A gênese do abismo e o rugido dos últimos milênios

Quando a água passou a comandar a paisagem e ganhou forma, o cenário se preparou para a chegada do homem.

Após o batismo de fogo que selou o destino geológico da região e a lenta estabilização dos continentes, o território onde hoje se encontra Foz do Iguaçu ingressou em uma fase de relativa calmaria tectônica, mas de intensa escultura hídrica. É neste momento que a água assume o papel de protagonista. Para o leitor do Almanaque Futuro, esta página revela um dado fundamental para o discernimento: as Cataratas do Iguaçu, em sua configuração atual, são jovens. Enquanto as rochas basálticas que sustentam o abismo possuem cerca de 130 milhões de anos, o espetáculo das quedas como o conhecemos consolidou-se há aproximadamente 5 milhões de anos, durante o Plioceno. O que se observa hoje não é uma paisagem estática, mas um instante em um processo contínuo de transformação.

O surgimento das Cataratas está diretamente ligado à relação de forças entre dois gigantes fluviais: o Rio Paraná e o Rio Iguaçu. Em um passado geológico recente, o Rio Paraná corria em um nível topográfico mais elevado.

Movimentos tectônicos associados a ajustes regionais da crosta, somados a variações climáticas globais, provocaram o rebaixamento progressivo de seu leito, escavando um cânion profundo. O Rio Iguaçu, então um afluente que fluía de forma contínua, encontrou-se subitamente diante de um degrau abrupto no ponto de confluência. A água, obedecendo à lógica inexorável da gravidade, passou a despencar desse desnível. Foi nesse encontro violento de águas, quilômetros abaixo da atual posição das passarelas, que nasceu a primeira queda.

O mecanismo que mantém as Cataratas vivas e em constante movimento é conhecido como erosão retrocedente. A energia da água que despenca com força na base das quedas gera redemoinhos, impactos e pressões capazes de desgastar as camadas inferiores de arenito — mais frágeis — que sustentam o basalto — mais resistente — do topo. À medida que esse suporte é removido, grandes blocos de basalto colapsam. Esse ciclo provoca o recuo gradual das quedas no sentido contrário ao fluxo do rio. Ao longo de milhares de anos, as Cataratas avançaram cerca de 28 quilômetros rio acima, desde sua posição original no Rio Paraná até o local onde hoje se encontram. O desfiladeiro percorrido pelo visitante, do mirante inicial até a Garganta do Diabo, é, na realidade, a cicatriz deixada por esse lento deslocamento das águas.

Foi esse processo que esculpiu a icônica Garganta do Diabo, um abismo em forma de “U” que concentra o maior volume hídrico de todo o sistema. A geometria em ferradura não é fruto do acaso nem de um capricho estético da natureza. Ela reflete a disposição das fraturas no basalto — heranças diretas das tensões tectônicas associadas à fragmentação da Pangeia. Onde a rocha apresentava maior fragilidade, a água cavou com mais intensidade; onde era mais resistente, surgiram ilhas, degraus e saltos menores. Assim se formou o conjunto dinâmico que hoje divide as Cataratas em mais de 270 quedas individuais, variáveis conforme a vazão do rio.

A consolidação desse fenômeno ocorreu em um planeta que já se aproximava de sua configuração biológica moderna. Quando as Cataratas passaram a rugir em sua posição atual, a fauna regional já assumia contornos semelhantes aos que conhecemos hoje. Ainda assim, há um dado essencial para a compreensão do tempo profundo: na escala da Terra, as Cataratas são efêmeras. Elas representam um momento de transição. Se a erosão continuar seu curso natural, em alguns milhões de anos as quedas poderão se transformar em corredeiras, até que o relevo volte a se nivelar.

Chegamos, assim, ao limiar da história humana. Há cerca de 2,5 milhões de anos, enquanto o Rio Iguaçu continuava a esculpir seu cânion com precisão implacável, os primeiros hominídeos davam passos decisivos no continente africano. O cenário estava pronto. A umidade gerada pelas quedas criou um microclima singular, capaz de sustentar uma das florestas mais ricas do planeta. A natureza havia concluído sua fundação de fogo, gelo, mar e abismo. O palco estava montado — silenciosamente aguardando o surgimento de seu espectador mais complexo: o homem.

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