O tempo sem o vento
Coluna No Bico do Corvo, por Rogério Romano Bonato
— Bonato, não dá saudade de escrever? — perguntou um amigo. E não dá? Às vezes me pego pensando naquilo que vai preencher uma coluna, mas o tempo esculhamba os meus planos. O tempo do relógio e o que conhecemos como “clima” — úmido, chato, que me faz lembrar os meses gelados em Londres no final dos anos 70.
Eu e a Eliane estamos na empreitada de erguer uma casa nova e dá-lhe reza, em todos os sentidos: um Terço para cada coisa. Rezamos para não faltar dinheiro, para não chover, para o pedreiro comparecer, para o tijolo chegar, para o cimento não molhar… Tudo o que acontece nessas aventuras de erguer um teto, na esperança de mais conforto e praticidade. Por essas e outras, o meu “tempo” acaba ocupado em tarefas arquitetônicas, distante das letras. Mas, “ói eu aqui travéis”!
Copa do Mundo
Nasci em 4 de junho de 1958, portanto nas vésperas de o Brasil trazer a Taça Jules Rimet pela primeira vez. Apenas para ilustrar, a conquista aconteceu no dia 29 de junho, data em que eu acabara de deixar a maternidade. Dona Gina conta que tapou meus ouvidos com algodão, tamanho era o foguetório. No fim das contas, sou um brasileiro que, além de presenciar todos os cinco títulos, viu Pelé, Tostão, Rivelino e Gerson jogarem — pelo rádio, pela TV e nos estádios. Mais tarde, estive nos gramados como repórter e, hoje, aqui, tentando decifrar os enigmas desse esporte cheio de sustos e surpresas.
Francamente, lá pelo final do primeiro tempo contra o Japão, acreditei que o povo faria as malas. Estou escrevendo logo após o confronto entre Noruega e Costa do Marfim, cujo resultado eletrificará as nossas esperanças de ver o escrete seguir em frente. Mas há um acalanto: é melhor jogar contra a Noruega. Costa do Marfim seria, literalmente, um osso duro de roer.
Paraguai, aí sim!
Francamente, torci muito mais pelos vizinhos do que pela seleção brasileira. Cada lance era uma esticada de perna na cama, chegando a contrair o músculo da panturrilha, com a Eliane bancando a massagista. A idade avança e as caibras vêm junto, inevitavelmente. Acabou o jogo e os rojões seguiram por horas; nunca vi coisa igual. Onde será que os paraguaios foram buscar tantos fogos de artifício?
Pensei no desespero de Paulo Mac Donald, que vive praticamente na margem do Rio Paraná e anda reclamando do barulho que chega nas madrugadas. As queixas do amigo e ex-prefeito, aliás, têm sido a notícia mais comentada dos últimos dias, ganhando até do terremoto na Venezuela.
Pedreira
As preocupações dos jogadores brasileiros são mel na chupeta se comparadas à lista dos possíveis confrontos dos paraguaios. Eis que haverá pela frente a França e o Marrocos, que está comendo a bola. Mais adiante, podem encontrar Portugal, Espanha ou Croácia. E do nosso lado? Se o Brasil seguir, terá Equador, México ou Inglaterra e, mais lá na frente, a Argentina — aí sim é de quebrar o coco. Alguém comentou no grupo de imprensa: “Vamos torcer para a Argentina também”. Difícil.
Mamão com açúcar
De todas as chaves, a da Argentina parece ser a mais tranquila. Austrália, Cabo Verde, Egito… É difícil imaginar um time comandado por Lionel Messi empacar diante dessas equipes sem tradição alguma em mundiais. Só se a zebra da Copa estiver muito bem disfarçada.
E a política?
O caldeirão está esquentando, mas sem muitas novidades. Decerto é o interesse pelo futebol que desvia a atenção dos figurões da política. Até os resultados das pesquisas são aparentemente sem graça. No Paraná, a barca segue o curso, mas, ao que parece, Ratinho não tem se dado bem com o escolhido e ficou tarde para trocar ou simplesmente declarar voto a um dos lados. O jogo de acomodação vai até o limite do prazo — ou melhor, até o final da Copa.
Em Foz
Quase todos os dias fico sabendo de um novo candidato a deputado estadual ou federal. Onde esse povo acha que tem voto para sustentar tanta candidatura? Certamente, isso faz parte do jogo da acomodação. A gaita estica o fole e depois aperta. De qualquer maneira, ainda é cedo para uma avaliação mais apurada. Pelo momento é isso! Um bom dia a todos.

