Museu da Imprensa: o abraço de Foz ao seu próprio passado

Projeto resgata mais de seis décadas de história através das páginas dos jornais locais e transforma o jornalismo do passado em ferramenta de cidadania e novas pautas para o presente.

Redação Almanaque Futuro

Uma iniciativa abraçou a história e ganhou um grande abraço da população. O Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu nasceu com a missão de resgatar e preservar a memória da cidade, mas logo se transformou em algo muito maior: um espelho da própria identidade iguaçuense. Ao digitalizar e organizar décadas de jornais e periódicos locais, o projeto não está apenas guardando papéis amarelados; está devolvendo à comunidade o direito de saber como a cidade se tornou o que é hoje, utilizando a notícia como o fio condutor dessa jornada. Mais do que um depósito de recordações, o museu consolida-se como um pilar de cidadania, mostrando que a preservação do passado é fundamental para a construção do futuro.

Para os moradores, caminhar pelas páginas do acervo é um exercício profundo de nostalgia e pertencimento, uma oportunidade única de “matar as saudades” de uma Foz do Iguaçu que virava a página dos anos 1950 e se agigantava nas décadas seguintes. Para professores, estudantes e historiadores, o local funciona como um laboratório de pesquisa científica e social. Já para os profissionais de imprensa de hoje, as edições antigas são um manancial inesgotável para novas pautas e contextualizações, permitindo compreender o “andar da cidade” a partir do registro diário e factual dos jornais.

Mergulhar nesse acervo é descobrir que as grandes e pequenas transformações da região correm nas veias dessas publicações. A jornada histórica começa ainda nos primórdios da ocupação local, com registros fundamentais como a publicação em partes da obra A Descoberta de Foz do Iguaçu e Formação da Colônia Militar, de José Maria de Brito.

Na década de 1950, uma curiosa campanha pública para fazer Foz atingir meros 5 mil eleitores — o município contava com menos de 2.000 votantes, ficando atrás de vizinhas como Toledo e Cascavel. Foi também nesse período de pioneirismo que o cotidiano dos moradores mudou de ritmo com a chegada das ondas do rádio, no momento em que entrou no ar a icônica ZYS-54, a Rádio Cultura de Foz do Iguaçu.

À medida que as décadas avançavam, a imprensa registrava a pressa do progresso. As páginas do jornal O Trabalhador, por exemplo, mostram a urgência do presidente Juscelino Kubitschek, que “apertou o passo” para inaugurar a Ponte Internacional da Amizade ainda em 1960. Pouco depois, o turismo e a hospitalidade começavam a desenhar o DNA econômico da cidade.

O acervo guarda relíquias como as imagens do pioneiro Hotel Brasil em obras, artigos assinados por Otília Schimmelpfeng em O Jornal de Foz sobre os pioneiros do setor, e o marco legal de 1971, ano em que um decreto regulamentou oficialmente a taxa de turismo na cidade. Foz do Iguaçu rapidamente se tornava um ponto de interesse global, atraindo até mesmo visitas diplomáticas ilustres, como a comitiva do Presidente do Líbano que veio conhecer as belezas da região.

O verdadeiro gigantismo, porém, ganharia as manchetes com a epopeia de Itaipu Binacional, ricamente documentada pelo informativo Unicon. O museu preserva desde o anúncio histórico do desvio do leito do Rio Paraná para a construção da barragem até as soluções de engenharia impressionantes que viabilizaram a obra, como as monovias — os chamados “trilhos do contrato”. Paralelamente ao crescimento da usina, a cidade se transformava: a evolução urbana do coração comercial iguaçuense recebia um resgate detalhado através do olhar de Elaine Mota sobre a Avenida Brasil, enquanto os bastidores da política local fervilhavam com as discussões sobre a conquista de um prédio próprio para a Câmara Municipal e a posse do prefeito Wádis, acompanhada de perto pelas pautas pendentes do município. A integração com os países vizinhos também ganhava força nas páginas impressas, a exemplo do jornal produzido por Chico de Alencar dedicado exclusivamente aos bastidores e à importância da construção da Ponte Tancredo Neves.

Mas a história de Foz não é feita apenas de concreto e política; ela é feita de pessoas, paixões e lutas sociais. O esporte local pulsa vivo nas páginas do museu, que resgata uma rara entrevista de Irineu Basso detalhando os desafios do futebol na cidade, além das crônicas de Amilton Nunes, o “Mito”, sobre a era de ouro do esporte amador.

A memória afetiva ganha voz humana em entrevistas profundas, como a de dona Marieta, viúva do pioneiro Schinke, concedida ao histórico jornal Nosso Tempo. Por fim, o acervo reforça o papel da imprensa como defensora da comunidade: o Jornal dos Bairros, capitaneado por Juvêncio, serve até hoje de inspiração ao demonstrar como os jornais locais sempre foram ferramentas essenciais para enfocar os problemas sociais e dar voz à periferia.

O acervo do Museu da Imprensa não é um arquivo estático; é um organismo vivo que espera por novos olhares. Seja para ilustrar uma tese acadêmica, encontrar o gancho para a reportagem do próximo domingo, ou simplesmente descobrir como era a cidade no século passado, a história de Foz do Iguaçu está totalmente acessível. O convite está aberto a todos os cidadãos, pesquisadores e curiosos para explorar essas memórias e fazer parte desse grande abraço ao nosso passado através do site oficial da instituição.

Confira aqui o Suplemento Especial completo, publicado em PDF