Da coragem de João Batista às carcaças nas ruas de Foz: soberania, memória e os desafios do nosso tempo
No 29 de agosto, dia de mártires, rupturas históricas e nascimentos ilustres, a coluna reflete sobre o verdadeiro sentido da soberania, o risco da autossuficiência e o peso das carretas velhas que ainda emperram o futuro da cidade. Leia estes e outros assuntos na coluna de Rogério Bonato.
Para começar a sexta-feira
Hoje é 29 de agosto, a 241ª jornada de 2025 — restam 125 dias até o réveillon. O calendário religioso marca a memória do Martírio de São João Batista, profeta que não temeu enfrentar Herodes e cuja voz ecoa até hoje como símbolo de coragem e fé. A história também registra momentos decisivos nesta data: em 1533, Francisco Pizarro executava o imperador inca Atahualpa, selando um dos capítulos mais cruéis da conquista espanhola no Peru; em 1842, Reino Unido e China assinavam o Tratado de Nanquim, que encerrava a Primeira Guerra do Ópio e cedia Hong Kong aos britânicos; e, em 1949, a União Soviética testava sua primeira bomba atômica, alterando para sempre o equilíbrio da Guerra Fria.
E tem mais…
Os leitores aprovaram o “almanaque” e pedem que ele seja ainda mais completo. A tarefa, de alguma forma, mexe com a estrutura da coluna e, não raro, divide opiniões — há quem defenda que todo o espaço seja dedicado apenas à política. Pois bem: vamos lembrar mais alguns fatos marcantes de 29 de agosto. Em 1958, nascia Michael Jackson, o “rei do pop”, que revolucionou a música, a dança e a cultura global — estaria completando 67 anos hoje. Em 1984, Guion Bluford e Kathryn Sullivan tornavam-se o primeiro afro-americano e a primeira mulher a viajarem juntos ao espaço em missão da NASA. E, em 2005, o furacão Katrina devastava Nova Orleans, revelando a vulnerabilidade social dos Estados Unidos diante de desastres naturais. Na seara cultural, a data é lembrada pela Academia Brasileira de Música, que reforça o legado de Villa-Lobos e sua ideia da música como alma de uma nação. Já no Japão, comemora-se o Dia da Música Tradicional, em homenagem ao shamisen, instrumento que atravessa séculos embalando festas populares. Curiosamente, estatísticas apontam que 29 de agosto é um dos dias mais “quietos” do calendário, com menos registros de nascimentos ilustres que a média, mas quase sempre associado a grandes rupturas históricas ou tragédias marcantes. Bom, só o fato de Michael Jackson ter nascido neste dia já vale por muita gente. No zodíaco, quem sopra velinhas hoje é virginiano: detalhista, organizado, crítico — traços que podem ser virtude ou tormento, dependendo de como se usa a régua da vida. Um bom dia a todos!
Soberania ou soberanismos?
Avançamos em tecnologia para expandir o pensamento, mas parte da humanidade insiste em regressar às cavernas da ignorância. É nesse cenário que ressurgem os gritos de soberania, como a faixa “Meu Brasil Brasileiro”, estendida em Curitiba. O gesto é legítimo: ninguém deseja ser tutelado por interesses externos. Porém, é necessário distinguir soberania de soberanismos. A primeira emancipa, fortalece instituições e abre espaço para cooperação. A segunda se fecha, transforma diferenças em trincheiras e isola povos em nome de uma falsa independência. A história mostra que muros podem proteger por um tempo, mas cedo ou tarde se tornam ruínas. A verdadeira soberania não se conquista com slogans ou bravatas, mas com a maturidade de quem entende que liberdade não significa solidão — e que nações fortes são aquelas capazes de proteger o seu povo sem se afastar do mundo.
