Presidente do Paraguai, Santiago Peña, anuncia renúncia em meio à crise do Ueno Bank
Decisão foi comunicada em vídeo nesta quinta-feira (5), após protestos, perda de apoio político e avanço de pressão no Congresso. Crise financeira mobiliza a Tríplice Fronteira e coloca em evidência a sucessão presidencial.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo, em meio à grave crise política e financeira desencadeada pelo colapso do Ueno Bank. A decisão foi comunicada em um vídeo divulgado nas redes sociais, após dias de protestos, cobranças de clientes da instituição financeira e perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado.
A crise tem repercussão direta na Tríplice Fronteira, especialmente pela proximidade de Foz do Iguaçu com Ciudad del Este e Puerto Iguazú. A mudança no comando do governo paraguaio ocorre em um momento de instabilidade institucional e preocupação com a situação dos poupadores e a confiança no sistema financeiro do país.
Em sua declaração, Peña afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade nacional, na paz social e na preservação das instituições democráticas. O presidente também disse que nenhum cargo deve estar acima do bem-estar do Paraguai.
Colapso do Ueno Bank desencadeou a crise
A crise começou após o Banco Central do Paraguai determinar, em 2 de novembro, o início do procedimento de resolução do Ueno Bank. A autoridade monetária identificou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.
O banco, que possuía aproximadamente 2,9 milhões de clientes, teve seus serviços suspensos, deixando milhares de pessoas com dificuldades para acessar contas e recursos financeiros. A instituição também concentrava depósitos públicos e recursos relacionados a fundos previdenciários.
O caso provocou protestos em Assunção, manifestações de clientes e aposentados, além de uma investigação sobre possíveis irregularidades na gestão da instituição. Oito executivos foram detidos e autoridades paraguaias também avançaram com medidas judiciais contra pessoas ligadas ao banco.
O Banco Central informou que a intervenção busca proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro. A instituição ressaltou que o episódio é específico e não representa, por si só, uma crise generalizada de todo o sistema bancário paraguaio.
Perda de apoio político aumentou pressão sobre Peña

A situação se agravou quando o Partido Colorado, legenda governista, passou a apoiar o processo de julgamento político contra o presidente. O ex-presidente Horacio Cartes, liderança influente da sigla, anunciou apoio à iniciativa.
O presidente do Senado, Basilio Núñez, também havia cobrado publicamente a renúncia de Peña. Na Câmara dos Deputados, parlamentares da oposição apresentaram um pedido de impeachment com 35 assinaturas, apontando suspeitas de conflito de interesses e responsabilidades relacionadas à crise bancária.
As acusações também envolvem antigos vínculos comerciais de Peña com o grupo proprietário do Ueno Bank. O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição, até março de 2025. As responsabilidades individuais e eventuais irregularidades deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.
Pedro Alliana é o nome da sucessão
O vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto constitucionalmente para assumir a Presidência em caso de renúncia definitiva de Peña. A Constituição paraguaia estabelece a sucessão pelo vice-presidente para garantir a continuidade do Poder Executivo.
O mandato atual foi iniciado em agosto de 2023 e tem previsão de encerramento em agosto de 2028. Caso Alliana assuma, será necessário definir como ficará a vaga na Vice-Presidência, conforme o procedimento previsto na Constituição.
A formalização dos atos institucionais e os desdobramentos políticos devem ser acompanhados nos próximos dias.
Impactos na Tríplice Fronteira
A renúncia de Peña coloca o Paraguai diante de uma mudança política de grande repercussão regional. Foz do Iguaçu mantém relações econômicas, comerciais e turísticas intensas com o país vizinho, especialmente com Ciudad del Este, por meio da Ponte Internacional da Amizade.
Neste primeiro momento, não há indicação de que a mudança política provoque automaticamente alterações no funcionamento da fronteira ou nas atividades comerciais. No entanto, a evolução da crise bancária, a transição no governo e as medidas adotadas para proteger os depositantes serão acompanhadas de perto por moradores, comerciantes e empresários da região.
A prioridade imediata das autoridades paraguaias é administrar os efeitos do caso Ueno Bank, proteger os recursos dos clientes e preservar a estabilidade institucional e financeira do país.
Crédito Imagem REUTERS
Da Redação Almanaque Futuro