2026 entre promessas, ruídos e o exercício de observar
Um olhar cotidiano, sem bandeiras, sobre o início de um ano que deveria ser futuro — mas insiste em nos testar no presente.
Acordei no dia 1º de janeiro de 2026 com uma sensação dupla: o dever cumprido e o recomeço. Um fechamento de ciclo e, ao mesmo tempo, a abertura de outro — que promete ser exigente. No planejamento, o ano que começa é robusto, carregado de responsabilidades no trabalho, nas relações e na vida cotidiana. Tomara que o percurso se dê com menos solavancos do que os enfrentados no ano passado. Às vezes, o que mais se deseja é apenas que o processo flua.
Na virada do ano, eu e Eliane fomos ao Réveillon cuidadosamente preparado no Bourbon Cataratas. Um espetáculo em todos os sentidos: do palco à cozinha, do serviço à decoração, culminando na delicada soltura de balões, onde o único ruído foi o dos aplausos. Emocionante. A rede hoteleira, que considero quase uma extensão de casa, mantém um padrão de acolhimento que é unanimidade entre os hóspedes. Se tivesse de destacar pontos específicos, além do atendimento, seriam três: a gastronomia pensada para todos os paladares — com direito a uma simbólica fatia de romã para cada comensal —, a decoração exuberante com flores de ipê-amarelo, carregadas de significado, e a escolha dos músicos, valorizando a cultura local. Dificilmente uma banda consagrada teria produzido atmosfera mais autêntica.
Saímos antes da meia-noite por uma razão prosaica e, para nós, inegociável: voltar para casa e cuidar dos nossos bichos, que já vinham sofrendo desde a tarde com rojões e fogos de artifício. Aqui convivem cães, gatos, tartarugas, pássaros, peixes e uma fauna vizinha que encontra refúgio no pequeno bosque ao redor — lagartos, ouriços, raposas, furões. Todos parte do mesmo território.
O primeiro dia do ano transcorreu como para quase todo mundo: mensagens enviadas e recebidas, nenhum trabalho — algo raro — e fogos estourando sem trégua. Fiquei pensando em quando dinheiro passou a ser convertido em pólvora e barulho, e em quantos usos mais produtivos poderia ter. Um amigo resumiu bem: queimar recursos com artifícios parece um traço antigo da humanidade. Há mais de dois mil anos fazemos isso.
E, ao que tudo indica, a pólvora também queimou no cenário internacional logo na largada do ano, especialmente em Caracas. Em casa, um papagaio grita “Caraca!”, e a coincidência sonora não deixa de ser irônica. Mais uma vez, conflitos emergem justamente na virada do calendário, como se o início do ano fosse um período propício para decisões duras e ações espetaculares.
Soube dos acontecimentos primeiro pelas redes sociais, território onde convivem informação, especulação e notícia falsa. Corri para a televisão e a programação seguia normal. Talvez seja esse o sinal mais perturbador: ações que antes paralisavam o mundo hoje parecem integrar o fluxo cotidiano. Ver tropas estrangeiras avançando por uma capital latino-americana tornou-se quase banal, enquanto populações civis seguem sendo as principais vítimas.
Não me coloco como juiz dos acontecimentos. Sou apenas um observador cotidiano, atento, sem lado, torcendo pelo melhor. O que me causa estranhamento é a naturalização da força como instrumento político e a facilidade com que justificativas se constroem — narcotráfico, segurança, estabilidade — enquanto interesses econômicos aparecem logo em seguida, quase sem disfarce. As riquezas naturais pertencem aos povos que nelas vivem. Esse deveria ser um princípio elementar.
Também não há inocentes absolutos. Tragédias nacionais raramente são obra de um único ator. Há responsabilidades internas, erros acumulados, escolhas mal feitas e populações exaustas. Divisões políticas profundas não são exclusividade de um país ou outro; fazem parte de um mundo cada vez mais fragmentado.
Aqui, à distância, o debate se acirra. Esquerda e direita se enfrentam como se o conflito fosse doméstico, enquanto pessoas reais lidam com consequências concretas. Conversei com venezuelanos que vivem em Foz do Iguaçu. O sentimento dominante não é euforia nem tristeza ideológica, mas preocupação com familiares e um distanciamento claro das lideranças políticas. Curiosamente, apoiadores e críticos do antigo regime convivem lado a lado na cidade, trabalhando, criando filhos, tocando negócios. A experiência do exílio parece dissolver certezas.
Os números da diáspora impressionam: cerca de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país, espalhando-se principalmente pela Colômbia, Peru, Estados Unidos, Brasil e Equador. Muitos criaram raízes definitivas. Perguntados se pensam em voltar, a resposta é direta: não. Trabalho, escola, casa própria, pequenos empreendimentos — a vida seguiu, amparada pela acolhida, uma tradição brasileira.
Quando eu era criança, as projeções para 2026 eram muito mais auspiciosas. A televisão, a literatura e o cinema prometiam viagens no tempo, explorações no fundo do mar, jornadas pelas estrelas, encontros com outros mundos, sociedades sem pobreza, guerras ou deformidades sociais. Íamos “onde ninguém jamais esteve”. Hoje, paradoxalmente, parece que estamos mais próximos de retornar às cavernas do que de cumprir aquelas promessas futuristas.
Não entro no mérito ideológico. Rejeito qualquer forma de violência, imposição ou ditadura. Acredito na diplomacia e na democracia como caminhos possíveis — ainda que imperfeitos. Com o estrago anunciado, resta acompanhar os próximos capítulos.
Talvez o mundo esteja mudando também nesse aspecto: menos entusiasmo por guerras, menos disposição para banhos de sangue. Se isso for verdade, já é algum avanço. Por ora, cabe observar. E desejar, com prudência, um bom ano a todos.

Eliane Schaefer e Rogério Bonato iniciam a jornada no Almanaque Futuro!
