Risco silencioso: alto índice de suicídio em autistas e bipolares acende alerta para famílias e profissionais

Especialista em Saúde Mental e Neurociência de Foz do Iguaçu detalha como a sobrecarga mental, o diagnóstico tardio e a falta de suporte elevam a vulnerabilidade em adultos com condições neurodivergentes e psiquiátricas.

O autismo e o transtorno bipolar na vida adulta escondem um alerta grave e ainda pouco debatido: o alto risco de suicídio entre pessoas neurodivergentes e com condições psiquiátricas graves. Pesquisas populacionais de larga escala publicadas em jornais de referência como The Lancet Psychiatry e JAMA Network Open mostram que adultos autistas têm de três a sete vezes mais chances de morrer por suicídio em comparação à população neurotípica. O cenário se soma aos dados alarmantes do Transtorno Afetivo Bipolar, apontado pela literatura médica internacional como uma das condições com maior índice de mortalidade por suicídio no mundo.

A especialista em Saúde Mental e Neurociência Ana Carolina de Paiva Costa Barros, que atua no atendimento e no acompanhamento de casos de bipolaridade e pessoas com TEA em Foz do Iguaçu, explica que a pressão para se adaptar às exigências do cotidiano e a falta de suporte clínico adequado são fatores determinantes para a exaustão psíquica nessa população.

“Na vida adulta, a cobrança por independência, produtividade e convivência social cobra um preço altíssimo. No caso do autismo, muita gente passa anos tentando ‘disfarçar’ os sintomas para se encaixar, gerando uma exaustão profunda. Já na bipolaridade e em crises psiquiátricas graves, a oscilação extrema e a falta de intervenção precoce deixam a pessoa em um estado de sofrimento insustentável. Em ambos os casos, a dor muitas vezes só é percebida quando a pessoa já chegou ao limite”, afirma Ana Carolina.

Estudos epidemiológicos conduzidos por centros globais de pesquisa, como o Karolinska Institutet, na Suécia, e a University of Cambridge, no Reino Unido, trazem outro dado alarmante sobre o autismo: ao contrário do que ocorre na população geral, onde os homens lideram as estatísticas de suicídio, no espectro autista as mulheres sem deficiência intelectual apresentam o maior nível de risco. Dados publicados no periódico Psychological Medicine indicam que mulheres autistas chegam a ter o dobro de chances de tentar o suicídio em comparação aos homens no próprio espectro, resultado direto do esgotamento gerado pelo mascaramento social dos sintomas (camouflaging ou masking).

Para identificar quando algo não vai bem, parentes e amigos precisam prestar atenção às mudanças na rotina do indivíduo. Como a expressão de sentimentos no autismo e nos episódios de humor da bipolaridade pode diferir do padrão convencional, o sofrimento nem sempre aparece como uma tristeza óbvia. Os sinais costumam surgir na perda repentina de interesse por atividades habituais, no isolamento além do normal, em alterações severas do sono, no aumento de crises de ansiedade ou de instabilidade emocional, em falas recorrentes sobre ‘ser um fardo para a família’ ou no hábito atípico de doação de objetos pessoais.

“A prevenção e o manejo de crises psiquiátricas começam na observação dos pequenos detalhes e na escuta qualificada. O indivíduo em sofrimento nem sempre vai verbalizar a dor da forma que a gente espera. Garantir um ambiente seguro, previsível e com acompanhamento especializado em saúde mental é o passo mais importante para proteger quem amamos”, conclui a profissional.

 

 

Assessoria