O paradoxo da conexão
Vivemos o paradoxo mais cruel do século XXI: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão fragmentados. As telas nos aproximam em segundos, enquanto nos afastam em ideias. O planeta enfrenta fome, desigualdade, crises ambientais e desastres naturais, mas em vez de construir pontes, criamos muralhas invisíveis — sejam elas digitais, ideológicas ou econômicas. O tarifaço dos Estados Unidos, que atinge quase 40% das exportações paranaenses, comprova como a interdependência é inevitável. Nem mesmo a maior potência do planeta é capaz de viver isolada, quanto mais países emergentes como o Brasil. A sabedoria está em equilibrar defesa de interesses nacionais com diálogo e cooperação internacional. O contrário é um mergulho perigoso na ilusão da autossuficiência, um salto para trás em um mundo que exige visão de futuro.
A ilusão da autossuficiência
O clamor pela soberania não pode ser confundido com a ideia de que podemos viver sozinhos. A reunião realizada na UFPR e o manifesto “Meu Brasil Brasileiro” são exemplos de como setores da sociedade defendem, de forma legítima, a independência política e econômica do país. Mas soberania não significa isolamento. Ao contrário: exige participação ativa nas redes de comércio, na diplomacia, na ciência e na cultura global. Quem insiste na autossuficiência absoluta ignora a complexidade de um planeta interligado. O futuro não será de muros, mas de redes. De nada adianta gritar contra o estrangeiro se não somos capazes de fortalecer as nossas instituições, investir em inovação e reduzir desigualdades internas. Soberania real é construir autonomia com inteligência, em diálogo constante com o mundo, sem abrir mão de princípios democráticos.
Luz contra as cavernas
A pior das catástrofes não é econômica nem natural: é a ignorância. Ela distorce a realidade, sabota o futuro e alimenta extremismos. Platão já advertia: na caverna, homens acorrentados confundem sombras com verdade. Hoje, as sombras se apresentam em forma de fake news, negacionismos e nacionalismos tóxicos que se espalham pelas redes como se fossem ciência. O verdadeiro exercício da soberania não pode nascer da escuridão. Ele brota da educação, da ciência, da cultura e do jornalismo responsável. Não somos donos do mundo — apenas partícipes de um pequeno grão de areia chamado Terra. E, se quisermos garantir futuro, precisaremos abandonar muralhas e retomar a construção de pontes. A verdadeira soberania não é contra vizinhos, mas com eles. O resto é isolamento, escuridão e, em última instância, retrocesso.
Vamos comentar a nossa cidade
Ontem, mais uma carreta se atravessou em via urbana de Foz do Iguaçu. Por sorte, ou por eficiência mecânica, o problema teve rápida solução. Menos mal. Mas o episódio revela o dilema que enfrentamos diariamente: o trânsito de carretas pesadas em ruas já saturadas. A Perimetral Leste, com 70% das obras concluídas, é a grande promessa de desafogar a cidade, conectando a região Sul à BR-277. Mas, até a entrega, seguimos convivendo com riscos e incertezas. A obra será solução definitiva? Ou apenas transferirá o problema para um novo trecho, caso a fiscalização do transporte de cargas não seja tratada com seriedade? O futuro de Foz não pode depender apenas do asfalto e concreto das rodovias, mas também da inteligência da gestão.
Frota caindo aos pedaços
É impossível ignorar a realidade: boa parte da frota que circula entre Brasil, Paraguai e Argentina é antiga, desgastada, com suspensões vencidas e manutenção precária. Some-se a isso a crônica ausência de fiscalização. As balanças de pesagem, quando funcionam, são facilmente dribladas, permitindo cargas muito acima do limite. O resultado é duplo: caminhões mais vulneráveis a falhas mecânicas e estradas que rapidamente se transformam em colchas de retalhos. Se o leito da Perimetral não for reforçado, logo a nova via estará esburacada como as ruas centrais da cidade. O transporte público tem regras que limitam a idade da frota em até cinco anos em muitas concessões. Por que não há normas semelhantes para o transporte de carga?
