Ordoviciano – O batismo das sombras e mares primitivos
Antes das florestas e das quedas d’água, esta terra foi mar: fria, profunda e decisiva para a arquitetura do relevo atual.
Exclusivo – Redação Almanaque Futuro
Se a página anterior nos apresentou a solidez de Gondwana, o Período Ordoviciano, iniciado há cerca de 480 milhões de anos, revela a primeira grande provação desse bloco colossal. É neste capítulo que a região de Foz do Iguaçu deixa de ser apenas um interior continental inerte e passa a integrar uma das dinâmicas mais dramáticas da história do planeta: a invasão dos mares e o rearranjo das placas tectônicas. Compreender o Ordoviciano é entender que o solo sob nossos pés guarda uma memória marinha, registrada em camadas que a vegetação atual insiste em ocultar.
Durante esse período, a Terra atravessava transformações químicas e climáticas profundas. O território que hoje corresponde ao Oeste do Paraná foi deslocado em direção às margens do antigo oceano Pantalassa, precursor do Pacífico. O resultado foi a chamada transgressão marinha: a elevação do nível do mar a ponto de inundar vastas áreas do interior de Gondwana. É preciso imaginar Foz do Iguaçu submersa sob águas rasas, frias e ricas em vida invertebrada primitiva. Não havia o rugido das quedas, mas o ritmo das marés em um mundo cuja atmosfera ainda se ajustava para permitir a vida fora dos oceanos.
Do ponto de vista geológico, o Ordoviciano marca a consolidação das rochas sedimentares que serviriam de base para os derrames basálticos muito posteriores. Areias e lamas depositadas em fundos marinhos e grandes sistemas deltáicos deram origem ao que hoje se reconhece como o Grupo Rio Ivaí. Essas camadas funcionam como páginas de um livro de pedra, registrando o peso do oceano sobre a crosta. Muitas das fraturas que hoje influenciam o desenho das Cataratas começaram a ser ensaiadas nesse período, sob a pressão dos sedimentos e o movimento contínuo das placas tectônicas em busca de equilíbrio.
O Ordoviciano também desafia nossa percepção sobre a resiliência da vida. Enquanto o solo da região era moldado, os mares viviam uma explosão de biodiversidade: trilobitas dominavam os fundos oceânicos e surgiam os primeiros peixes primitivos. O período, porém, encerrou-se com a primeira das cinco grandes extinções em massa da história da Terra. Um resfriamento global severo provocou a regressão dos mares e o colapso de biomas inteiros. A região do Iguaçu atravessou esse evento, emergindo novamente como terra firme, mas carregando em sua estrutura as marcas de um passado submerso.
Destacar o Ordoviciano neste projeto editorial é fundamental para compreender o contraste. Hoje, o Parque Nacional simboliza a exuberância tropical, mas sua base foi forjada no frio, na escuridão e na instabilidade de mares antigos. As rupturas tectônicas que moldam o relevo atual não foram episódios isolados, mas parte de um longo processo de estiramento da crosta terrestre. Ao observar as rochas que sustentam as quedas, o leitor percebe que não está diante apenas de um legado vulcânico, mas do sobrevivente de uma era em que a Terra ainda aprendia a ser mundo.
O Ordoviciano nos ensina que a geografia é fluida. O que hoje é floresta já foi leito oceânico; o que hoje é abismo já foi planície submersa. Essa compreensão é essencial para o discernimento sobre a fragilidade e a força do ecossistema regional. Estamos em uma terra batizada por águas salgadas muito antes de ser consagrada pelas águas doces do Rio Iguaçu — uma herança de sobrevivência geológica que prepara o palco para as convulsões de fogo que viriam a seguir.
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