O saldo político recente nos põe a pensar no futuro

É difícil pedir paciência aos derrotados. Muitos estão longe do consolo, mas isso não quer dizer que o Brasil vá enfrentar uma guerra civil. O que os brasileiros mais querem é retomar a vida em paz e com prosperidade. Assim o Corvo inicia a era pós eleitoral!

Rebuliço

Acreditava-se piamente na vitória de Flávio Bolsonaro, muito por conta do enxame de institutos de pesquisa alardeando isso a todo instante na última semana. No entanto, o resultado se inverteu e chacoalhou o ambiente financeiro: os ativos despencaram cerca de 45%. Agora, o mercado aguarda o pronunciamento de Lula — a Bolsa e o dólar responderão ao tom do discurso. Sempre foi assim no pós-pleito, e sempre será.

“Mau-humorados” de plantão

Foi complicado conversar com algumas pessoas na manhã desta segunda-feira, 26 de outubro. O povo andava bicudo — o que se explica pela maioria bolsonarista local —, e a cidade demorou a pegar no tranco. Para piorar, os que foram festejar a vitória antecipada na Praça do Mitre saíram de lá com as bandeiras enroladas. O aborrecimento coletivo, claro, transbordou para as redes sociais.

Pontos cruciais da virada

Relato aqui o que ouvi entre a noite de domingo e a manhã de segunda. Durante a apuração, mantive diversas conversas no WhatsApp com pessoas de todos os perfis, classes e orientações políticas: da direita convicta ao centro tradicional, passando pela militância de esquerda. Afinal, por que Lula venceu e Flávio Bolsonaro conseguiu perder contra todos os prognósticos, pesquisas, orixás, búzios e tábuas de adivinhação?

Prepotência e ilusão

Flávio herdou e aprimorou a cartilha do pai. Apresentava-se como diplomado, graduado e pós-graduado para se dizer preparado, mas sempre em tom de desafio ao oponente. Dava broncas públicas na esposa, emitia ordens com arrogância e fechou-se com nichos da direita sem jamais se preocupar em atrair indecisos ou dar-lhes a chance de conhecê-lo melhor. Para ele, a ilusão da supremacia bastava. Ledo engano.

Seguiu os ensinamentos de Olavo de Carvalho — um Dietrich Eckart dos tempos modernos — e usou táticas populistas já suplantadas pelo tempo. É triste ver políticos tentando ressuscitar fórmulas que um dia apavoraram a humanidade. O bolsonarismo, mais uma vez, usou a máquina digital para manipular a opinião pública e tentar transformar mentiras em verdades, esquecendo que hoje a checagem de fatos está na palma da mão.

Nas raras vezes em que tentou parecer simpático, Flávio se autodestruiu ao recorrer a ofensas como “o nove dedos”, “gagá”, “velho” e “ultrapassado”, envergonhando até aliados. Correu na contramão do bom senso, e o eleitor brasileiro não tolera gracejos que cruzam a linha do ridículo. Foi isso que derrotou o pai e levou o filho à nocaute. Apanhou feio. Agora, não adianta chorar sobre o leite derramado.

Aposta em figuras desgastadas

Flávio Bolsonaro manteve no palanque figuras que desgastaram diretamente sua imagem perante a maioria dos brasileiros — nomes controversos como Zambelli, Nikolas, Marçal e Daniella, entre outros. Nos debates, a empáfia lembrou Collor sob a batuta de PC Farias: um desastre anunciado. Flávio vacilou e nem sequer entregou aos radicais de direita tudo o que eles esperavam. Jogar a culpa no retardo da apuração é bravata. Ele mesmo – inicialmente –  concordou com isso.

Causa e efeito

Os erros alimentaram a fornalha do – sem diploma – Lula. A mobilização levou idosos, deficientes e populações vulneráveis de volta às urnas, reduzindo com êxito a abstenção e os votos nulos. O impensável aconteceu e devolveu a autoestima a muitos brasileiros.

Até aí, sem grandes novidades: o PT historicamente dialoga com as bases populares, e esse engajamento já era esperado. A imprensa internacional deu a Lula a projeção e o fôlego necessários para planejar os últimos quatro anos de sua trajetória política. Ele se despedirá da vida pública como uma das figuras mais relevantes da história do país e da democracia mundial.

Como lembrou em seu discurso, Franklin D. Roosevelt governou os EUA de 1933 até sua morte em 1945 (12 anos, 1 mês e 8 dias). Mas no cenário internacional, a permanência no poder já atingiu marcas maiores: Mackenzie King governou o Canadá por mais de 21 anos; Urho Kekkonen presidiu a Finlândia por 25 anos consecutivos; Jawaharlal Nehru liderou a Índia por 17 anos; e Angela Merkel e Helmut Kohl foram chanceleres da Alemanha por 16 anos cada. Sob esse aspecto, cabe ter menos euforia e não distorcer a história.

Santana e Janones

A militância petista foi para o jogo com a faca entre os dentes, mas duas figuras foram determinantes para a virada: André Janones e Camilo Santana. Se nesta eleição Flávio Bolsonaro não contou com o apoio ostensivo dos generais, Lula soube articular a inteligência de seus comandantes paisanos. O “exército” mobilizado por Janones na arena digital foi uma jogada mestre.

E agora?

Não há muito mais o que especular. O resultado está dado, e o que se espera agora é que o Brasil se reerga no pós-eleição e que as cicatrizes comecem a cicatrizar. Que não inventem novos episódios como o 8 de janeiro — um desserviço que custou anos de atraso à nação. A ética e o respeito às regras democráticas continuam sendo o único caminho seguro para fazer política.

Rogério Bonato é responsável pela coluna No Bico do Corvo desde o século passado!