O eco das digitais ancestrais e a ocupação humana do Iguaçu

Antes das cidades e das fronteiras, o Iguaçu já era território vivido, manejado e sacralizado por povos ancestrais.

Exclusivo Almanaque Futuro

Muito antes de o primeiro mapa europeu tentar aprisionar este território em linhas e fronteiras, o solo que hoje pisamos em Foz do Iguaçu já era um palimpsesto de histórias humanas. Para o leitor do Almanaque Futuro, o exercício aqui é de desaprendizagem: é preciso despir a paisagem de hotéis, viadutos e monumentos de concreto para enxergar o que a ciência define como o tempo profundo da consciência. Se a geologia levou bilhões de anos para preparar o palco, a humanidade entrou em cena há apenas um suspiro cronológico — tempo suficiente, contudo, para transformar este paraíso em lar sagrado muito antes de a palavra “cidade” existir.

Enquanto as quedas d’água ainda ajustavam seu recuo retrocedente sobre o basalto, a espécie Homo sapiens realizava suas grandes migrações globais. No contexto do Sul da América, não falamos de meros passantes, mas de engenheiros da sobrevivência. Pesquisas arqueológicas contemporâneas indicam que a região de Foz do Iguaçu integrava um corredor migratório vital. Há pelo menos 8 mil anos, grupos associados às tradições Umbu e Humaitá utilizavam o vale do Rio Paraná como uma verdadeira via natural de circulação de recursos. Mestres da pedra lascada, produziam ferramentas em sílex e quartzo cuja sofisticação técnica permitia a caça eficiente e a coleta precisa em uma Mata Atlântica ainda em processo de formação.

Esses povos não estavam simplesmente adaptados à natureza; eles eram parte ativa de sua construção. Estudos recentes sugerem que aquilo que durante muito tempo foi chamado de “mata virgem” resulta, na verdade, de milênios de manejo indígena. Árvores frutíferas eram selecionadas, espécies como o pinheiro eram favorecidas, e a floresta assumia características de um jardim produtivo. Com a chegada dos povos de tradição cerâmica, especialmente os Tupi-Guarani, a relação com o território do Iguaçu adquiriu uma dimensão espiritual e política profunda. Para os Guarani, a confluência dos rios Paraná e Iguaçu não representava um limite, mas um ponto de convergência de energias — um marco simbólico na busca pela Yvy Marãe’ỹ, a Terra Sem Males.

A vida nesses aldeamentos pré-coloniais organizava-se segundo uma lógica de abundância e reciprocidade. As Cataratas, ao criarem um microclima de umidade constante, sustentavam uma biodiversidade capaz de garantir caça e pesca ao longo de todo o ano. Os assentamentos eram erguidos em paleo-terraços — áreas naturalmente elevadas e protegidas das cheias, ainda perceptíveis nos relevos mais altos da cidade atual. Nesse contexto floresceu a cerâmica policromada, com padrões em vermelho, branco e preto, utilizada tanto no cotidiano quanto em rituais funerários que conectavam os vivos aos ancestrais já incorporados à terra.

Essa harmonia milenar, no entanto, sofreu um colapso a partir do século XVI. O encontro com os europeus não representou apenas um choque cultural, mas um desastre demográfico e biológico. Doenças desconhecidas, expedições de apresamento escravista e a violência sistemática das frentes coloniais — espanholas e luso-brasileiras — tentaram apagar as pegadas dos primeiros habitantes. As Missões Jesuíticas, que se estabeleceriam posteriormente na região, constituíram uma tentativa complexa e muitas vezes trágica de reorganizar o território sob uma nova ordem teológica e econômica, silenciando saberes transmitidos oralmente por gerações.

Ainda assim, o DNA cultural desta região revelou-se resiliente. O discernimento que este Almanaque propõe é reconhecer que a história indígena não terminou: ela se transformou em resistência. Hoje, ao caminhar pelas trilhas do Parque Nacional ou pelas ruas de Foz do Iguaçu, sobrepomos nossos passos aos de povos que conheciam cada planta medicinal da mata e cada variação do rugido das quedas. A presença Guarani contemporânea na Tríplice Fronteira é a prova viva de que, embora o basalto seja duro, a cultura é fluida como a água — encontra sempre uma fenda por onde continuar a correr.

Reconhecer Foz do Iguaçu como território ancestral é um gesto de maturidade histórica e cidadã. Antes de sermos destino de milhões de turistas, fomos destino de povos que buscavam a Terra Sem Males. O solo guarda lascas de pedra, fragmentos de cerâmica e cinzas de fogueiras que arderam há milênios. Escutar o que essas vozes silenciadas ainda têm a dizer é condição essencial para que o futuro que projetamos tenha a mesma profundidade e respeito que os primeiros habitantes devotaram a este território.

 

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