Por Paulino Motter
“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
No fundo do armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar”
Chico Buarque, em Futuros Amantes (Paratodos, 1993)
Contar o tempo é parte da nossa experiência existencial. Mas a verdadeira realização não se mede em anos. A bem da verdade, deveríamos abandonar mais cedo certas convenções e metas inalcançáveis — porque a plenitude nunca esteve, nem nunca estará, ao nosso alcance. Essa clareza, que só chega com a maturidade, traz um tremendo alívio — como tirar um peso das costas que se carregou inutilmente pela vida.
Neste sábado, 16 de maio, Jorge Samek celebrou 71 anos.
Conheço sua trajetória há mais de metade do trecho. É tempo suficiente para testemunhar o que a vida faz com um homem — e o que um homem faz com a vida. E o que posso dizer, com a convicção de quem acompanhou esse percurso de perto, é que Samek sempre soube, intuitivamente, onde estava o essencial.
A vida pública foi longa e exemplar. Chefe de gabinete da Secretaria Estadual da Agricultura, secretário municipal de Agricultura e Abastecimento de Curitiba no governo Requião (1985–1988), vereador de Curitiba por quatro mandatos, deputado federal e diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional (2003–2017).
Esta trajetória de mais de três décadas foi marcada pelo compromisso com o interesse público, pela visão estratégica e por um calor humano que não se aprende em cargo nenhum. Quem conviveu sabe: não é fácil sair de posições assim sem deixar saudade genuína. Samek deixou.
Mas a carreira política bem sucedida não poupou Samek de enfrentar duros golpes e perdas irreparáveis.
Em 2019, partiu Maria Olívia — a companheira de toda a vida. Uma perda que o deixou sem chão, depois de quatro décadas de vida em comum. Três anos depois, em 2022, celebraria a chegada de mais uma neta — filha de Bruna e Carlão — que recebeu o nome da avó. Há nesses gestos uma teologia doméstica que dispensa comentários: a vida insiste, recomeça, e às vezes tem o rosto de quem partiu.
A alegria trazida pelo nascimento da pequena Maria Olívia foi precedida, em 2021, por duas duras provações. Marisa — um amor da juventude que o destino se encarregou de recolocar em seu caminho — enfrentou um acidente numa épica travessia de bicicleta pela costa cearense, entre Fortaleza e Jericoacoara. Logo em seguida, foi Samek quem enfrentou uma variante severa da COVID-19. Agarrou-se à vida com a resiliência de quem ainda tinha — e tem — uma missão a cumprir.
Quando teve alta hospitalar, foi completar a convalescência na fazenda da família em São Miguel do Iguaçu, com a presença e o aconchego da mãe. Nada mais revigorante. E daquelas duas batalhas simultâneas, o amor desabrochou em plena floração. Caminhos que se haviam separado voltaram a se cruzar — e desta vez para ficar.
Em janeiro deste ano, partiu Cristina Lacki Samek, a mãe. A última grande perda. Aquela que fecha um ciclo que só as mães podem fechar.
De perdas e reencontros também se tece a vida.
Mas quem conhece Samek sabe que ele tem um bordão — não um slogan vazio, mas uma atitude diante da vida. A palavra é gratidão. Ele a pratica com a convicção de quem aprendeu, cedo demais e às vezes da pior forma, que nada é garantido. É quase um hino pessoal — como o “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, que conquistou as Américas na voz inconfundível de Mercedes Sosa. Uma canção que não nega a dor, mas a atravessa de olhos abertos, celebrando cada sentido, cada encontro, cada caminho percorrido. Samek entenderia.
Ambos filhos de agricultores, aprendemos com nossos pais que quem planta colhe. É verdade. Mas falta um verso nessa sabedoria de origem: é preciso regar as sementes com gratidão pela chuva que as faz germinar. Porque a chuva não se agenda. Ela vem — ou não vem — e nenhum planejamento muda isso.
Ao redor de Samek hoje há uma família linda, com uma prevalência notável de mulheres — filhas, netas. E há sua doce Marisa. Juntos, desfrutam os momentos felizes com a gratidão pela nova chance que a vida lhes proporcionou.
Contentar-se com o bastante e desfrutar cada momento com quem se ama: aí reside o segredo daquilo que se chama felicidade. Samek sabe disso — e celebra hoje 71 anos com o otimismo e o entusiasmo que sempre foram a sua marca.
Parabéns, Samek. Por tudo que construiu, por tudo que enfrentou, e pelo modo como você continua — de pé, grato, e em boa companhia.
Paulino Motter, jornalista e servidor público federal.
