homem pode habitar o paraíso — desde que aprenda a caminhar entre as pedras com respeito, prudência e admiração. O Hotel das Cataratas e seu lendário “Tarzan” ensinaram que o verdadeiro luxo do Iguaçu sempre foi a convivência harmoniosa entre o humano e o indomável.

 

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