Não há idade para caminhão no Brasil
Não existe lei que defina a idade máxima de circulação para caminhões no país. A exigência fica a cargo das empresas, quando muito, ou de licitações específicas. Resultado: sucatas faraônicas seguem em atividade, espalhando risco e insegurança. A idade média da frota nacional é de 15 anos, segundo a Confederação Nacional do Transporte, mas há veículos com mais de 30 e até 50 rodando livremente. Caminhões mais antigos, além de quebrar com facilidade, derramam óleo e fluídos nas pistas, tornando-as mais escorregadias e perigosas. Eu mesmo já fui vítima: certa vez uma roda se soltou de uma carreta à frente, atingindo meu carro, rasgando pneus e danificando a suspensão. Resultado: mais de 24 horas parado em rodovia, sem qualquer amparo de pedágio ou seguradora. Isso não é exceção, é rotina.
E a poluição?
O debate não pode se restringir a trânsito e infraestrutura. Caminhões velhos, movidos a diesel sem filtros modernos, transformam avenidas em corredores de fumaça. Em uma cidade que briga para ser sustentável e se orgulha de suas belezas naturais, assistir o ar ser envenenado diariamente é uma contradição insuportável. Além de óleo e combustível, há derramamento de grãos, cargas mal acondicionadas e até produtos químicos. A imagem de uma cidade moderna não combina com fumaça preta, cheiro de diesel e pneus explodindo em plena via pública. Se quisermos uma Foz do Iguaçu que se apresente ao mundo como polo turístico e tecnológico, precisamos começar pelo básico: respirar sem engasgar.
O choque com o futuro
Enquanto o mundo discute veículos elétricos, caminhões autônomos e rotas inteligentes, nós ainda tropeçamos em carcaças motorizadas do século passado. Não se trata de preconceito contra veículos antigos, mas de coerência com um tempo em que a mobilidade global exige eficiência, segurança e sustentabilidade. Em corredores internacionais como o da Tríplice Fronteira, onde circulam turistas, cargas e serviços simultaneamente, não há mais espaço para improviso. O transporte de cargas precisa ser regulado de forma séria, com exigências de idade, manutenção e limites claros. Se queremos acompanhar o futuro, é preciso abandonar as carroças de ferro que insistem em travar nosso presente.
Legislação e responsabilidade
Não basta culpar motoristas ou caminhoneiros, que muitas vezes são vítimas de empresas que exploram veículos até a exaustão. É preciso criar regras claras. Hoje, há restrições de tráfego em alguns trechos e horários, mas nada que ataque o problema central: a idade e as condições da frota. A própria Confederação Nacional do Transporte aponta que veículos velhos apresentam risco muito maior de acidentes. Mesmo assim, o Estado se omite. Normatizar o transporte fronteiriço não é burocratizar — é salvar vidas, preservar estradas, ruas, avenidas, reduzir custos de manutenção e poluição. É hora de nossos vereadores e deputados encararem o tema de frente: Foz não pode ser depósito de sucatas ambulantes.
Para encerrar…
Ah, o tema certamente será recebido com pedras e paus — sempre há quem não tolere nem uma faísca de crítica. Mas será exagero dizer que, enquanto o mundo acelera rumo a veículos elétricos e autônomos, seguimos parados atrás de caminhões que já deveriam estar no museu? Aliás, se juntássemos o que circula pelas ruas de Foz, daria para montar um belo “Museu do Caminhão”. Ironias à parte, é hora de discutir o transporte fronteiriço com seriedade: a vida nas ruas não pode ser tratada como sucata. Uma boa sexta-feira a todos os queridos leitores — e agora também ouvintes — que seguem conosco nessa travessia diária.
Rogério Ronato escreve regularmente para o Almanaque Futuro e anuncia que retomará os podcasts tão logo receba aquipamentos novos de gravação cuja previsão de entrega é neste final de semana.