O encontro de mundos e a odisseia de Álvar Núñez Cabeza de Vaca

Quando o Iguaçu entrou nos mapas europeus, não como conquista, mas como desafio humano, geográfico e moral.

Exclusivo Almanaque Futuro

O século XVI representou um salto temporal abrupto para o território do Iguaçu. Quando os europeus lançaram suas caravelas ao Atlântico, movidos pela busca de metais preciosos e rotas comerciais, acabaram por se deparar com algo para o qual a mentalidade da época ainda não possuía vocabulário adequado: uma força da natureza que desafiava qualquer noção de domínio. Iniciava-se ali um choque profundo entre mundos, culturas e percepções. Nesse contexto de invasão, espanto e violência sistêmica, destaca-se a figura singular de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, responsável por inserir a região do Iguaçu nos registros da história escrita, em 1542.

Diferente de contemporâneos como Pizarro ou Cortês, cujos rastros foram de banhos de sangue e destruição, Cabeza de Vaca chegou ao sul do continente moldado por uma experiência traumática: anos antes, ele havia sido náufrago e escravizado por nativos na América do Norte. Como aponta o historiador Henry Muller, ele era, em espírito, o ‘primeiro homem moderno’. Sua autoridade não vinha apenas da espada, mas de uma espiritualidade forjada na dor, o que o dotou de um senso humanitário raro. Nomeado Adelantado da Coroa de Castela, empreendeu a travessia do litoral catarinense com destino a Nuestra Señora de Asunción, adotando uma postura incomum para o período: priorizou a diplomacia com os povos originários, buscando a pacificação em vez do extermínio.

A expedição que liderou reuniu dezenas de espanhóis e milhares de indígenas aliados, que se somaram ao percurso ao longo do caminho. A marcha venceu a Serra do Mar e avançou pela floresta subtropical, seguindo antigas trilhas indígenas que estruturavam o interior do continente muito antes da chegada europeia. Cabe aqui uma retificação histórica que o Almanaque Futuro assume com rigor: ao contrário da tradição difundida, não há registro documental de que Cabeza de Vaca tenha batizado as Cataratas como “Saltos de Santa Maria”. Em seus relatos, o fenômeno aparece descrito não como ato de devoção, mas como um obstáculo geográfico monumental. Para uma expedição extenuada, carregando equipamentos e mantimentos, as Cataratas representaram menos um espetáculo e mais um desafio logístico extremo. Transpor as escarpas basálticas e a mata densa exigiu soluções de sobrevivência antes que o grupo finalmente alcançasse o Rio Paraná.

Os relatos produzidos por Cabeza de Vaca tornaram-se referências fundamentais da expansão colonial no interior da América do Sul. Neles, descreve uma fauna e uma flora de exuberância quase excessiva, em contraste com a precariedade dos recursos europeus. Ainda assim, a exata rota de sua travessia permanece objeto de debate entre historiadores e arqueólogos. Há controvérsias consistentes sobre se ele avistou efetivamente as Cataratas do Iguaçu ou se, guiado por ramais do antigo caminho do Peabiru, teria passado mais ao norte, nas proximidades das então existentes Sete Quedas de Guaíra, hoje submersas. Relatos paralelos, como os do cronista Ulrico Schmidel, por vezes entram em conflito com a narrativa oficial, evidenciando as lacunas de uma cartografia ainda em construção.

A importância simbólica de 1542 não reside na fundação de cidades ou na edificação de marcos físicos. Cabeza de Vaca não deixou monumentos. Sua passagem representa, antes, o momento em que o território do Iguaçu foi incorporado à lógica mental de um império em expansão. Inserida na então precária Província de Vera, a região passou a ser percebida como um corredor estratégico entre o Atlântico e os centros coloniais de Assunção. A chamada “descoberta” europeia foi, na prática, a imposição de novos mapas sobre um espaço ancestral plenamente vivido e compreendido por seus habitantes originários.

Recontar esse episódio com honestidade histórica exige reconhecer que, mesmo sob o olhar do colonizador, o Iguaçu já pulsava com uma vida complexa, soberana e organizada. Cabeza de Vaca foi o cronista de um mundo que ele próprio mal conseguia compreender: um homem de relativa conciliação em um século marcado pela guerra.

Seus passos pelo território do Iguaçu inauguraram uma convivência conflituosa que moldaria o DNA da fronteira por séculos. Conhecer essa travessia é compreender que o Iguaçu, antes de ser destino, sempre foi caminho — passagem inevitável para quem ousa avançar rumo ao desconhecido.

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