O arquiteto do destino. Entre a fé e o Parque Nacional.

Quando a paisagem deixa de ser promessa e passa a exigir responsabilidade histórica.

Exclusivo Almanaque Futuro

Após a visita redentora de Alberto Santos Dumont em 1916 e a consequente desapropriação das terras que envolviam as Cataratas, Foz do Iguaçu ingressou em um período decisivo de maturação institucional. Se Santos Dumont foi o libertador simbólico do território, coube a outro personagem, menos célebre e igualmente decisivo, compreender que a contemplação da natureza poderia se converter em dignidade social. Entre as décadas de 1920 e 1930, o Monsenhor Guilherme Maria Thiletzek atuou não apenas como líder religioso da fronteira, mas como verdadeiro arquiteto do destino local.

Com um senso estratégico incomum para a época, o Monsenhor transformou o encantamento das Cataratas em ferramenta de mobilização social. Produzia folhetos artesanais, cartões-postais e pequenos souvenires, divulgando a imagem do Iguaçu para visitantes e autoridades. O objetivo era claro: financiar obras de caridade e estruturar serviços básicos em uma cidade ainda precária. Foi sob sua influência que parte das taxas cobradas dos visitantes passou a ser revertida para a saúde pública, lançando as bases do hospital que mais tarde levaria seu nome. Antes que o turismo fosse política de Estado, ele já funcionava como instrumento de justiça social.

Enquanto o Monsenhor “vendia” o Iguaçu ao mundo em troca de leitos hospitalares, o cenário político nacional passava por transformações profundas. Em 1939, no auge do projeto nacionalista de integração territorial, o presidente Getúlio Vargas assinou o decreto nº 1.035, criando oficialmente o Parque Nacional do Iguaçu. A partir desse marco, o território deixou de ser apenas uma promessa moral para tornar-se política pública. Iniciava-se a construção concreta de uma infraestrutura pensada para proteger, ordenar e revelar a paisagem, conciliando presença humana e força natural.

As primeiras intervenções arquitetônicas do Parque foram, em si, uma declaração de intenções. Guaritas, quiosques e edificações de apoio foram erguidos com o uso intensivo do basalto local, trabalhado manualmente. A pedra negra, extraída do próprio solo, e das barrancas dos rios, conferia às construções a aparência de terem brotado da floresta, integrando-se à paisagem em vez de confrontá-la. Esse estilo arquitetônico singular — sólido, austero e orgânico — definiu a estética original do Parque e permanece, até hoje, como marca identitária da unidade.

Antes mesmo da consolidação do Hotel das Cataratas, que surgiria nos anos seguintes, essas estruturas funcionavam como abrigo e orientação para viajantes que enfrentavam estradas rudimentares e longas jornadas para chegar às quedas. O Estado brasileiro, por meio do então Serviço Florestal, investia na criação de uma experiência que fosse simultaneamente monumental e acolhedora. O Parque começava a ser edificado não apenas como espaço natural protegido, mas como destino turístico estruturado.

O discernimento que o Almanaque Futuro propõe nesta página é claro: o Parque Nacional do Iguaçu não nasceu apenas de um decreto. Ele foi construído no intervalo criativo entre 1916 e 1939, quando fé, ciência e política aprenderam a dialogar. Monsenhor Guilherme demonstrou que as águas do abismo podiam levantar as paredes de um hospital; o governo federal compreendeu que a natureza, quando organizada e protegida, torna-se símbolo de soberania e identidade nacional.

Esse período consolidou aquilo que hoje chamamos de “experiência Iguaçu”. Ao caminhar pelas passarelas e pelas antigas construções de pedra, o visitante contemporâneo toca um projeto de país que soube unir o sagrado e o secular. Paradoxalmente, enquanto o turismo começava a se estruturar sob a lógica da preservação, surgiam também os primeiros empreendimentos energéticos, como a Usina São João — prenúncio distante de que, décadas depois, outra obra monumental, Itaipu, surgiria no mesmo território. O palco estava armado para a Foz do Iguaçu moderna: uma cidade que aprendeu a crescer em diálogo permanente com a paisagem que lhe deu origem.

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