Presidente do Paraguai, Santiago Peña, anuncia renúncia em meio à crise do Ueno Bank

Decisão foi comunicada em vídeo nesta quinta-feira (5), após protestos, perda de apoio político e avanço de pressão no Congresso. Crise financeira mobiliza a Tríplice Fronteira e coloca em evidência a sucessão presidencial.

Clientes do banco Ueno fazem protesto em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo, em meio à grave crise política e financeira desencadeada pelo colapso do Ueno Bank. A decisão foi comunicada em um vídeo divulgado nas redes sociais, após dias de protestos, cobranças de clientes da instituição financeira e perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado.

A crise tem repercussão direta na Tríplice Fronteira, especialmente pela proximidade de Foz do Iguaçu com Ciudad del Este e Puerto Iguazú. A mudança no comando do governo paraguaio ocorre em um momento de instabilidade institucional e preocupação com a situação dos poupadores e a confiança no sistema financeiro do país.

Em sua declaração, Peña afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade nacional, na paz social e na preservação das instituições democráticas. O presidente também disse que nenhum cargo deve estar acima do bem-estar do Paraguai.

Colapso do Ueno Bank desencadeou a crise

A crise começou após o Banco Central do Paraguai determinar, em 2 de novembro, o início do procedimento de resolução do Ueno Bank. A autoridade monetária identificou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.

O banco, que possuía aproximadamente 2,9 milhões de clientes, teve seus serviços suspensos, deixando milhares de pessoas com dificuldades para acessar contas e recursos financeiros. A instituição também concentrava depósitos públicos e recursos relacionados a fundos previdenciários.

O caso provocou protestos em Assunção, manifestações de clientes e aposentados, além de uma investigação sobre possíveis irregularidades na gestão da instituição. Oito executivos foram detidos e autoridades paraguaias também avançaram com medidas judiciais contra pessoas ligadas ao banco.

O Banco Central informou que a intervenção busca proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro. A instituição ressaltou que o episódio é específico e não representa, por si só, uma crise generalizada de todo o sistema bancário paraguaio.

Perda de apoio político aumentou pressão sobre Peña

Deputado da oposição no Paraguai segura cartaz em ato que pede impeachment do presidente Santiago Peña após fechamento de banco virtual que gerou crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Cesar Olmedo/ Reuters

A situação se agravou quando o Partido Colorado, legenda governista, passou a apoiar o processo de julgamento político contra o presidente. O ex-presidente Horacio Cartes, liderança influente da sigla, anunciou apoio à iniciativa.

O presidente do Senado, Basilio Núñez, também havia cobrado publicamente a renúncia de Peña. Na Câmara dos Deputados, parlamentares da oposição apresentaram um pedido de impeachment com 35 assinaturas, apontando suspeitas de conflito de interesses e responsabilidades relacionadas à crise bancária.

As acusações também envolvem antigos vínculos comerciais de Peña com o grupo proprietário do Ueno Bank. O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição, até março de 2025. As responsabilidades individuais e eventuais irregularidades deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.

Pedro Alliana é o nome da sucessão

O vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto constitucionalmente para assumir a Presidência em caso de renúncia definitiva de Peña. A Constituição paraguaia estabelece a sucessão pelo vice-presidente para garantir a continuidade do Poder Executivo.

O mandato atual foi iniciado em agosto de 2023 e tem previsão de encerramento em agosto de 2028. Caso Alliana assuma, será necessário definir como ficará a vaga na Vice-Presidência, conforme o procedimento previsto na Constituição.

A formalização dos atos institucionais e os desdobramentos políticos devem ser acompanhados nos próximos dias.

Impactos na Tríplice Fronteira

A renúncia de Peña coloca o Paraguai diante de uma mudança política de grande repercussão regional. Foz do Iguaçu mantém relações econômicas, comerciais e turísticas intensas com o país vizinho, especialmente com Ciudad del Este, por meio da Ponte Internacional da Amizade.

Neste primeiro momento, não há indicação de que a mudança política provoque automaticamente alterações no funcionamento da fronteira ou nas atividades comerciais. No entanto, a evolução da crise bancária, a transição no governo e as medidas adotadas para proteger os depositantes serão acompanhadas de perto por moradores, comerciantes e empresários da região.

A prioridade imediata das autoridades paraguaias é administrar os efeitos do caso Ueno Bank, proteger os recursos dos clientes e preservar a estabilidade institucional e financeira do país.

 

Mensagem do Presidente da República, Santiago Peña, ao povo paraguaio.

 

 

 

 

Crédito Imagem REUTERS
Da Redação Almanaque Futuro