O sábio do Paraná e quando a ciência chegou antes que os soldados

Antes da fronteira oficial, o Iguaçu foi decifrado pela ciência, não pela força das armas.

Exclusivo Almanaque Futuro

Na história das nações, costuma-se atribuir o nascimento de um território às espadas dos generais ou às canetas dos políticos. Em Foz do Iguaçu, porém, a cronologia revela um percurso singular: a ciência chegou antes dos soldados e dos governos. Cinco anos antes da instalação da Colônia Militar do Exército Brasileiro, em 1889, e décadas antes de qualquer gabinete no Rio de Janeiro compreender plenamente a importância estratégica desta fronteira, um naturalista solitário já havia “conquistado” a região pelo intelecto. Moisés Santiago Bertoni, que chegou à América do Sul em 1884, foi o primeiro a entender que a posse real de uma terra não se faz com marcos de pedra, mas com o conhecimento profundo de seu solo, de seu clima e de sua gente.

Enquanto Brasil e Argentina ainda discutiam em mapas imprecisos onde terminava um império e começava uma república, Bertoni transformava as margens do Rio Paraná em um laboratório a céu aberto. Para ele, as Cataratas do Iguaçu não eram apenas um obstáculo geográfico ou uma curiosidade paisagística, mas um monumento da evolução planetária e um centro dinâmico de energia natural. Catalogou centenas de espécies vegetais, estudou ciclos meteorológicos, solos e regimes hídricos com uma precisão que antecipava, em quase um século, conceitos hoje associados à sustentabilidade e à integração entre natureza e desenvolvimento humano.

Quando os primeiros destacamentos militares brasileiros chegaram à região para formalizar a presença do Estado, encontraram um território que já havia sido interpretado, descrito e compreendido por Bertoni. A ciência já havia nomeado aquilo que a política ainda tentava delimitar. Sua atuação demonstrava que o verdadeiro domínio de um espaço não nasce da imposição, mas da compreensão. Em um território marcado pelo silêncio institucional e pela invisibilidade cartográfica, Bertoni ofereceu leitura, método e sentido.

A relação do cientista com Foz do Iguaçu foi tão profunda que permaneceu viva na memória oral da cidade.

Depoimentos de moradores antigos — pioneiros que registraram suas lembranças em entrevistas jornalísticas e em projetos formais de preservação da memória local — sustentam que, até o início da década de 1980, era conhecido e respeitado o local onde Bertoni teria sido sepultado em um dos antigos cemitérios da região. Esses testemunhos, colhidos ao longo de décadas, não constituem prova documental definitiva, mas compõem um acervo de memória consistente, revelador da importância simbólica do cientista para a formação intelectual e afetiva do território.

Embora o Museu Bertoni, no Paraguai, seja hoje o principal guardião de seu legado científico e documental, o debate sobre o destino final de seus restos mortais reforça um aspecto central desta narrativa: a história de Foz do Iguaçu foi construída, em grande parte, fora dos registros oficiais. Bertoni faleceu em 1930, e as condições logísticas da época, somadas à sua identificação profunda com a floresta atlântica e com o espaço que estudou por décadas, tornam plausível que sua despedida definitiva tenha ocorrido em solo iguaçuense. Mais do que localizar um túmulo, reconhecer essa possibilidade é compreender o valor simbólico de sua presença.

A trajetória de Bertoni demonstra que, no coração da selva, a autoridade do saber precede a autoridade do poder.

Antes da fronteira oficial, antes das guaritas, tratados e quartéis, o Iguaçu já havia sido compreendido como sistema vivo, território complexo e patrimônio natural. A ciência chegou primeiro — e deixou marcas mais duradouras do que qualquer estaca fincada no chão.

 

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