“Viagem” de Flávio divide opiniões e irrita e desconforta aliados

Se a eleição foi – segundo autoridades – limpa, como disseram os ministros do TSE, apesar da prorrogação; se Lula foi reconhecido até pelos caciques do PL; se Flávio disse que não sairia do país e entregaria os passaportes devido a uma investigação em curso porque “nada temia”, qual a razão de ir aos EUA?

Fugiu ou viajou?

Tecnicamente ele viajou, porque não havia um impedimento ou proibição formal. Isso foi atestado na aduana argentina. O que houve, segundo entendidos, foi um pedido de entrega dos passaportes. Além do mais, ele possui o documento italiano. Agora, se “fugiu” das pendengas, são outros quinhentos, porque ao que parece a encrenca não é política e sim caso de polícia. A decisão foi do senador induzido pelo irmão Eduardo, que vive nos Estados Unidos. Quem afinal assessora o ex-candidato derrotado? Ele parece ter saído é da casinha. Publicar carta se intitulando presidente eleito? Isso foi a piada do imbróglio.

 

Mito ou verdade

Eita que Foz do Iguaçu está no olho desse furacão. É político que entra, que sai… que situação?! Desobedecer à Justiça e empreender fuga espetacular, como diz o jargão policial, não cai bem para um postulante ao cargo de Presidente da República cuja votação esbarrou nos 60 milhões de votos. É o que a maioria de quem mantém os pés na imparcialidade argumenta. E qual a razão de pedir asilo político depois de uma derrota nas urnas? Deveria ficar no Brasil e encarar a situação de frente; defender-se como faria um estadista. Mas, a exemplo do irmão e do pai, escolheu insuflar e criar suspeitas, e isso descredibiliza o país e sua população. Envolveu-se em uma situação muito desconfortável, uma vez que a sua base aliada reconheceu a eleição e se disse surpresa com a viagem. Tarciso de Freitas, por exemplo, deu uma aula. Os Bolsonaros precisam aprender a perder sem causar tanto esperneio. A família, afinal, ocupa e ocupará cadeiras importantes na política. Flávio tratou o Brasil como estivesse na Venezuela. Ele que trate de retornar e minimizar o estrago. Somando os dois turnos, a diferença entre Lula e Flávio está na casa dos dez milhões de votos. Há também essa pedra matemática no meio do caminho do candidato derrotado.

 

Trump e o bocão

O presidente dos EUA começou apoiando Flávio e ao passar do dia foi subindo muro, balançou em relação às questões diplomáticas com o Brasil. Mas, certamente induzido, disse que a eleição é suspeita. Mais tarde disse que não iria se intrometer. Levou foi bola nas costas e a essa altura deve reconhecer. Aqui entre nós, se ministros do TSE, alguns indicados pelo clã Bolsonaro concordaram com o pleito, explicaram a prorrogação da votação e o adiamento da abertura das urnas; apresentaram as súmulas; os fiscais do PL acompanharam o escrutínio e os dirigentes do partido reconheceram a vitória do oponente, Trump deveria pedir informações antes de falar, para não pagar o mico. O que lhe interessa é prolongar a queda de braço com o Brasil em decorrência de suas decisões e atos, ao ver a ampliação da amizade do país com China, Rússia, Índia, Canadá, França e outras nações que sofrem a pressão comercial dos EUA. Essa é a verdade.

 

Trump e o mês de novembro

O fato é que os Estados Unidos vão às urnas no próximo dia 3 de novembro para as midterms, as eleições de meio de mandato que funcionam como o termômetro da política norte-americana. O nome de Donald Trump não estará impresso nas cédulas, mas o pleito é um verdadeiro referendo sobre os seus dois primeiros anos de gestão. É exatamente nessa votação que o mundo saberá a quantas anda a real possibilidade de o republicano segurar as rédeas do poder ou ver o restante do seu mandato virar um pesadelo de travamentos e comissões de investigação no Congresso. É ele lá e Lula aqui, compartilhando os mesmos perigos. Veremos qual é o mais hábil.

 

Mãozinha amiga

O resultado das midterms promete chacoalhar o tabuleiro global, e o Brasil está na primeira fila. O clã Bolsonaro, aliás, anda metido até nisso. Eduardo Bolsonaro, instalado em solo americano com status de morador — e que já trocou a bandeirinha verde-amarela na lapela do paletó pelo botton dos EUA —, funciona como uma espécie de embaixador informal da empreitada trumpista para a América Latina (dividindo o posto com Javier Milei), torcendo abertamente para que o “padrinho” saia fortalecido. Flávio deve se juntar à empreitada. Países mundo afora acompanham cada voto para entender como a nova cara do Congresso americano vai redefinir os acordos comerciais e a geopolítica nos próximos anos.

 

As trevas da perseguição

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva mexeu com os radicais de direita em Foz do Iguaçu. Segundo a manifestação de várias pessoas nas redes sociais, andam espalhando listas pedindo boicote a pessoas, estabelecimentos, negócios, serviços e, pasmem, recomendando a demissão de funcionários que seriam da “esquerda” ou simpáticos ao PT e a partidos que ajudaram Lula a vencer a eleição. Que barbaridade, hein? Ai se isso cai na mão de alguma autoridade policial…

 

Lembranças medonhas

A história nos ensina a recordar os tempos em que os nazistas pediam para o povo alemão não comprar no comércio de judeus. Em alguns aspectos, o período pós-eleição nos faz crer que Nuremberg é aqui! Esse comportamento não vai prestar: é muito radical, está de novo dividindo famílias e afastando amigos. É a paixão cega, às vezes imbecil, ignorante e desprovida de conhecimento. Esses dias disseram ao Corvo que um padre precisou intervir em uma discussão na porta de uma igreja. O Brasil não vai resolver os seus problemas por meio da irracionalidade, e muito menos com base no preconceito. Isso pode nos enveredar por caminhos muito ingratos.

 

Rogério Bonato assina a coluna No Bico do Corvo